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Ao nivelar colinas e mover o solo, o Japão alterou a sua geografia para aumentar o espaço urbano.

Família observa exposição de arte colorida em encosta junto a área urbana e montanhas ao pôr do sol.

Uma nuvem castanha levanta-se na periferia de Fukuoka e desliza por cima de uma fila de moradias novas, quase iguais entre si, cada uma com um pequeno kei jidōsha branco impecavelmente estacionado à porta. Onde, há vinte anos, os habitantes lembram bambuzais e javalis, existe agora um parque de estacionamento de supermercado e um planalto acabado de aplanar, de terra nua, à espera da próxima fase.

No limite da obra, um homem mais velho, de botas de borracha, ergue o olhar, semicerrando os olhos, e aponta o cigarro para a cicatriz aberta na encosta. “Aquilo era mais alto do que o templo”, diz em voz baixa. Ri-se - mas não chega a sorrir.

Quando as máquinas se calarem, uma colina inteira terá desaparecido do mapa.

Japão, o país que desloca montanhas

Ao espreitar pela janela do avião na aproximação a Tóquio, a cidade parece derramar-se até onde a vista alcança: um oceano cinzento, com apenas algumas manchas verdes teimosas a emergir. O que a maioria dos visitantes não percebe é quantas dessas “manchas” já foram rapadas, cortadas a meio ou simplesmente apagadas. O Japão, de forma literal, tem vindo a cortar colinas e a mexer no próprio relevo para criar terreno plano, pronto a construir.

Num território em que cerca de 70% é composto por montanhas e florestas, cada metro quadrado de chão plano vale ouro. Por isso, durante décadas, engenheiros e urbanistas abriram cortes em encostas, transportaram terras e espalharam-nas por baixios, baías e vales. Subúrbios residenciais, zonas industriais e até alguns aeroportos assentam hoje em áreas que, noutra vida, eram vertentes ou mar raso.

Ao nível da rua, tudo parece banal: lojas de conveniência, paragens de autocarro, casas padronizadas. Mas debaixo das fundações esconde-se uma ideia radical - quando o espaço não chega, não se trata apenas de “apertar”: muda-se a forma da Terra.

Esta lógica torna-se especialmente visível nos arredores de Nagasaki, num bairro que muitos moradores descrevem apenas como “um danchi num planalto”. Quem lá vive há mais tempo recorda a colina original, cruzada por trilhos estreitos e campos em socalcos. No final da década de 1960, começaram a formar-se filas de camiões todas as manhãs: subiam por uma estrada sinuosa e desciam carregados de solo. Durante anos, a colina encolheu devagar, enquanto a terra era despejada em enseadas próximas para reconquista de terras ao mar.

Onde antes os pescadores amarravam os barcos, há hoje um centro comercial e uma grande via arterial. A linha de costa antiga desapareceu, substituída por uma margem recta de betão. Crianças jogam futebol num campo feito com solo que, antes, estava cerca de 40 metros mais acima. E muitos idosos falam da topografia antiga como se fosse um parente perdido: presente na memória, ausente na realidade.

Histórias semelhantes repetem-se em torno de Sapporo, Kobe, Yokohama e em dezenas de cidades médias que pouca gente fora do país saberia apontar. Nenhum projecto, isoladamente, parece “espectacular” à distância. Mas, somados, revelam uma transformação silenciosa - um redesenho do arquipélago ao longo de várias décadas.

Para quem vê de fora, aplanar colinas pode soar extremo. Para muitos planeadores japoneses, é quase um procedimento de rotina. A lógica, por vezes implacável, é simples: terreno plano e estável, junto a cidades existentes, é raro e caríssimo. Em muitas áreas urbanas, as montanhas fecham o perímetro; e os rios ocupam e corroem parte do pouco espaço horizontal disponível.

