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Sophie Adenot partilha a sua playlist para o espaço: estes são os artistas que a acompanham em órbita.

Astronauta da ESA flutua no interior da ISS com vista para a Terra através da janela panorâmica.

Antes de atravessar a atmosfera rumo à Estação Espacial Internacional (ISS), uma astronauta francesa fez questão de preparar um detalhe muito pessoal: a música que a vai acompanhar.

Entre contas de órbita, exercícios de emergência e sessões em gravidade zero, Sophie Adenot encontrou tempo para criar uma playlist completa, em colaboração com uma plataforma de streaming. O resultado é uma rara “janela” para a dimensão humana de uma missão espacial - aquilo que não aparece nos procedimentos, mas sustenta o dia a dia.

Sophie Adenot leva a playlist “Dream Astro” para nove meses na ISS

Primeira mulher francesa escolhida para uma missão de longa duração na ISS, Sophie Adenot vai passar cerca de nove meses em órbita com uma playlist chamada Dream Astro. A selecção reúne 43 temas e será actualizada ao longo de toda a missão Epsilon.

Mais do que um simples passatempo entre experiências científicas e tarefas de manutenção, a música foi pensada para criar um “ambiente emocional” para cada etapa: desde o trajecto até ao foguetão, passando pelo período de adaptação em microgravidade, até às horas mais silenciosas em que se observa a Terra através da janela do módulo.

Numa missão espacial, a banda sonora funciona quase como um diário de bordo emocional: regista, sem palavras, o estado de espírito de quem vive em órbita.

Três músicas para o autocarro até à base de lançamento

Cada elemento da tripulação pode escolher três músicas para ouvir no autocarro que leva a equipa até à plataforma de lançamento - para muitos, um dos percursos mais tensos de toda a carreira. Para Sophie Adenot, é também um momento de foco e de afirmaar identidade antes do “ponto sem retorno”.

As três escolhas cumprem papéis distintos:

  • Happy, de Pharrell Williams - o emblema da sua postura optimista;
  • I’m Good (Blue), de David Guetta e Bebe Rexha - energia directa, ideal para a madrugada que antecede o lançamento;
  • Valhalla Calling, na versão de Miracle of Sound com Peyton Parrish - um verdadeiro “chamamento à aventura”, com atmosfera viking.

Segundo a astronauta, o tema inspirado no imaginário nórdico transformou-se quase num ritual: era frequentemente usado para abrir as sessões de treino das caminhadas espaciais (as chamadas actividades extraveiculares). A intensidade “épica” combina com a ideia de sair do interior protegido da estação e enfrentar o vazio.

Nos auscultadores, o “chamamento de Valhalla” assinala o início das simulações de caminhada espacial - como se dissesse: agora começa a aventura a sério.

Pop global, divas e canções francesas a flutuar em microgravidade

Para lá do trio associado ao lançamento, a playlist revela um gosto variado: cabe tanto cultura pop internacional como referências afectivas com forte sabor francês - além de algumas escolhas menos previsíveis.

Entre os artistas presentes encontram-se:

  • Pharrell Williams, com pop luminoso;
  • Lady Gaga, em temas com grande carga emocional;
  • Aya Nakamura, nome central do pop e R&B francófono contemporâneo;
  • Céline Dion, com baladas que muitos franceses sabem de cor.

Esta curadoria não é inocente. Ter “músicas para cantar” em órbita é uma estratégia prática: vários astronautas descrevem pequenos momentos de karaoke improvisado como uma forma eficaz de aliviar a saudade da Terra e quebrar a rigidez da rotina.

De Christophe Maé a Taylor Swift: nostalgia, aventura e um toque viking

A selecção inclui ainda nomes e estilos que atravessam gerações, como Christophe Maé (muito popular em França) e Taylor Swift (ícone global do pop), ao lado de sonoridades nórdicas que se fazem notar sobretudo em “Valhalla Calling”.

O contraste tem lógica: por um lado, músicas que fazem lembrar casa; por outro, temas que soam a banda sonora de filme. Numa missão na ISS, procedimentos altamente técnicos coexistem com instantes profundamente íntimos - e a música ajuda a fazer a ponte.

Momento da missão Tipo de música Função emocional
Viagem no autocarro até ao foguetão Pop energético e épico Reforçar foco e coragem
Horas de voo até à ISS Pop, electrónico, baladas Ocupar o tempo e reduzir o stress
Noites tranquilas em órbita Temas afectivos e introspectivos Atenuar a saudade de casa

Música como ferramenta psicológica nas missões espaciais

A playlist de Sophie Adenot está longe de ser um capricho. As agências espaciais encaram a música como um recurso psicológico relevante para lidar com confinamento, rotina rígida e isolamento extremo.

