Os carros elétricos estão a tornar-se parte do quotidiano nas estradas europeias. À medida que passam a coexistir com as versões de motor de combustão nas gamas das marcas tradicionais, muitos fabricantes optaram por criar designações próprias para identificar, de forma imediata, os seus modelos “sem emissões”.
Esse esforço custou muitos milhões em comunicação para explicar ao público a estratégia de duas frentes que levou ao aparecimento de sub-marcas. Na Mercedes-Benz, por exemplo, EQ passou a significar “carro elétrico”; na Audi, o equivalente é e-tron; na Hyundai, IONIQ; na Renault, E-Tech; e na Volkswagen, ID. Esta abordagem é mais direta do que a solução anterior, em que algumas marcas se limitavam a acrescentar uma letra como prefixo ou sufixo para assinalar as versões elétricas - caso da BMW (i) ou, no universo Stellantis, de Opel, Citroën e Peugeot (e).
Plataformas partilhadas vs. plataformas dedicadas (BMW i e a chegada da Nova Classe)
Há, no entanto, uma diferença técnica importante entre estas estratégias, ainda que muitas vezes passe despercebida ao comprador comum. Nos casos em que a distinção é feita apenas por uma letra, é frequente os elétricos assentarem nas mesmas bases técnicas (plataformas) dos modelos a combustão, em vez de recorrerem a arquiteturas elétricas dedicadas.
Na BMW, essa realidade está prestes a mudar: quando chegar às estradas o primeiro elemento da família elétrica da Nova Classe, o iX3, previsto para o primeiro trimestre do próximo ano, a marca dá um passo claro para uma nova geração de modelos concebidos a pensar de raiz na eletrificação.
Por que estas siglas podem ter os dias contados
Com o passar do tempo e com a generalização dos elétricos, seria expectável que estas designações se entranhassem no vocabulário de toda a gente… não fosse o facto de muitas estarem, na prática, destinadas a desaparecer a médio prazo.
A razão é simples: a maioria dos motores de combustão deverá ser retirada de cena ao longo da próxima década. Mesmo com o abrandamento relativo na legislação da União Europeia - que acabou por aceitar uma transição mais lenta, em vez de um fim abrupto a 1 de janeiro de 2035 - deixará de fazer grande sentido chamar EQS a um Classe S elétrico. Quando quase tudo for elétrico, a distinção perde utilidade.
Além disso, há um efeito colateral inevitável: num mercado em que os consumidores já têm de escolher entre tipos de baterias, autonomias, potências de carregamento e redes de carregamento, acrescentar camadas de siglas e sub-marcas pode aumentar a fricção na decisão de compra. Quanto mais claro for o nome do modelo, mais fácil é associá-lo a uma família, a um posicionamento e a uma faixa de preço.
Mais letra, menos letra: o regresso (provável) aos nomes “limpos”
Na BMW, este caminho tende a ser particularmente simples. No dia em que i5 e Série 5 deixarem de partilhar o mesmo espaço num concessionário - por já não existir a duplicação entre combustão e elétrico - será relativamente fácil retirar o “i” dos elétricos sem grande esforço de comunicação nem investimentos gigantescos para “ensinar” o mercado.
Um cenário semelhante pode acontecer na Audi e nas marcas do grupo Stellantis (Peugeot, Citroën e Opel), que também poderão acabar por dispensar as siglas que hoje identificam os seus modelos a bateria.
A Renault já deu esse passo: começou pelo novo Scenic, que passa a existir apenas em versões elétricas, e optou por lhe chamar simplesmente Scenic. Já a Porsche escolheu duas vias diferentes: no primeiro elétrico, estreou um nome novo - Taycan - mas, no SUV elétrico, manteve Macan, assinalando-o na carroçaria com uma referência explícita ao facto de ser elétrico.
Volkswagen ID e a tentativa de conciliar duas eras
A Volkswagen encontrou-se numa encruzilhada: por um lado, a gama elétrica identificada como ID; por outro, os modelos com propulsão total ou parcialmente de combustão a manterem nomes históricos - Polo, Golf, Passat, Tiguan, entre outros.
O problema é que este plano acabou por diluir parte da “personalidade Volkswagen”, tanto no desenho exterior como no interior, e a nova nomenclatura, em vez de ajudar, contribuiu para acentuar essa perceção. É neste contexto que surge um modelo pensado para aproximar os dois mundos: em breve deverá chegar o ID. Polo, uma fusão simbólica entre duas fases da marca, num reconhecimento de que, sem herança, é mais difícil construir continuidade.
Marcas chinesas: vida mais fácil para elas, menos para o cliente
Para as novas marcas chinesas, a tarefa é mais simples. Um Nio ET7, um Omoda 4 ou um Zeekr 9 não precisam de se distinguir de gamas a gasolina ou gasóleo, porque essas gamas nunca existiram dentro dessas marcas.
Isso não resolve, porém, um problema cada vez mais evidente: a multiplicação de designações automóveis começa a tornar difícil identificar o carro que se tem - ou que se quer comprar -, por vezes mais difícil do que identificar a própria marca.
Quando a designação é uma mistura pouco intuitiva de letras e números, o cenário agrava-se. Casos como bZ4x (Toyota) ou e:Ny1 (Honda) soam mais a nomes de robôs do universo “Guerra das Estrelas” do que a modelos pensados para a estrada. E “3” é um BMW, um Smart ou um Tesla? Pode ser qualquer um deles.
Aqui, vale ainda considerar outro aspeto: no mercado de usados, onde a clareza do modelo e da versão pesa na confiança do comprador, nomes confusos ou demasiado parecidos entre si podem dificultar anúncios, comparações e até a perceção de valor. Numa fase em que a tecnologia evolui depressa, a transparência no “batismo” dos carros pode ser tão útil quanto uma boa ficha técnica.
Nomes disputados e guerras de registo (Tesla, Ford e o “S3XY”)
À medida que a indústria aumenta o número de lançamentos, é provável que também cresçam os conflitos entre construtores, simplesmente porque nem todos conseguem registar os nomes - ou números - que desejavam.
Um exemplo mediático envolveu Elon Musk, diretor executivo da Tesla, quando a Ford o impediu de usar a designação Model E, que já tinha registado anteriormente. Com isso, Musk viu travada a intenção (deliberadamente provocatória e com um toque infantil) de formar a palavra SEXY com as iniciais dos quatro modelos: Model S, Model 3 (o “3” escolhido por ser a alternativa visual mais próxima de um “E”), Model X e Model Y.
Ainda assim, não é impossível que S3XY venha a ser associado a um Tesla no futuro - sobretudo se prevalecer o gosto discutível que levou Musk a dar a um dos seus 14 filhos o nome/código X Æ A-XII e a outro o nome Techno Mechanicus.
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