Muitos apreciadores de vinho conhecem bem este dilema: quer-se aproveitar cada copo, sem desperdiçar uma gota, mas também sem servir um resto cansado e sem vida. O prazo de conservação muda bastante consoante o tipo de vinho, e alguns cuidados simples fazem toda a diferença entre uma segunda noite agradável e uma completa desilusão.
Porque é que o vinho aberto se altera tão depressa
No instante em que a rolha ou a tampa de rosca sai, começa uma corrida contra o oxigénio. O ar pode dar ao vinho uma impressão mais aberta e acessível no início, mas, com o tempo, acaba por enfraquecer os seus aromas. Além disso, a temperatura, a luz e, no caso dos espumantes, o dióxido de carbono também influenciam a evolução da garrafa. Quem controla estes fatores consegue aproveitar muito mais de uma garrafa já aberta.
Quanto menos oxigénio houver, mais fresca for a conservação e mais escuro for o local, mais tempo uma garrafa aberta continuará agradável.
Vinho tinto: o mais resistente no frigorífico
Depois de aberta, a maioria dos vinhos tintos mostra-se mais resistente do que os restantes. Os taninos presentes em muitos tintos funcionam quase como uma proteção natural contra a degradação causada pelo oxigénio.
Durante quanto tempo se mantém o vinho tinto aberto
- Com fecho e no frigorífico: cerca de 3 a 5 dias ainda se pode beber com gosto
- Aberto à temperatura ambiente: muitas vezes fica visivelmente mais plano ao fim de 24 horas
O ponto que talvez surpreenda mais é este: depois de aberto, o vinho tinto deve ir para o frigorífico. A temperatura mais baixa abranda as reações químicas, ajudando a conservar durante mais tempo a frescura e a nitidez do sabor. Antes de servir, pode então ficar alguns minutos à temperatura ambiente para que os aromas voltem a ganhar expressão.
Os vinhos mais encorpados e ricos em taninos - como muitos vinhos de Bordéus, Rioja ou estilos tipo Barolo - tendem a aguentar melhor do que tintos leves e frutados. Estes últimos perdem mais depressa a sua nota suculenta e passam a parecer cansados mais cedo.
Vinho branco e rosé: mais delicados, mas ainda com margem
Nos vinhos brancos e rosés, o conjunto aromático é mais sensível ao contacto com o oxigénio. A frescura, os apontamentos cítricos e as notas florais desaparecem com mais rapidez quando a garrafa fica esquecida sem proteção.
Durante quanto tempo o vinho branco e o rosé continuam bons
- Bem fechados no frigorífico: normalmente 2 a 3 dias
- A partir do 3.º dia: costuma notar-se menos aroma e uma sensação mais apagada na boca
Isto nota-se especialmente em variedades muito aromáticas, como Sauvignon Blanc, Moscatel ou muitos rosés. Nesses casos, a evolução começa cedo: o nariz fica mais fechado, o vinho sabe mais largo e pode até surgir uma impressão ligeiramente oxidada, sem que isso signifique, necessariamente, que já esteja estragado. Quem for mais exigente com a frescura deve, idealmente, consumir estes restos no prazo de dois dias.
Os vinhos brancos mais doces podem revelar-se um pouco mais estáveis, porque o açúcar residual e a acidez mais alta oferecem alguma proteção extra. Ainda assim, a regra mantém-se: frigorífico, pouco contacto com o ar e consumo rápido.
Espumante, Prosecco e outros vinhos com bolha: os mais sensíveis
Assim que o espumante é aberto, o dióxido de carbono começa a escapar. Mesmo que o sabor ainda se mantenha aceitável, um espumante sem gás perde encanto muito depressa.
Durante quanto tempo a garrafa continua a fazer espuma?
- Com fecho próprio de pressão, no frigorífico: normalmente 1 a, no máximo, 2 dias
- Apenas com uma colher ou com uma rolha solta no gargalo: muitas vezes, em poucas horas, o gás já diminuiu bastante
Um fecho resistente à pressão não é um acessório supérfluo - é quase indispensável. Mantém a pressão interna mais elevada, o que ajuda a conservar mais dióxido de carbono no vinho. Voltar a fechar logo depois de servir e colocar de imediato no frio aumenta as hipóteses de ainda se beber algo razoavelmente efervescente no dia seguinte.