No pós-guerra, ao tentar alojar milhões de pessoas, os governos tinham essencialmente três caminhos: construir em altura, expandir para mais longe, ou mexer na terra. Em numerosos casos, optou-se por uma combinação dos três. O corte de colinas e a reconquista de terras ao mar permitiram criar plataformas urbanas “prontas”, ligadas a linhas ferroviárias e infra-estruturas já existentes - sem empurrar famílias para vales remotos ou para zonas de cheias particularmente frágeis.

E nada disto foi feito ao acaso. As equipas técnicas mediram ângulos de inclinação, tipos de solo e padrões de chuva com uma precisão quase obsessiva. O objectivo não era apenas “mais terreno”: era terreno capaz de sustentar um bairro, uma escola, uma loja de conveniência - e ainda assim resistir a um sismo e a um tufão no mesmo ano. A expansão urbana, aqui, não é apenas um traço no mapa: é um problema de engenharia talhado na rocha.

Há também um lado menos falado: a pegada ecológica e material desta estratégia. A deslocação de milhões de metros cúbicos de solo altera linhas de drenagem, pressiona ecossistemas costeiros e reconfigura habitats, mesmo quando tudo é “legal” e tecnicamente controlado. E, nas margens recuperadas ao mar, as mudanças na circulação da água podem afectar a sedimentação e a vida marinha ao longo do tempo.

Por outro lado, estas plataformas artificiais exigem manutenção constante. Muros de contenção, sistemas de drenagem e taludes estabilizados não são “para sempre”; são infra-estruturas que envelhecem. Num país com população a envelhecer rapidamente, manter esse património invisível - e caro - torna-se parte do futuro destas urbanizações.

Como se aplana uma colina - e como se vive com as consequências (corte de colinas, aterros e planaltos artificiais)

Num projecto típico, a mudança começa muito antes de aparecer a primeira escavadora. Topógrafos percorrem a encosta com tripés e sensores, registando cada desnível e cada falha. A seguir, define-se o plano de corte e aterro: que parte da colina será removida, para onde vai o solo, e como será compactado para não ceder - nem perder estabilidade - no próximo grande sismo.

Em obras de grande escala, o local pode funcionar quase como uma fábrica. De um lado, a colina torna-se pedreira; do outro, existe uma linha de “produção” de urbanização. A terra circula por tapetes transportadores ou por rotas de camiões num circuito coreografado. As águas pluviais são desviadas e canalizadas, muros de contenção surgem camada a camada, e a antiga encosta transforma-se lentamente num tabuleiro de terraços escalonados - até, por fim, se converter num planalto liso.

Só no final os desenhos ganham vida quotidiana: malhas viárias marcadas, passeios lançados, lotes riscados com corda, e, por fim, o zumbido dos aparelhos de ar condicionado em casas-modelo pré-fabricadas. Nessa altura, a lembrança da colina já se vai apagando por detrás da nova geometria.

Quando se conversa com moradores destes subúrbios “talhados” em encostas, surge uma mistura de orgulho e inquietação. Orgulho, porque as casas parecem sólidas, planeadas e, em muitos casos, mais seguras do que as ruas antigas e sinuosas que alagam em cada época de chuvas. Inquietação, porque alguns sabem exactamente o que existe sob os seus pés: um arranjo calculado de vertentes antigas e aterros importados, preso por betão e por contas feitas ao milímetro.

Após acontecimentos como o sismo de Tōhoku, em 2011, e os deslizamentos mortais em locais como Hiroshima, em 2014, as perguntas sobre onde e como o Japão constrói sobre terreno remodelado tornaram-se mais difíceis de ignorar. Quem vive ao pé de um talude cortado questiona, em noites sem dormir, o que acontecerá se a encosta por trás da casa ceder depois de três dias seguidos de chuva.

No dia-a-dia, surgem compromissos mais prosaicos. Encostas cortadas podem significar escadas longas até à paragem de autocarro mais próxima. O calor fica preso em planaltos amplos e expostos. As compras do supermercado podem obrigar a ir de carro. Há conforto urbano, sim - mas, por vezes, parece um conforto esticado por cima dos contornos de uma paisagem mais antiga e mais áspera.

