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Novo Toyota Aygo X não gasta quase nada mas está condenado em Portugal

Carro Toyota Aygo X HEV laranja estacionado em espaço interior com iluminação natural e letreiro eco na parede.

O novo Toyota Aygo X HEV parecia ter todas as condições para triunfar. Até aterrar em Portugal…


Antes deste primeiro contacto com o Toyota Aygo X HEV, vale a pena enquadrar um tema que, por cá, costuma baralhar (e muito) a lógica do mercado: a fiscalidade automóvel. Como se perceberá mais à frente, ela arrisca-se a ser o principal obstáculo ao sucesso do primeiro citadino do segmento com tecnologia híbrida.

Durante muitos anos, comprar carro em Portugal significou lidar com uma carga fiscal que empurrava os preços para valores muito acima do praticado noutros países europeus - sobretudo quando se falava de motores com cilindradas superiores a 1,4 litros. O contraste tornava-se ainda mais evidente quando comparado com o salário médio nacional.

Com a introdução do critério ambiental no cálculo do ISV, a cilindrada perdeu algum protagonismo, mas continua a penalizar bastante. E há um caso que ilustra bem esta contradição: a nova geração do Toyota Aygo X troca o antigo 1.0 de três cilindros por um 1.5, também tricilíndrico, agora integrado num sistema híbrido.

A parte irónica é esta: com a mudança, as emissões de CO₂ descem de 107 para 85 g/km. Seria expectável que o sistema fiscal recompensasse este corte, certo? Pois não. O ISV agrava o preço em cerca de 1900 €, precisamente por o motor ser maior.

Num segmento em que cada euro conta, este acréscimo pode ser determinante. Num citadino, como é que se absorve um aumento fiscal próximo dos 2000 € sem tornar o modelo menos competitivo? Vamos ao carro.


Toyota Aygo X HEV: o que muda na nova geração

A alteração mais relevante está debaixo do capô: sai o motor de 1,0 litro e entra o conjunto híbrido do Toyota Yaris. Em termos de arquitectura, o sistema junta o motor 1.5 de três cilindros a dois motores elétricos: um encarrega-se de colocar o motor a gasolina em funcionamento e o outro trata da tração, muitas vezes em articulação com o motor térmico.


Vantagens inegáveis do motor híbrido no Toyota Aygo X HEV

Com esta nova configuração, o Aygo X HEV ganha 44 cv, o que se sente numa condução mais descontraída e com mais resposta. A aceleração 0–100 km/h passa a cumprir-se em 9,8 s (menos cinco segundos do que antes) e a velocidade máxima sobe de 150 para 172 km/h. Também os consumos melhoram: a marca aponta 3,7 l/100 km, cerca de menos 1 litro/100 km face à geração anterior.

Além dos números, há uma sensação clara de maior disponibilidade: existe mais “motor” em praticamente todos os cenários. E, pela primeira vez, torna-se até agradável pedir um pouco mais ao pequeno híbrido, que aqui herda a mesma base técnica do Yaris.


Alterações de embalagem: mais espaço para a mecânica, sem perder bagageira

A troca de motorização obrigou a mexer na carroçaria. Para acomodar o 1.5, o compartimento dianteiro cresceu 7,6 cm. Já a bateria de 12 V foi retirada da zona frontal e passou a estar sob o piso da bagageira. Mesmo assim, a capacidade de carga mantém-se nos 231 litros.

A pequena bateria do sistema híbrido, com 0,76 kWh e apenas 12 kg, foi colocada por baixo dos bancos traseiros, com módulos instalados lado a lado - uma solução que faz sentido num carro com distância entre eixos curta.

Estas decisões ajudaram a preservar a distribuição de massas em 64:36, fundamental para manter o comportamento equilibrado do Aygo X. E há um detalhe curioso: apesar de o conjunto pesar mais 140 kg do que antes, o centro de gravidade desce 4 cm, o que contribui para uma condução mais divertida.


Estética renovada e estreia da versão GR Sport

A Toyota aproveitou as mudanças técnicas na frente para refrescar o desenho. O capô é novo, tal como os faróis e os para-choques, conferindo uma presença mais moderna.

Surge também uma inédita versão GR Sport, com carroçaria bicolor e capô preto, além de elementos específicos por dentro e por fora. Nesta variante, há igualmente trabalho no chassis: molas e amortecedores ligeiramente mais firmes e uma direção com resposta mais imediata.


Interior: evolução discreta, mas com mais tecnologia útil

No habitáculo, a transformação é mais contida. Ainda assim, todas as versões passam a incluir painel de instrumentos digital com ecrã de 7” e o módulo de climatização é o mesmo do Toyota Yaris.

Há ainda travão de estacionamento elétrico, tomadas USB-C, carregador sem fios para o telemóvel e a possibilidade de utilizar chave digital para aceder ao Aygo X.

A marca só deverá iniciar as vendas desta geração na transição de 2025 para 2026, mas já permitiu uma primeira experiência dinâmica, realizada nos arredores de Berlim (Alemanha).

O painel de bordo, feito integralmente em plástico rígido, é dominado pelo ecrã central: 10,5” nas versões mais equipadas e 9” nas restantes. O sistema multimédia já suporta ligação sem fios via Android Auto e Apple CarPlay.

A habitabilidade mantém a lógica típica do segmento: à frente viajam dois adultos com conforto, enquanto atrás os lugares são mais adequados para passageiros até cerca de 1,70 m. Acima disso, é fácil tocar com a cabeça no teto e encostar os joelhos às costas dos bancos dianteiros - algo expectável num citadino.


Ao volante: versões de pré-produção com o híbrido do Yaris

Mesmo sendo um sistema conhecido, havia curiosidade em perceber o seu comportamento num carro mais compacto e leve (pouco acima de 1000 kg) do que o Yaris e o Yaris Cross, que também recorrem a esta solução.

O primeiro ganho nota-se no ruído a bordo. Continua a ser um três cilindros, mas a cilindrada superior, a potência extra e a ajuda elétrica fazem com que trabalhe com menor esforço. O resultado é uma sonoridade menos áspera do que no antecessor.

A Toyota reforçou ainda a insonorização no painel de bordo, capô, zona do motor e escape. O ruído vindo do exterior baixa de forma clara e o “tom” do motor fica mais polido, mesmo que o anunciado aumento da espessura dos vidros laterais não salte à vista.

Com mais desempenho, o Aygo X deixa de ser “aquele citadino lento” e passa a ter resposta suficiente para se mover com outra facilidade, sobretudo graças ao empurrão elétrico nas acelerações iniciais e intermédias.

As patilhas no volante desaparecem. E, na prática, também não faz grande falta: no modelo anterior, o Aygo X nem sempre respeitava os pedidos do condutor para subir ou descer “mudanças”, impondo muitas vezes a lógica ditada pelo pedal do acelerador.

A transmissão automática epicicloidal consegue simular várias relações com um único conjunto de engrenagens, mas não é especialmente rápida nem procura extrair o máximo rendimento do motor a gasolina. A prioridade, como seria de esperar numa híbrido Toyota, é a eficiência.


Mais ou menos “genica”: direção, travagem e modos de condução

A direção apresenta um peso bem escolhido e uma desmultiplicação adequada a um citadino, com 2,7 voltas entre batentes. A travagem revelou-se consistente e com resposta pronta logo no início do curso do pedal.

Os modos de condução diferenciam-se pouco. As variações sentem-se essencialmente na resposta do motor: em Eco o conjunto é apenas ligeiramente mais contido a subir de regime do que em Power. A posição B no seletor ajuda a elevar a capacidade de recarga da pequena bateria, sem que exista uma alteração relevante na sensação de desaceleração regenerativa.

Em “roda livre” (a rolar por inércia, sem carga no acelerador), o motor a gasolina tende a desligar-se abaixo dos 130 km/h. O mesmo sucede em cidade quando se usa um acelerador mais suave. A condução apenas elétrica está limitada a 65 km/h e, mesmo com o pé leve, não é propriamente fácil evitar que o motor térmico volte a acordar - o que também é coerente: num híbrido, a meta não é fazer longas distâncias em modo 100% elétrico.

