O Paquistão está na recta final para fechar um acordo de defesa avaliado em cerca de 1,5 mil milhões de dólares norte-americanos com o Sudão, que prevê o fornecimento às Forças Armadas sudanesas de aeronaves, drones e sistemas de defesa aérea. Informações tornadas públicas recentemente indicam que este pacote de armamento pretende reforçar as capacidades militares do Sudão no contexto da guerra civil que opõe o governo às Forças de Apoio Rápido (RSF).
Segundo as mesmas fontes, o entendimento inclui a entrega de mais de 200 drones para missões de reconhecimento e para ataques com munições merodeadoras, bem como 10 aeronaves de ataque ligeiro K-8 Karakoram. Estariam igualmente previstos sistemas avançados de defesa aérea, embora não tenham sido divulgados pormenores técnicos. O pacote abrangeria ainda aviões de treino PAC MFI-395 Super Mushshak e poderá vir a integrar caças JF-17 Thunder, desenvolvidos em conjunto pelo Paquistão e pela China; por agora, não há números finais nem calendário de entregas.
O marechal do ar paquistanês na reforma Aamir Masood, que continua a receber informações relacionadas com a Força Aérea, classificou o acordo como “concretizado”. Em contrapartida, o governo de Islamabad não respondeu aos pedidos de comentário, e um porta-voz do exército sudanês também recusou prestar declarações.
As fontes não esclareceram como será estruturado o financiamento. Ainda assim, Masood admitiu que a Arábia Saudita poderá ter um papel relevante, permanecendo por confirmar se Riade actuará como financiador directo ou se se limitará a facilitar a operação.
Acordo de defesa Paquistão–Sudão: contexto e implicações imediatas
Caso avance nos termos reportados, o acordo de defesa poderá traduzir-se não apenas em novas plataformas, mas também em necessidades adicionais de formação, manutenção e logística, sobretudo no que toca a drones e sistemas de defesa aérea. Em cenários de guerra civil, a disponibilidade de peças, munições e equipas técnicas tende a ser tão determinante quanto a aquisição inicial, influenciando o impacto real do material no terreno.
Paralelamente, a eventual inclusão de aeronaves como o JF-17 Thunder levanta, por natureza, questões de integração operacional: desde infra-estruturas de baseamento a cadeias de abastecimento e capacitação de pilotos e mecânicos. Estes factores costumam ditar prazos e volumes efectivos, mesmo quando o anúncio político é ambicioso.
O papel da Força Aérea do Sudão na guerra civil
Desde o início da guerra civil, em Abril de 2023, a Força Aérea do Sudão passou a ser um elemento decisivo para sustentar a arquitectura militar do Estado face ao avanço das RSF. Vários analistas defendem que, sem o recurso consistente a meios aéreos, diversas bases militares-chave em Jartum teriam sido tomadas pelas forças paramilitares nas fases iniciais do conflito.
No plano operacional, a aviação sudanesa tem recorrido repetidamente a caças MiG-29 em missões de interdição a baixa altitude e a uma combinação de acções aéreas e terrestres em zonas como Darfur e Kordofão, procurando cortar linhas logísticas das RSF, em particular as que chegam a partir do sul da Líbia. No final de 2025, as Forças Armadas Sudanesas comunicaram que ataques aéreos em Kordofão permitiram destruir 240 viaturas de combate das RSF e neutralizar activos de drones instalados no aeroporto de Nyala.
O inventário da Força Aérea do Sudão é composto maioritariamente por plataformas de origem russa e chinesa, incluindo MiG-21, MiG-23, MiG-29, Su-24 e Su-25, bem como aeronaves chinesas como Nanchang Q-5, Shenyang J-6 e Chengdu J-7. A estas capacidades juntam-se treinadores avançados FTC-2000 Shanying, adquiridos à China em 2016, que acrescentam uma vertente adicional de combate ligeiro.
Intensificação do uso de drones pelas Forças de Apoio Rápido (RSF)
O possível acordo com o Paquistão surge num ambiente em que se intensificou o uso de drones por parte das RSF. Esta semana, forças paramilitares terão efectuado um ataque com drones contra uma base do exército na cidade de Sinja, no sudeste do país, causando 27 mortos e 73 feridos, segundo fontes militares e de saúde citadas pela agência AFP.
Um responsável militar afirmou que os drones das RSF “atacaram o quartel-general da 17.ª Divisão de Infantaria do exército”, enquanto o ministro da Saúde do estado de Sennar, Ibrahim al-Awad, confirmou o número de vítimas. O ataque ocorreu um dia depois de o governo alinhado com o exército ter anunciado o seu regresso a Jartum, após quase três anos a operar a partir de Port Sudan.
Desde Abril de 2023, o conflito provocou dezenas de milhares de mortos, o deslocamento de 11 milhões de pessoas e uma crise humanitária que as Nações Unidas classificaram como uma “atrocidade de guerra”, com acusações de ataques contra civis dirigidas a ambas as partes.
Expansão das exportações de defesa do Paquistão
A negociação com o Sudão encaixa numa estratégia mais ampla de crescimento das exportações de defesa paquistanesas. Nas últimas semanas, Islamabad terá fechado um acordo superior a 4 mil milhões de dólares para vender caças JF-17 Thunder ao Exército Nacional da Líbia (LNA), segundo fontes paquistanesas citadas por meios internacionais, apesar de se manterem embargos de armas impostos pelas Nações Unidas sobre Trípoli.
Em paralelo, o Paquistão mantém conversações com a Arábia Saudita sobre uma possível troca de dívida por aeronaves JF-17, operação que poderá atingir vários milhares de milhões de dólares e ajudar a aliviar a pressão financeira do país, actualmente sob um programa de assistência do Fundo Monetário Internacional no valor de 7 mil milhões de dólares.
Neste quadro, um eventual acordo com o Sudão reforçaria o posicionamento do Paquistão como fornecedor relevante de sistemas de armas em África e no Médio Oriente, num período marcado por conflitos prolongados e por uma reconfiguração de alianças militares.
Imagens meramente ilustrativas.
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