Urbanistas e geólogos insistem que existe um método para gerir esta convivência desconfortável com terreno alterado. Um hábito discreto, em muitas cidades japonesas, é ler de facto os pequenos mapas de risco afixados na câmara municipal ou enviados para casa. Em amarelos e vermelhos pouco simpáticos, mostram onde é mais provável haver falhas de talude, onde as cheias podem acumular-se, onde o subsolo era encosta antiga e onde é aterro compactado.

Para quem pondera comprar ou arrendar numa urbanização esculpida em colinas, essa é a primeira medida pragmática: localizar a potencial casa nesses mapas, comparar curvas de nível, perceber por onde passa a crista natural mais próxima e onde corre o vale. É rápido - e, de repente, começa a ver-se o esqueleto invisível sob o asfalto: a memória da colina a moldar o risco.

Depois, há um método mais pessoal: caminhar pelo bairro após uma chuvada, reparar onde a água se acumula, que taludes “choram” pequenas nascentes, que muros de contenção exibem fissuras finas. A vida urbana aqui não se resume a plantas da casa e tempos de deslocação. Também passa por aprender a ler a terra que foi forçada a desempenhar este novo papel de plataforma de cidade.

Muitos moradores admitem que raramente verificam qualquer destas coisas - a não ser quando algo corre mal. Num dia de sol, o perigo parece teórico, e a vista a partir de uma colina aplanada - céu aberto, montanhas ao longe - é irresistível. Sejamos francos: quase ninguém faz isto todos os dias.

É também assim que os erros voltam a repetir-se. Há quem se apaixone por um beco sossegado na base de um talude cortado e só mais tarde descubra que os proprietários anteriores saíram após um susto com um deslizamento de terras. Outros desvalorizam as rotas de evacuação marcadas em postes, convencidos de que vivem em “terreno sólido” porque tudo parece novo e bem desenhado. Tendemos a confiar no betão por parecer definitivo - mesmo quando é apenas uma pele fina a conter uma encosta inquieta.

E existe ainda uma perda mais lenta, emocional: o desaparecimento de caminhos antigos, pequenos santuários, ribeiros e marcos que davam identidade ao lugar. Num planalto acabado de nivelar, todas as ruas parecem jovens e a memória fica sem onde se agarrar. Todos já vivemos o momento em que um lugar de infância foi arrasado e substituído por um parque de estacionamento sem rosto; essa sensação de desenraizamento multiplica-se quando o próprio terreno é reescrito.

“Não mudámos apenas a paisagem”, disse-me uma vez um engenheiro municipal reformado, em Kobe. “Mudámos as histórias que as pessoas conseguem contar sobre o sítio onde vivem.”

É aqui que a discussão sobre os planaltos feitos pelo homem no Japão ultrapassa a engenharia e entra em território íntimo. O espaço urbano é prático - mas também é emocional.

  • Quem tem o direito de decidir que uma colina vale mais como subúrbio do que como floresta?
  • Quanta vulnerabilidade invisível aceitamos em troca de ruas planas e grelhas arrumadas?
  • O que acontece à cultura local quando os marcos físicos que guardavam a memória são raspados?

Estas perguntas parecem abstractas até ao momento em que se está no exacto sítio onde antes existia uma colina, se tenta imaginar a forma que tinha - e não aparece nada.

Viver numa paisagem refeita

A geografia re-engenheirada do Japão obriga a uma espécie de dupla visão. À superfície, oferece um modelo de como um país montanhoso e muito povoado pode crescer sem devorar, por completo, o pouco terreno agrícola plano que resta. Por baixo, levanta uma questão mais silenciosa: até onde estamos dispostos a ir para adaptar o planeta às nossas necessidades, em vez de adaptarmos as nossas necessidades ao planeta?

