Saltar para o conteúdo

Quem está nesta função ganha mais ao mudar de empresa do que de cargo.

Mulher a analisar cartões de crédito enquanto trabalha num portátil num ambiente de escritório moderno.

Numa quinta-feira, às 8h12, o open space já fervilha. A Emilie inclina-se sobre a caneca de café intragável, de olhos bem abertos: “Não mudei de profissão. Só mudei de empresa. Ofereceram-me mais 19 mil.” Mesma designação, mesmas tarefas, o mesmo nível no organigrama. Crachá novo, salário mais pesado.

À volta dela, dois colegas ficam parados a meio de um e-mail. Um espera há três anos por um aumento que nunca se concretiza. O outro acabou de receber um “prémio” de 2,5% depois de uma avaliação de desempenho excelente.

Alguém solta uma gargalhada nervosa. Outra pessoa abre o LinkedIn noutra aba.

O mais surreal? A história da Emilie não é a excepção. É o padrão.

Porque é que pessoas na mesma função ganham mais ao mudar de empresa

À partida, o guião parecia simples: ficar, crescer, ser promovido e ganhar mais. Ser leal, somar aumentos, subir degrau a degrau com cuidado. Foi isto que nos ensinaram.

Só que quem muda discretamente de empresa - sem mudar de função - muitas vezes ultrapassa a corrida inteira. Mantém o mesmo título, a mesma família profissional e, por vezes, até responsabilidades praticamente idênticas. O que muda é o logótipo no portátil.

Dentro de uma empresa, os salários sobem como um elevador antigo: devagar e com limites. Lá fora, saltam como um comboio rápido.

Veja-se o caso de engenheiros de software. Um developer de nível intermédio que permaneça cinco anos na mesma empresa pode ir recebendo aumentos anuais de 2% a 4%, talvez um pouco mais se a chefia “puxar” por orçamento. Ao fim de cinco anos, dá para notar - mas raramente transforma a vida.

Compare-se com alguém na mesma função que troca de empresa a cada 2–3 anos. Essa pessoa negoceia a partir do valor actual de mercado, e não do que os RH decidiram pagar em 2019. Um salto de 15% a 20% é frequente. Às vezes, mais.

Depois da segunda mudança, não é raro estar a ganhar mais 30% a 40% do que o colega que ficou. Mesma profissão. Estratégia diferente.

Há uma lógica por trás disto. Dentro de uma organização, o seu salário fica preso a “bandas salariais”, orçamentos e à famosa “equidade interna”. Os RH evitam criar “desequilíbrios” entre colegas, e por isso o seu aumento bate num tecto invisível.

De fora, já não é “aquela pessoa que contratámos barato há cinco anos”. É um perfil no mercado: um candidato com salário actual, um pedido claro e uma proposta de valor. Um caso de negócio - não uma linha na folha de cálculo do ano passado.

O mercado compra as suas competências; a sua empresa compra a narrativa que criou sobre si.

Como usar esta realidade (mudar de empresa na mesma função) sem destruir a carreira

O primeiro passo quase não se vê: começar a colocar preço no seu perfil com calma. Não é “o seu valor enquanto pessoa”. É o seu valor de mercado na sua função. Isso implica espreitar intervalos salariais em anúncios, consultar bases de dados anónimas e perguntar, com critério, a colegas de confiança quanto ganham.

Não precisa de disparar o currículo para todo o lado. Precisa de dados. Números reais para comparar com o seu recibo de vencimento.

Quando percebe a diferença, decide o que faz: negociar internamente, testar o mercado ou as duas coisas. O essencial é agir antes de chegar ao ponto do desespero.

Muita gente espera pelo “momento ideal”: depois deste projecto, depois desta promoção, depois da próxima avaliação. E passa um ano. E depois dois.

Chega aquele instante em que cai a ficha: foi leal a uma empresa que o trata como um custo numa rubrica. Dói. Então agarra-se à equipa, ao conforto, à rotina. Convence-se de que “não é só dinheiro”. E é verdade - até a renda subir.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém acompanha o próprio valor como se fosse uma cotação em bolsa. Mas passar cinco ou sete anos sem verificar? É assim que se acorda mal pago e sem margem de manobra.

