Com marcas como Wegovy e Ozempic, o semaglutido tem sido utilizado para apoiar a perda de peso e ajudar a controlar a diabetes, através de injecções administradas semanalmente.
Apesar da eficácia, o desconforto da picada em cada toma é, para muitas pessoas, motivo suficiente para rejeitar esta opção terapêutica. Um novo ensaio clínico aponta agora para uma alternativa potencialmente mais simples: o semaglutido oral (em comprimido), que poderá aproximar-se dos resultados obtidos com a via injectável.
Como é administrado hoje - e porque a via subcutânea faz diferença
Actualmente, o semaglutido é administrado numa dose semanal que pode ir até 2,4 mg, injectada na camada de gordura do abdómen, da coxa ou na parte posterior do braço (parte superior).
A grande questão é que, quando um medicamento passa a comprimido, tende a chegar menos fármaco à circulação do que quando é administrado por injecção subcutânea, o que pode exigir doses diárias mais elevadas para obter um efeito comparável.
Ensaio clínico: semaglutido oral (25 mg) versus placebo durante 71 semanas
Uma equipa internacional de investigadores avaliou se uma formulação em comprimido, tomada todos os dias, conseguiria resultados semelhantes aos das injecções. Para isso, analisaram o efeito de 25 mg de semaglutido por dia, em formato de comprimido.
Segundo os investigadores, as razões pelas quais muitos doentes preferem a administração oral em vez da via subcutânea passam sobretudo por aversão a agulhas e por reações cutâneas locais no local da injecção.
Além disso, sublinham uma vantagem logística relevante: ao contrário de vários medicamentos injectáveis, os fármacos orais podem não exigir cadeia de frio (transporte e armazenamento refrigerados), o que pode alargar o acesso aos cuidados da obesidade em regiões onde a falta de refrigeração é um obstáculo.
Desenho do estudo e participantes
O ensaio decorreu ao longo de 71 semanas e incluiu: - 205 pessoas a receber semaglutido - 102 pessoas a receber placebo
Em ambos os grupos, os participantes também tiveram aconselhamento sobre dieta e exercício. Os voluntários eram de quatro países e, no início, todos foram classificados como tendo excesso de peso.
Resultados: mais perda de peso e melhores marcadores metabólicos
No final do estudo, a perda de peso média foi consideravelmente superior no grupo que tomou semaglutido. Para além disso, os investigadores observaram melhorias na função física e em indicadores de saúde metabólica, incluindo parâmetros como glicemia e colesterol.
Os autores descrevem que, no ensaio, o semaglutido oral numa dose de 25 mg uma vez por dia levou a uma redução média do peso corporal de 13,6%, ou seja, mais 11,4 pontos percentuais do que o observado com placebo. Referem ainda que a perda de peso foi semelhante entre subgrupos definidos pelo IMC (índice de massa corporal) de base.
Um dado adicional relevante: quase um terço dos participantes no grupo de semaglutido oral registou uma diminuição de 20% ou mais do peso corporal.
Efeitos secundários: sobretudo gastrointestinais, geralmente transitórios
Como seria expectável, as doses de semaglutido estiveram associadas a efeitos secundários, maioritariamente gastrointestinais e náuseas. Ainda assim, foram descritos como, em geral, não graves, de intensidade ligeira a moderada, e transitórios.
No grupo do semaglutido, 74% dos participantes relataram estes efeitos, face a 42,2% no grupo do placebo.
Comparação com um ensaio anterior e o “ponto ideal” de dose diária
Estes resultados reforçam dados de um ensaio anterior em que o semaglutido tomado por via oral também foi eficaz na perda de peso. No entanto, nesse estudo, a dose diária foi de 50 mg, com benefícios apenas ligeiramente superiores aos agora observados.
Na prática, isto sugere que 25 mg por dia poderá representar um equilíbrio particularmente interessante entre eficácia e dose - uma espécie de “ponto ideal”.
O que ainda importa ter em conta na obesidade e na diabetes
Mesmo sendo um medicamento eficaz para reduzir peso, é crucial lembrar que o peso pode voltar a aumentar após a suspensão do fármaco, a menos que sejam mantidas intervenções adicionais, como exercício físico e outras abordagens terapêuticas.
Também existem pessoas que podem ter efeitos secundários mais graves, e os impactos de uma utilização a longo prazo ainda não estão totalmente esclarecidos.
Um ponto frequentemente decisivo na prática é a adesão ao tratamento: para quem evita injecções, a via oral pode facilitar a continuidade; por outro lado, comprimidos diários exigem consistência e podem implicar regras específicas de toma definidas pelo médico e pelo folheto informativo, para maximizar a absorção e minimizar desconfortos.
Próximos passos: Novo Nordisk e aprovação regulamentar
A Novo Nordisk, empresa que desenvolveu o Ozempic, está por detrás deste ensaio e encontra-se a procurar aprovação regulamentar para disponibilizar o Ozempic em embalagens de comprimidos. Caso a autorização seja concedida, a disponibilidade no mercado poderá não tardar.
Os investigadores concluem que os dados apoiam o semaglutido oral na dose de 25 mg como uma opção de tratamento eficaz para a obesidade.
O estudo foi publicado no New England Journal of Medicine (Revista de Medicina da Nova Inglaterra).
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário