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Atrasos no radar AN/APG-85 obrigam a entregas de F-35 sem radar nos EUA

Homem com auscultadores verifica caça moderno cinzento com cockpit aberto numa hangar espaçosa.

Os atrasos no desenvolvimento do radar AN/APG-85 - oficialmente em curso desde o início de 2023 - vão ter impacto direto na Força Aérea dos EUA, que, nos próximos meses, deverá receber caças F-35A ainda sem radar instalado. O problema, porém, não se limita a um único ramo: afeta as três forças norte-americanas que operam o F-35, uma vez que o novo sensor estava destinado a substituir o AN/APG-81 e a ser introduzido gradualmente nas aeronaves do Lote 17, cujas entregas começaram em 2025 e deverão prolongar-se até setembro de 2026.

O que mudou no Lote 17 e por que o AN/APG-85 é central para o Bloco 4

O plano do programa previa que o AN/APG-85 (AESA) substituísse o AN/APG-81 e ajudasse a viabilizar a integração plena do pacote de modernização Bloco 4. No entanto, com o desenvolvimento do novo radar ainda por concluir por parte da Northrop Grumman, surgiu um desfasamento: a linha de produção continua a entregar células do Lote 17, mas o radar que deveria equipá-las não está pronto para ser instalado a tempo.

A propósito, o gabinete do programa (F-35 Joint Program Office - JPO) já tinha indicado que, até o novo sistema estar disponível, as aeronaves do Lote 17 continuariam a chegar com o APG-81. Ainda assim, a evolução da situação conduziu a uma solução provisória: aceitar aeronaves sem radar, para posterior instalação quando existirem unidades AN/APG-85 disponíveis.

Primeiras aeronaves afetadas: voos de aceitação com lastro no nariz

A primeira aeronave conhecida a ser afetada foi um F-35B que, no final de fevereiro, realizou um voo de aceitação com lastro no nariz em vez do radar avançado. O ensaio decorreu nas instalações da Lockheed Martin em Fort Worth, Texas, e foi necessário para permitir que as forças armadas pudessem aceitar temporariamente aeronaves sem radar.

Este procedimento está ligado ao enquadramento contratual: as unidades AN/APG-85 são consideradas equipamento fornecido pelo Governo, o que implica uma separação formal entre a entrega da aeronave e a disponibilização do sensor.

Mais células já voaram sem radar e o cenário pode prolongar-se

Segundo fontes associadas ao programa, vários F-35B já terão voado nas últimas semanas sem radar, embora ainda não tenham sido oficialmente entregues. A expectativa é que esta situação possa manter-se durante grande parte do ano e, potencialmente, prolongar-se para o seguinte, enquanto a Northrop Grumman conclui o AN/APG-85, concebido para substituir o AN/APG-81 e permitir a concretização do Bloco 4.

Nem a Lockheed Martin nem a Northrop Grumman prestaram declarações públicas; ambos os grupos remeteram pedidos de esclarecimento para o JPO, que não respondeu.

“Desenvolvimento concorrente” e risco assumido no Bloco 4

O Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA reconheceu que a estratégia de modernização do Bloco 4 - onde se inclui o AN/APG-85 - dependeu do desenvolvimento em paralelo de múltiplos componentes, o que acabou por criar perturbações no calendário.

O porta-voz do USMC, o capitão Jacob Sugg, afirmou que o Departamento da Defesa optou deliberadamente por um programa com elevado grau de simultaneidade entre desenvolvimento e produção, assumindo o risco de existirem aeronaves de produção à frente de certas capacidades do Bloco 4.

Manter a produção ativa pode ser menos gravoso do que parar a linha

Especialistas da indústria salientam que suspender a produção do F-35 à espera do radar teria consequências ainda mais pesadas. Heather Penney, diretora de estudos no Mitchell Institute for Aerospace Studies e antiga piloto de F-16, defendeu que entregar aeronaves sem radar é, neste contexto, “a opção menos prejudicial” para manter a linha a funcionar.

A lógica é industrial: uma paragem prolongada tende a provocar perda de mão de obra especializada e degradação de processos de fabrico, o que, por sua vez, aumentaria ainda mais os atrasos no programa.

Comparação histórica e um obstáculo adicional no F-35: a antepara do radar

Penney recordou um caso semelhante na década de 1970, quando os primeiros F-15 foram entregues sem motores devido a atrasos do fabricante Pratt & Whitney. No entanto, no F-35 existe um desafio extra relevante: a antepara onde o radar é montado foi redesenhada para o AN/APG-85 e não é compatível com o AN/APG-81, o que impede uma troca direta.

Além disso, cada radar exige software próprio e a respetiva integração na arquitetura da aeronave não é intercambiável, tornando inviável a simples substituição “um por outro” como solução de curto prazo.

O que um F-35 consegue fazer sem radar: treino, transição e operações em formação mista

Mesmo sem radar, os F-35 do Lote 17 poderão cumprir missões básicas de treino e apoiar a transição de esquadras que estejam a passar de plataformas como o A-10 ou o F-16. Segundo Penney, estas aeronaves não ficam inutilizadas: o F-35 dispõe de um sistema de visão eletro-óptica distribuída e de capacidades extensas de ligações de dados, permitindo receber informação radar de outro F-35 que opere em conjunto ou de aeronaves de gestão de batalha aerotransportada, como o E-3.

Na sua avaliação, trata-se de um meio plenamente operacional, ainda que não ofereça a capacidade total; em formações mistas, a ausência de radar num aparelho pode ser mitigada pela partilha de dados entre plataformas.

O que se segue: instalação posterior do AN/APG-85 e implicações logísticas (análise adicional)

Quando o AN/APG-85 estiver disponível, as aeronaves entregues sem radar terão de regressar a uma estrutura de manutenção/modernização para instalação e integração, o que implica planeamento adicional de calendários, disponibilidade de hangares, equipas certificadas e janelas de indisponibilidade operacional. Na prática, o benefício de manter a cadência de produção pode ser acompanhado por um “pico” posterior de trabalho de retrofit.

Há também um efeito na instrução: unidades que recebam F-35 sem radar poderão acelerar a familiarização com procedimentos gerais, operações de voo e integração em rede, mas terão de ajustar a progressão de treino para as fases que dependem diretamente do emprego do radar, reservando-as para quando o sensor estiver instalado e validado com o software correspondente ao Bloco 4.

Imagens meramente ilustrativas.

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