Na ISS, os astronautas passam frequentemente seis meses ou mais num ambiente fechado, com poucas áreas verdadeiramente privadas. Os auscultadores e as listas personalizadas garantem minutos de intimidade. A música torna-se uma “porta mental” para outro lugar, mesmo quando o corpo está a flutuar a cerca de 400 quilómetros acima da superfície.

Em microgravidade, uma canção simples pode tornar-se um atalho directo para memórias de infância, família ou viagens feitas na Terra.

Historicamente, os programas de voo também recorriam a músicas de “despertar” - as famosas wake-up calls - muitas vezes escolhidas por familiares e equipas em terra. Hoje, com o streaming e conteúdos offline, cada astronauta consegue transportar um universo musical inteiro, pronto a usar quando a agenda o permite.

Um pormenor menos falado é que a música também entra na rotina física: durante o exercício diário (essencial para combater a perda de massa óssea e muscular), ter um alinhamento certo pode ajudar a manter motivação e ritmo - um benefício particularmente útil ao longo de meses.

O papel da Deezer na missão Epsilon e a ponte com quem está na Terra

A parceria com a Deezer dá estatuto “oficial” à playlist Dream Astro: a plataforma aloja a selecção e compromete-se a acompanhar a missão Epsilon com actualizações ao longo dos meses.

Isto cria uma ligação interessante: quem está em terra pode ouvir exactamente os mesmos temas que acompanham a rotina de uma astronauta em órbita. A missão ganha assim uma camada cultural e emocional, aproximando investigação espacial de hábitos quotidianos tão banais como ouvir música no autocarro ou no treino.

Porque a diversidade musical faz diferença em órbita

A variedade de estilos responde a necessidades muito diferentes ao longo de uma missão de longa duração. Alguns exemplos ajudam a perceber este uso “táctico” da música:

  • Dias carregados de experiências e manutenção: temas mais vivos ajudam a manter energia em tarefas repetitivas e técnicas.
  • Momentos de contemplação pela janela da estação: baladas ou músicas mais etéreas encaixam bem com a visão da Terra iluminada.
  • Datas especiais, como aniversários e celebrações à distância: canções associadas à família reforçam laços afectivos apesar da separação.
  • Fadiga mental: músicas extremamente familiares oferecem conforto imediato, quase automático.

Esta alternância evita que a banda sonora se torne monótona e permite que a música acompanhe tanto o ritmo operacional da ISS como os altos e baixos emocionais de uma estadia prolongada no espaço.

Termos-chave, riscos e o que pode mudar no futuro

Alguns conceitos merecem enquadramento. Missão Epsilon é o nome escolhido para o voo de longa duração de Sophie Adenot à ISS, seguindo a tradição europeia de baptizar missões com referências simbólicas (muitas vezes inspiradas no alfabeto grego). Já actividade extraveicular (ou caminhada espacial) designa qualquer operação realizada fora da estação, com fato pressurizado - seja para manutenção, instalação de equipamento ou testes.

Olhando para missões ainda mais longas, como futuras viagens a Marte, a gestão do bem-estar psicológico tende a tornar-se tão decisiva como a tecnologia de propulsão. As playlists podem ganhar novas funções: rotinas de relaxamento guiadas por música, alinhamentos específicos para períodos de risco elevado, ou até composições desenhadas para microgravidade, explorando como a percepção sonora muda num ambiente com menos referências sensoriais.

Há, porém, riscos discretos no uso excessivo de auscultadores: isolamento dentro do próprio isolamento, menor disponibilidade para comunicação imediata em situações críticas e distracção durante tarefas de segurança. Por isso, equipas médicas e psicólogos definem regras claras sobre quando e onde a música pode acompanhar o trabalho em órbita.

Ainda assim, a experiência de Sophie Adenot mostra benefícios concretos: a playlist funciona como ferramenta de concentração, alívio de tensão e preservação de identidade pessoal num contexto altamente padronizado. Entre protocolos, listas de verificação e experiências científicas, algumas músicas de Pharrell Williams, Lady Gaga, Aya Nakamura, Céline Dion - e um toque viking - lembram que, por trás do visor do capacete, continua a existir uma pessoa a tentar manter-se humana enquanto dá voltas à Terra.

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