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Nova estratégia pode reduzir recidivas do cancro da mama ao eliminar células tumorais dormentes

Investigadora a mostrar dados sobre cancro a mulher com lenço e laço cor-de-rosa numa clínica.

Quase 30% dos tratamentos bem-sucedidos de cancro da mama acabam por ser seguidos pelo regresso do tumor - um desfecho associado a cerca de 685.000 mortes por ano em todo o mundo. Uma investigação recente aponta agora para uma forma de diminuir de modo relevante estes casos de recidiva.

Cancro da mama: atacar as células tumorais dormentes (DTCs) para evitar a recidiva

Um estudo coordenado por cientistas da Universidade da Pensilvânia indica que, se for possível identificar e atingir activamente as células tumorais dormentes (DTCs) que permanecem escondidas na medula óssea e noutros locais do organismo, será possível manter doentes livres de cancro durante mais tempo.

Até aqui, após o fim do tratamento, a prática habitual tem sido um acompanhamento rigoroso para perceber se o tumor regressa. A proposta apresentada pelos investigadores segue outra lógica: em vez de esperar e vigiar, procura-se intervir de forma preventiva, usando fármacos para atacar o que pode estar na origem do reaparecimento da doença.

“Neste momento, simplesmente não sabemos quando - ou sequer se - o cancro de alguém vai voltar. Foi esse o problema que nos propusemos resolver”, afirma a oncologista médica Angela DeMichele, da Universidade da Pensilvânia.

“O nosso estudo mostra que prevenir a recidiva através da monitorização e do alvo terapêutico nas células tumorais dormentes é uma estratégia com verdadeiro potencial, e espero que estimule mais investigação nesta área.”

Por que razão as DTCs se tornaram um alvo terapêutico apenas recentemente

Só nos últimos anos estas células dormentes foram confirmadas como um alvo plausível de tratamento. Trabalhos recentes já tinham sugerido vias biológicas e medicamentos capazes de chegar às DTCs, levando esta equipa a testar hidroxicloroquina (usada em doenças auto-imunes), everolimus (um fármaco anti-cancro já existente) - ou a combinação de ambos.

Resultados em pessoas: redução marcada das DTCs e elevada sobrevivência a 3 anos

A equipa realizou uma série de testes com 51 pessoas que já tinham tido cancro da mama e nas quais se confirmou a presença de DTCs. Os resultados foram muito expressivos:

  • Cada fármaco, isoladamente, eliminou até 80% das DTCs.
  • Em conjunto, hidroxicloroquina + everolimus foram ainda mais eficazes, removendo 87% das células dormentes.

No grupo que recebeu os dois medicamentos, todas as participantes permaneceram sem cancro ao fim de três anos. Entre quem tomou apenas um dos fármacos, a taxa de sobrevivência manteve-se elevada, na ordem dos 92–93%.

Resultados em modelos murinos e pistas sobre o mecanismo de acção

Antes dos ensaios em pessoas, o método foi avaliado em modelos murinos de cancro, onde se observaram resultados igualmente positivos. Estes testes em animais permitiram ainda analisar com mais detalhe como os medicamentos estavam a actuar.

“De forma surpreendente, verificámos que alguns medicamentos que não funcionam contra cancros em crescimento activo podem ser muito eficazes contra estas células adormecidas”, explica o biólogo do cancro Lewis Chodosh, da Universidade da Pensilvânia.

“Isto mostra-nos que a biologia das células tumorais dormentes é muito diferente da das células cancerígenas activas.”

O que falta esclarecer e quais são os próximos passos

Nem todas as sobreviventes de cancro da mama mantêm DTCs no organismo. Contudo, para quem as tem, os sinais iniciais desta abordagem são encorajadores. Os investigadores planeiam agora:

  • realizar ensaios com um número maior de participantes;
  • testar outras combinações de fármacos;
  • explorar diferentes doses para optimizar eficácia e segurança.

Um ponto adicional importante é a forma como estas células são confirmadas: a presença de DTCs tende a ser investigada em locais como a medula óssea, o que levanta desafios práticos de triagem e acompanhamento. Se esta estratégia avançar, poderá ser necessário definir critérios claros sobre quem deve ser testado, quando e com que frequência, para que o tratamento preventivo seja aplicado de forma racional.

Também será essencial equilibrar benefício e tolerabilidade. Hidroxicloroquina e everolimus são medicamentos já conhecidos, mas a utilização num contexto preventivo (em pessoas sem evidência de doença activa) exigirá uma avaliação cuidadosa de efeitos indesejáveis, interacções e impacto na qualidade de vida, sobretudo em tratamentos prolongados.

Por que a recidiva continua a ser tão difícil de eliminar

Actualmente, quando o cancro da mama regressa, é praticamente impossível erradicá-lo por completo, o que contribui para uma parte significativa das mortes associadas à doença. Esta realidade ensombra a eficácia do tratamento inicial, mesmo quando o primeiro controlo parece bem-sucedido.

“O medo persistente de o cancro voltar é algo que paira sobre muitas sobreviventes de cancro da mama depois de celebrarem o fim do tratamento”, refere DeMichele.

A investigação foi publicada na revista Medicina da Natureza.

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