Passar uns minutos extra sentado na sanita com o telemóvel pode parecer um hábito inofensivo enquanto se faz a evacuação, mas a evidência disponível sugere que prolongar o tempo na casa de banho aumenta o risco de vários problemas de saúde. A seguir, ficam os principais - e porquê.
1. Hemorroidas (associadas ao tempo prolongado na sanita)
Um estudo recente observou que usar o telemóvel enquanto se faz a evacuação está associado a um aumento de 46% no risco de desenvolver hemorroidas. Uma ida “saudável” à casa de banho deveria, em regra, durar apenas 2 a 3 minutos; no entanto, o estudo verificou que 37% dos participantes que usavam o telemóvel na sanita ficaram lá mais de 5 minutos.
As hemorroidas são vasos sanguíneos dilatados que surgem no interior ou à volta do ânus. Desenvolvem-se devido ao aumento de pressão nas chamadas “almofadas anais” - uma parte do tecido esponjoso que envolve o ânus e que permite a sua expansão durante a expulsão das fezes.
Ficar sentado demasiado tempo na sanita aumenta a pressão sobre estas almofadas, favorecendo o aparecimento de hemorroidas - tal como acontece quando se faz força (esforço) para tentar “empurrar” as fezes.
Estima-se que 50% a 85% das pessoas no mundo tenham hemorroidas em algum momento. Os sintomas podem incluir hemorragia indolor, irritação, comichão e desconforto. Ainda assim, nem sempre dão sinais: há quem as tenha sem se aperceber.
As hemorroidas também podem originar complicações, como anemia por sangramento prolongado e, em alguns casos, estrangulamento ou trombose (formação de coágulo) dentro da hemorroide - situações geralmente associadas a dor intensa.
2. Fissuras anais (ou pequenas lacerações)
Permanecer sentado na sanita durante muito tempo pode contribuir para fissuras anais (pequenos cortes/rasgões no revestimento do ânus). Estas fissuras costumam causar dor marcada - muitas vezes descrita como a sensação de “passar vidro partido” durante a evacuação - e podem vir acompanhadas de sangue vermelho vivo.
O revestimento anal é fino; quando se fica sentado por períodos prolongados, o sangue tende a acumular-se na região, esticando esse revestimento e tornando-o mais vulnerável a lesões quando as fezes passam.
3. Prolapso (prolapso retal)
Após estar muito tempo na sanita, não são apenas as fezes que podem sair: o risco de o reto exteriorizar pode aumentar - uma condição chamada prolapso retal.
Este problema pouco frequente foi descrito num homem que tinha o hábito de permanecer até 30 minutos na sanita a jogar no telemóvel. Um dia, ao tentar evacuar, notou cerca de 14 cm do reto a protruir para fora do corpo.
Sentar-se por muito tempo eleva a pressão no abdómen e, por consequência, aumenta a carga sobre os músculos do pavimento pélvico. Estes músculos ajudam a manter os órgãos internos - incluindo o reto - na posição. A pressão repetida e prolongada pode enfraquecê-los.
Nas mulheres, este enfraquecimento pode também favorecer o prolapso de outros órgãos pélvicos, como o útero.
O prolapso retal costuma ser doloroso e, perante um episódio, é necessário ir ao hospital para reposicionamento. Se acontecer repetidamente ou se for um caso particularmente grave, pode ser necessária cirurgia.
4. Feridas e úlceras de pressão
Ficar sentado na sanita por muito tempo, sobretudo em pessoas idosas, pode aumentar o risco de feridas/úlceras de pressão na pele que está em contacto com o assento.
A permanência prolongada comprime os tecidos e reduz a circulação sanguínea local. Isso pode levar à acumulação de substâncias nocivas, lesando os tecidos e provocando a sua degradação. As úlceras de pressão são dolorosas.
5. Hérnia do hiato
O tempo prolongado na sanita e o esforço para evacuar podem contribuir para a hérnia do hiato, especialmente em pessoas mais suscetíveis (incluindo quem tem obesidade ou tem mais de 50 anos).
Nesta condição, parte do estômago e outros órgãos abdominais podem deslizar através da abertura do diafragma (um músculo em forma de cúpula que participa na respiração), acabando por subir para a cavidade torácica.
As hérnias do hiato são frequentes e afetam cerca de 20% das pessoas. Costumam causar azia/indigestão, dores no estômago e desconforto à volta das costelas e do peito. Podem ser tratadas com medicação para reduzir a acidez produzida pelo estômago; nos casos mais graves, pode ser necessária cirurgia.
6. Neuropatia do assento da sanita
Sentar-se demasiado tempo na sanita comprime nervos e vasos sanguíneos importantes, diminuindo o aporte de sangue às pernas. Isso pode provocar adormecimento das pernas - um fenómeno conhecido como neuropatia do assento da sanita (ou da sanita).
Habitualmente, a sensação desaparece ao fim de alguns minutos. Ainda assim, existem relatos clínicos de pessoas que, após uma noite a beber, desmaiaram na sanita e ali permaneceram durante horas; ao acordarem, estavam completamente dormentes e incapazes de se mover. Num caso extremo, um homem desenvolveu gangrena, sépsis e acabou por falecer após adormecer na sanita.
7. Desmaio (síncope vasovagal)
Um tempo prolongado na sanita, combinado com esforço, pode também aumentar o risco de desmaio.
Esta situação, chamada síncope vasovagal, pode ocorrer quando o esforço prolongado irrita o nervo vago. Este nervo participa no controlo de várias funções automáticas do corpo, incluindo a frequência cardíaca e a pressão arterial.
Na chamada síncope associada à defecação, a pressão arterial pode cair de forma súbita quando a pessoa se levanta da sanita. A frequência cardíaca também diminui, podendo surgir tonturas, sensação de cabeça leve e desmaio.
A forma mais saudável de evacuar
Para reduzir o risco de todos estes problemas, procure minimizar o tempo sentado na sanita.
Também pode ser útil ajustar a posição. Há alguma evidência de que a posição de cócoras (ou uma postura que a imite) facilita a evacuação, reduzindo o esforço necessário. Contudo, outros estudos sugerem que esta posição pode, potencialmente, aumentar o risco de outros problemas de saúde - como AVC e lesão do tendão de Aquiles.
Se costuma demorar mais de 5 minutos a evacuar, outras recomendações incluem aumentar a ingestão de fibra e beber mais água, já que ambas favorecem evacuações mais regulares e podem reduzir a necessidade de fazer força durante o trânsito intestinal.
Além disso, vale a pena encarar o tempo na sanita como um momento “funcional”, e não como um intervalo para ler, ver vídeos ou jogar: criar o hábito de entrar, evacuar e sair ajuda a evitar que o corpo associe a sanita a permanências prolongadas que aumentam a pressão na região pélvica.
Se houver dor intensa, sangramento persistente, alteração do padrão intestinal por várias semanas, sensação de “massa” a exteriorizar, ou episódios de desmaio, deve procurar avaliação médica - estes sinais podem indicar complicações ou problemas que exigem tratamento.
Adam Taylor, Professor de Anatomia, Universidade de Lancaster
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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