Um vinho espumante sem fecho adequado é o primeiro a perder - não só a mousse, mas também o encanto.
O que fazer logo depois de abrir a garrafa
Seja tinto, branco ou espumante, os minutos logo após servir são decisivos. Deixar a garrafa destapada em cima da bancada acelera de forma acentuada o processo de envelhecimento.
Lista essencial para garrafas abertas
- Fechar logo a seguir - com a rolha, a tampa de rosca ou um vedante próprio
- Guardar, por norma, no frigorífico, mesmo os tintos
- Se possível, retirar o ar da garrafa com uma bomba de vácuo
- Usar sempre um fecho hermético para vinhos espumantes
- Não deixar ao sol, sob luz forte, nem perto do fogão ou de um aquecedor
Uma bomba de vácuo reduz a quantidade de oxigénio acima do vinho e pode dar mais um ou dois dias de prazer. Também é importante que a garrafa fique o mais cheia possível quando é guardada. Se restar apenas um dedo de vinho no fundo, compensa passá-lo para um recipiente mais pequeno, para reduzir a quantidade de ar em contacto com o líquido.
Convém ainda anotar a data de abertura. Uma simples marca na cápsula ou no rótulo ajuda a evitar dúvidas e impede que uma garrafa aberta fique esquecida durante demasiado tempo. No frigorífico, é melhor colocá-la numa zona mais estável, longe da porta, porque as variações de temperatura à abertura e ao fecho repetidos também aceleram a perda de qualidade.
Como perceber que o vinho já passou o ponto
Mais cedo ou mais tarde, qualquer vinho aberto ultrapassa o seu auge. Identificá-lo a tempo evita caras desiludidas à mesa e também o hábito de beber por teimosia aquilo que já não está em condições.
Sinais típicos no copo
- Alteração da cor: o tinto ganha tons acastanhados; o branco torna-se mais escuro, com tonalidade dourada ou castanho-dourada
- Aroma: notas de vinagre, xerez, mosto de maçã ou cartão húmido
- Sabor: sensação plana, amarga, agressiva ou claramente avinagrada
Quando o vinho cheira a vinagre ou mostra uma oxidação acentuada, já não deve voltar ao copo. Muitas vezes isso acontece mais depressa se a garrafa ficou sem frio ou demasiado tempo sem fecho.
Um vinho ligeiramente alterado ainda pode ser aceitável; um vinho com cheiro a vinagre já terminou a sua vida no copo.
Se o resto já não convencer, leve-o para a cozinha
Só porque um vinho deixou de brilhar no copo, não quer dizer que tenha de ir para o lixo. Desde que não esteja avinagrado nem com cheiro a defeito, continua a ser excelente para cozinhar.
Utilizações práticas na cozinha
- Vinho tinto: para estufados, molhos de carne de vaca ou borrego, risoto com sabores intensos
- Vinho branco: para peixe, marisco, molhos leves, risoto e legumes salteados
- Espumante ou outro vinho com bolha: para deglacear pratos na frigideira, em molhos e em sobremesas com fruta
O ponto importante é este: um vinho que já cheira fortemente a vinagre ou que tenha um odor mofo não deve ser usado nem na comida. Tudo o que for para a panela deve, no mínimo, cheirar limpo e não apresentar defeitos evidentes, mesmo que já não seja agradável beber puro.
Quando vale a pena investir em acessórios especiais
Quem costuma ter vinho aberto com frequência pode pensar em equipamento adicional. Para além das bombas de vácuo simples, existem sistemas que usam gás protetor e mantêm o vinho fresco durante mais tempo, ao substituir o ar presente no gargalo da garrafa.
Para o dia a dia, no entanto, costuma bastar uma combinação de fechos decentes, frigorífico e algum cuidado. Já quem pretende ir bebendo garrafas de maior qualidade ao longo de vários dias ou mesmo semanas, em copos espaçados, retira muito mais proveito desses sistemas.
Conclusão: menos ar, menos calor, mais prazer
No fundo, a regra é simples: quanto mais cuidado houver com a garrafa depois de aberta, mais copos bons se conseguem tirar dela. Menos oxigénio, menos calor e menos luz significam mais sabor, menos desperdício e menos vinho a acabar no lavatório.
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