No percurso de teste, com 137 km, o consumo médio final ficou em 4,1 l/100 km, muito perto dos 3,7 l/100 km homologados. Outro dado interessante: o motor a gasolina esteve desligado durante mais de metade do tempo (60%). Se o percurso tiver mais cidade e trânsito intenso - muitas vezes inimigo dos consumos - é plausível que, neste Aygo X HEV, os valores baixem ainda mais.


Dois pontos práticos que um híbrido citadino traz (e que nem sempre se fala)

No uso diário, um híbrido como este tende a beneficiar quem faz percursos curtos e repetitivos, com muitas paragens. Para além dos consumos, há um efeito colateral frequente: a travagem regenerativa reduz parte do trabalho do sistema de travões em certas situações, o que pode traduzir-se em menor desgaste em condução urbana (dependendo sempre do estilo de condução e do tipo de percurso).

Outro aspeto é a simplicidade de utilização face a outras soluções eletrificadas: não há carregamentos, cabos ou planeamento. É abastecer e andar, com a eletrificação a trabalhar em segundo plano - o que ajuda a democratizar a tecnologia junto de quem quer eficiência, mas não quer mudar hábitos.


Fiscalidade e ISV em Portugal: o “calcanhar de Aquiles” do Toyota Aygo X HEV

O maior problema do Toyota Aygo X HEV em Portugal deverá mesmo ser a forma como a fiscalidade reage a um motor de maior cilindrada, mesmo quando isso significa menos emissões.

Somando ao efeito do ISV, há ainda o impacto do maior nível de equipamento e do custo de componentes como a bateria do sistema híbrido e a própria mecânica mais capaz. Por isso, é apontado um agravamento total que poderá chegar a cerca de 4000 €.

Na prática, isto significa que o pequeno citadino japonês poderá subir de 18 000 € (na geração atual) para perto de 22 000 € no novo modelo - um patamar que complica bastante a sua vida comercial num segmento tão sensível ao preço.


Veredito

O Toyota Aygo X HEV dá um salto técnico relevante: anda mais, consome menos e apresenta um comportamento mais agradável, com um motor que trabalha de forma mais refinada e um centro de gravidade mais baixo do que antes. A versão GR Sport acrescenta ainda um tempero interessante para quem quer um toque mais firme e direto.

O problema é externo ao produto: em Portugal, o desenho do ISV arrisca-se a transformar uma evolução virtuosa (menos CO₂ e mais eficiência) num aumento de preço difícil de justificar num citadino. Se o valor final se aproximar dos 22 000 €, o maior desafio do Aygo X HEV poderá não estar na estrada - mas sim na tabela de preços.


Especificações técnicas

Item Toyota Aygo X HEV
Motorização Sistema híbrido com motor 1.5 de 3 cilindros + 2 motores elétricos
Emissões de CO₂ 85 g/km (antes: 107 g/km)
Potência (variação vs. anterior) +44 cv
0–100 km/h 9,8 s
Velocidade máxima 172 km/h (antes: 150 km/h)
Consumo combinado (referência) 3,7 l/100 km
Consumo observado no teste 4,1 l/100 km (percurso de 137 km)
Bateria híbrida 0,76 kWh; 12 kg; instalada sob os bancos traseiros
Bagageira 231 litros
Alteração de peso +140 kg vs. geração anterior
Centro de gravidade -4 cm vs. geração anterior
Distribuição de peso 64:36
Direção 2,7 voltas entre batentes
Propulsão elétrica (limite indicado) até 65 km/h
Motor a gasolina desligado (teste) 60% do tempo
Lançamento (previsão) transição de 2025 para 2026
Impacto fiscal referido +1900 € em ISV; agravamento total estimado perto de +4000 €
Preço (estimativa Portugal) de ~18 000 € para perto de ~22 000 €

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