Basta observar uma estação suburbana a norte de Tóquio numa manhã de semana. Trabalhadores saem em fluxo para um bairro que, no papel, não existia há 40 anos. Escolas, clínicas e centros comerciais erguem-se sobre terra que, antes, era encosta e pântano raso. Para o pendular comum, é apenas “casa”. Para a paisagem, é simultaneamente uma cicatriz permanente e uma identidade nova.

Países com pouco espaço e cidades em crescimento já acompanham este modelo com atenção. Vêem a eficiência, a ordem aparente, a forma como o Japão arrancou área útil a um terreno pouco generoso. Mas por detrás de cada loteamento arrumado num planalto existe uma pilha densa de compromissos: ambientais, culturais e emocionais.

Não há uma moral limpa a retirar. O corte de colinas e a redistribuição de terras no Japão retiraram milhões de pessoas de habitação apertada e, por vezes, insegura, para bairros mais robustos e previsíveis. Ao mesmo tempo, apagaram vistas, habitats e histórias de uma forma irreversível. E as gruas e escavadoras continuam a trabalhar noutras colinas, enquanto famílias jovens assinam créditos para casas que assentam, literalmente, em chão deslocado durante a sua própria vida.

Talvez o verdadeiro convite - viva em Tóquio, em Toronto ou em Toulouse - seja olhar com mais atenção para o solo sob a sua cidade. Existiu aqui uma colina? Um sapal? Um rio que agora corre dentro de um tubo? Quando se começa a fazer estas perguntas, as ruas familiares mudam. Passa a ver-se onde a necessidade humana pressionou com mais força os limites da geografia - e como, em silêncio, a geografia respondeu.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Colinas remodeladas para criar espaço O Japão corta e aplana colinas e, depois, redistribui o solo para expandir terreno urbano Ajuda a olhar para cidades japonesas com outros olhos e a perceber por que razão têm o aspecto que têm
Riscos invisíveis e compromissos Taludes remodelados e terrenos de aterro podem trazer vulnerabilidades a deslizamentos e a efeitos associados a sismos Dá consciência prática se vive, visita ou investe nestas zonas
Perda da memória da paisagem Aplanar colinas apaga caminhos antigos, santuários e histórias locais ligadas ao relevo Convida a reflectir sobre o que se sacrifica quando as cidades reescrevem o terreno sob os pés

Perguntas frequentes

  • É mesmo comum o Japão aplanar colinas inteiras?
    Sim. Desde o boom do pós-guerra, o corte de colinas e a reconquista de terras ao mar tornaram-se ferramentas habituais para criar terreno plano à volta de muitas cidades japonesas, de grandes metrópoles a pólos regionais.

  • Isto é seguro num país com sismos e tufões?
    Hoje, muitos projectos são fortemente engenheirados e sujeitos a normas rigorosas, mas nenhum sistema é isento de risco. Desastres do passado mostraram que taludes mal concebidos - ou mais antigos - podem falhar sob chuva extrema ou forte agitação sísmica.

  • Porque não construir apenas em altura, em vez de mover tanta terra?
    O Japão constrói em altura nos centros urbanos, mas muitas famílias preferem subúrbios de baixa densidade, e as indústrias precisam de parcelas largas e planas. Aplanar colinas cria esse tipo de espaço perto de infra-estruturas já existentes.

  • Como posso perceber se um bairro fica sobre antiga encosta ou sobre terra recuperada/aterro?
    Os mapas de risco locais, mapas de altitude e fotografias aéreas antigas ajudam muito. Também é útil procurar taludes cortados muito nítidos, muros de contenção longos e grelhas urbanas demasiado regulares em zonas naturalmente acidentadas.

  • Este modelo poderá espalhar-se para outros países?
    Algumas regiões montanhosas e densamente povoadas já estudam a abordagem japonesa, embora preocupações ambientais e sociais possam empurrar para versões mais cautelosas e de menor escala.

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