Há ainda um ponto pouco falado: em Portugal, muitos aumentos “internos” são engolidos por actualizações tímidas e por estruturas rígidas, enquanto as mudanças de empresa costumam vir acompanhadas de ajustes mais agressivos (salário base, subsídio de alimentação, bónus, seguro de saúde, política híbrida). Quando comparar propostas, olhe para o pacote todo - e para o líquido estimado - para evitar trocar um “aumento” por uma ilusão.

Outra nota prática: planeie a transição como um projecto. Respeite prazos de aviso prévio no contrato, avalie cláusulas de exclusividade/não concorrência e prepare uma passagem de conhecimento limpa. Mudar de empresa na mesma função pode ser uma decisão estratégica - e também uma forma de proteger a sua reputação.

Por vezes, o aumento mais radical é aquele em que mantém o mesmo trabalho, mas deixa de jogar pelas mesmas regras internas.

  • Acompanhe o seu intervalo real
    Use pelo menos três fontes: sites de salários, mensagens de recrutadores e anúncios activos com bandas salariais.

  • Treine uma frase de negociação
    “Com base na minha pesquisa e em propostas recentes na nossa área, o meu intervalo de mercado está à volta de X–Y.” Repita até soar natural.

  • Teste a água de forma segura
    Candidate-se a algumas vagas com o seu título actual. Sem compromisso. O objectivo é perceber intervalos, perguntas e expectativas.

  • Documente o seu impacto
    Uma página, linguagem simples: o que fez, para quem e com que resultados. Essa página é a sua coluna vertebral para negociar.

  • Defina a sua linha vermelha
    Acima de que valor fica se igualarem; abaixo de que valor aceita que, muito provavelmente, terá de sair.

A mudança silenciosa de mentalidade por trás de “mesma função, salário mais alto”

Este tema não é apenas “andar a saltar de empresa em empresa”. É, sobretudo, a forma como se posiciona na sua própria história: é o colaborador grato à espera de reconhecimento, ou é o profissional que decide com base em factos - e não em sensações?

Há quem fique genuinamente mais feliz a ganhar menos porque a equipa, a missão ou o horário encaixam na vida que quer. E há quem perceba que mudar de empresa a cada 3–4 anos, mantendo a mesma função, é a via mais realista para chegar perto do verdadeiro valor de mercado.

Nada o obriga a ser a mesma pessoa daqui a cinco anos só porque o título no cartão não mudou.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os aumentos internos têm tecto Bandas salariais, orçamentos e “equidade interna” limitam até onde a chefia consegue ir Ajuda a perceber porque é que o seu salário fica atrás do mercado mesmo com boas avaliações
Ofertas externas reajustam o seu valor Novas empresas pagam mais perto da realidade do mercado pela mesma função Mostra porque é que mudar de empresa desbloqueia saltos maiores sem promoção
Verificações discretas do mercado fazem diferença Ver intervalos com regularidade e falar com recrutadores evita subpagamento prolongado Dá-lhe uma forma prática e de baixo risco de proteger o seu potencial de ganho

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Mudar de empresa muitas vezes não estraga o meu CV?
    Se mudar a cada 6–9 meses, sim, isso pode levantar suspeitas. Mas uma mudança a cada 2–4 anos na mesma função tende a ser visto como normal - até saudável. Para recrutadores, é sinal de procura e evolução.

  • Consigo um grande aumento sem sair?
    Às vezes, sim. Normalmente exige alavancagem: outra proposta, uma função crítica ou uma alteração relevante de responsabilidades. Peça uma vez com dados. Se a diferença for grande e a resposta for “não” ou vaga, é um sinal.

  • E se eu gostar do meu trabalho mas souber que estou mal pago?
    Pode dizer as duas coisas claramente. Explique à sua chefia que quer ficar, mas precisa que a remuneração acompanhe o mercado. Se a empresa não conseguir mexer agora, peça um plano claro, com datas - e mantenha opções em aberto.

  • Devo dizer ao meu chefe que estou a entrevistar noutras empresas?
    Em regra, não no início. Partilhe uma proposta externa apenas quando estiver preparado para a aceitar caso digam que não. Um bluff que é desmascarado pode minar a confiança rapidamente.

  • Como descubro o meu “valor de mercado” na minha função?
    Cruze três coisas: sites públicos de salários, anúncios activos com bandas salariais e o que recrutadores sugerem para o seu perfil. Procure um intervalo que se repete - não um número “mágico” isolado.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário