Do coração arenoso do Deserto de Gobi, na Mongólia, surgiu um fóssil novo e extraordinariamente bem preservado que pode mudar de forma decisiva aquilo que sabemos sobre os paquicefalossauros - os dinossauros emblemáticos com uma cúpula de osso espesso no topo do crânio.
A descoberta de Zavacephale rinpoche no Deserto de Gobi (Mongólia)
O animal agora descrito, Zavacephale rinpoche, é o paquicefalossauro mais antigo alguma vez identificado: tem, no mínimo, 108 milhões de anos, o que recua o registo fóssil do grupo em 14 milhões de anos. Além disso, trata-se do esqueleto mais completo desta linhagem já encontrado.
A descoberta foi feita na Formação Khuren Dukh por uma equipa liderada pelo paleontólogo Tsogtbaatar Chinzorig, da Academia de Ciências da Mongólia. Segundo os investigadores, foi evidente desde o primeiro momento que tinham em mãos algo fora do comum.
O que torna este fóssil tão excepcional
Embora o esqueleto não esteja totalmente intacto - faltam partes como o pescoço, a maior parte da coluna vertebral e segmentos de alguns membros -, continua a ser, de longe, o mais completo esqueleto de paquicefalossauro alguma vez recuperado.
Entre as características mais notáveis contam-se:
- Um crânio preservado de forma espetacular, em três dimensões;
- A primeira mão de paquicefalossauro alguma vez reconhecida no registo fóssil;
- Pedras no estômago (gastrolitos), associadas ao auxílio na digestão;
- Uma cauda completa, incluindo tendões preservados.
Chinzorig sublinhou que a preservação de Zavacephale é invulgar mesmo quando comparada com outros exemplares da mesma localidade, como os holótipos do dinossauro iguanodontídeo Choyrodon e do ornitomimossauro primitivo Harpymimus. Acrescentou ainda que o crânio de Zavacephale está “exquisitamente preservado e em três dimensões”, sem sinais de deformação antes ou depois da morte.
A paleontóloga Lindsay Zanno, da Universidade Estatal da Carolina do Norte, descreveu o impacto do primeiro contacto com o fóssil: “A primeira vez que vi Zavacephale, fiquei literalmente sem fôlego. Toda a gente que o viu ficou maravilhada.”
Zanno explica que este nível de preservação é provavelmente resultado de um processo de fossilização em arenito, que terá coberto rapidamente os restos em material relativamente macio, amortecendo os ossos e protegendo-os das pressões que os poderiam esmagar.
Paquicefalossauros: um grupo famoso, mas ainda cheio de incógnitas
Os paquicefalossauros formam um grupo de dinossauros que viveu sobretudo no Cretácico Superior, aproximadamente entre 86 e 66 milhões de anos. As suas ornamentações cranianas eram particularmente elaboradas: cúpulas grandes e proeminentes de osso engrossado e fundido, além de cornos e saliências ósseas. Os cientistas consideram que estes elementos estariam ligados a comportamentos sociais e de reprodução.
Apesar da fama destas “cabeças em cúpula”, persistem muitas perguntas sem resposta. Os fósseis de paquicefalossauros são raros e, quando surgem, estão frequentemente muito incompletos, muitas vezes limitando-se a fragmentos do crânio. É por isso que um exemplar tão inteiro como Zavacephale tem um valor científico excecional.
Tamanho e idade do animal: pequeno, mas revelador
Em vida, Zavacephale era um dinossauro de pequena dimensão: teria cerca de 1 metro de comprimento e pesaria aproximadamente 5,85 kg.
Para estimar a idade do animal quando morreu, os paleontólogos analisaram os anéis de crescimento nos ossos dos membros - uma técnica semelhante, em princípio, à leitura de anéis em troncos de árvores. Foi assim que concluíram que este indivíduo era juvenil, um adolescente da sua espécie. No entanto, havia um detalhe surpreendente: a cúpula craniana já estava totalmente madura.
Cúpula craniana e comportamento: “armado” para competir na adolescência
Zanno chamou a atenção para o carácter quase exuberante destas estruturas: “As cabeças em cúpula e ornamentadas de alguns paquicefalossauros são tão barrocas, e ainda não compreendemos por completo a sua função. Serviam para combates cabeça com cabeça, para exibição, ou um pouco de ambos?”
Para responder, é crucial perceber em que fase da vida a cúpula se forma por completo. E aqui Zavacephale oferece uma oportunidade inédita: como o esqueleto é tão completo, os investigadores puderam comparar, no mesmo indivíduo, o estado de desenvolvimento da cúpula e do restante corpo.
A equipa examinou as suturas internas da cúpula com tomografia computorizada (TC) e cruzou essa informação com o registo de crescimento nos ossos dos membros. A conclusão foi clara: Zavacephale “já estava totalmente equipado para exibir-se e competir com os seus semelhantes durante a adolescência”.
Uma “Pedra de Roseta” para a evolução dos paquicefalossauros
Por ser o paquicefalossauro mais antigo conhecido, Zavacephale funciona também como uma espécie de “Pedra de Roseta” para decifrar a evolução do grupo. Os investigadores observaram que, neste animal, a cúpula do crânio era composta sobretudo pelos ossos da testa - um contraste interessante com espécies mais tardias, cujas cúpulas incorporam uma porção maior do crânio.
Zanno destacou ainda um ponto particularmente revelador: em algumas espécies posteriores, a cúpula, ao longo do crescimento (de bebé a adulto), passa por uma fase que se assemelha à condição observada em Zavacephale. Isto sugere que Zavacephale pode ser uma ponte entre mudanças evolutivas e mudanças do desenvolvimento ao longo da vida.
O que os gastrolitos e a cauda podem vir a esclarecer
As pedras no estômago são um detalhe de grande interesse porque, noutros dinossauros, os gastrolitos têm sido associados à trituração de alimento no aparelho digestivo, podendo ajudar a inferir aspetos da dieta e do modo de alimentação. Num paquicefalossauro, onde o registo é tão fragmentário, este tipo de evidência pode revelar pistas adicionais sobre hábitos alimentares e ecologia.
Também a cauda com tendões preservados abre portas para interpretar melhor a postura, a rigidez corporal e possíveis estratégias de movimento. Em muitos dinossauros, tendões ossificados ou bem marcados estão ligados à estabilização do corpo, o que pode ter implicações na forma como estes animais se deslocavam e equilibravam.
Próximos passos: décadas de trabalho pela frente
O estudo detalhado desta descoberta rara já está em curso. Os paleontólogos estão a analisar a cúpula com maior profundidade para tentar clarificar a sua função. A mão minúscula, os gastrolitos e o tendão ao longo da cauda também são considerados elementos de enorme relevância.
Nas palavras de Zanno, Zavacephale é “o paquicefalossauro mais completo alguma vez descoberto” e os autores esperam que muitos colegas procurem estudá-lo de perto: “Há, literalmente, décadas de investigação pela frente.”
A descoberta foi publicada na revista Nature.
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