Muitas pessoas passam a vida a tremer de frio, sentem-se sem energia e apontam logo o dedo a um “metabolismo estragado” - mas a realidade é bem mais complexa.
Quem faz dieta e não emagrece, anda constantemente cansado e até no escritório precisa de camisola, tende a concluir que tem o metabolismo “adormecido”. A expressão funciona bem nas redes sociais, mas do ponto de vista médico raramente descreve o que realmente se passa. Na maioria dos casos, a fadiga e a sensação de frio resultam de ajustes fisiológicos e de hábitos do dia a dia, não de um “metabolismo avariado”.
O que significa, afinal, metabolismo - e porque não “desliga”
No quotidiano, fala-se do metabolismo como se fosse um interruptor: ligado ou desligado. Em medicina, metabolismo é o conjunto de processos bioquímicos que mantêm o corpo vivo. Se o metabolismo “parasse”, simplesmente não sobreviveríamos.
O que muda, isso sim, é a balança energética diária (quanta energia entra e quanta sai), que depende de vários factores:
- Composição corporal (quanta massa muscular e quanta massa gorda)
- Idade
- Hábitos de actividade física
- Alimentação e sono
A maior fatia do gasto energético vem do metabolismo basal (também referido como taxa metabólica basal): a energia necessária em repouso absoluto para manter funções como respiração, batimentos cardíacos, regulação da temperatura e actividade cerebral. Em termos gerais, representa cerca de 60–70% do gasto energético diário.
A este valor juntam-se dois componentes importantes:
- Trabalho digestivo (termogénese induzida pela dieta): energia usada para digerir e processar os alimentos.
- Movimento: tanto o exercício planeado como as pequenas actividades do dia - subir escadas, levantar-se, andar pela casa, gesticular.
É aqui que entra um conceito frequentemente ignorado: NEAT (Non-Exercise Activity Thermogenesis), ou seja, a energia gasta em actividade que não é “treino”. Este NEAT explica, muitas vezes, a diferença entre a pessoa que parece “queimar tudo” e aquela que sente que engorda “só de olhar” para um bolo.
O metabolismo não colapsa de um dia para o outro - o corpo vai ajustando o gasto energético de forma gradual ao comportamento e ao peso.
Porque é que as dietas fazem o metabolismo parecer “lento”
O organismo é um especialista em sobrevivência. Quando há uma redução calórica intensa e prolongada, o corpo interpreta isso como um período de escassez e tende a poupar energia.
Essa adaptação acontece em várias frentes:
- A actividade espontânea diminui sem darmos conta - sentamo-nos mais, mexemo-nos menos, “poupamos” movimentos.
- Se faltar proteína e não houver estímulo de força, o corpo torna-se mais propenso a reduzir massa muscular.
- As hormonas da fome e da saciedade deslocam-se no sentido de “comer já”.
Na prática, o padrão é conhecido: nas primeiras semanas o peso desce; mais tarde, a balança estagna, mesmo mantendo a dieta rígida. É aqui que muitos concluem: “o meu metabolismo está estragado”. Na maioria das situações, o que está a acontecer é isto:
- O corpo agora pesa menos e, portanto, precisa objectivamente de menos calorias.
- O dia a dia torna-se mais inactivo porque há mais cansaço e menos vontade de se mexer.
- A ingestão real é subestimada (pequenos snacks, bebidas calóricas, “bocadinhos” ao longo do dia).
Isto não é um defeito - é uma resposta de protecção que faz sentido do ponto de vista evolutivo: o corpo tenta preservar reservas de gordura porque “assume” que pode estar a chegar uma fome prolongada.
Metabolismo, frio e fadiga: quando pode haver doença por trás
Há casos em que sentir muito frio e estar exausto não é apenas estilo de vida. Um exemplo clássico é a Schilddrüsenunterfunktion, isto é, hipotiroidismo (tiróide a funcionar mais devagar).
Sinais que podem acompanhar:
- cansaço persistente e falta de motivação
- sensação de frio marcada, sobretudo em mãos e pés
- pele seca e áspera
- cabelo frágil e queda de cabelo
- ligeiro aumento de peso ou “peso extra” teimoso de alguns quilos
Problemas da tiróide podem travar um pouco o metabolismo, mas raramente são a causa principal de obesidade marcada.
Quando existe aumento de peso no hipotiroidismo, muitas vezes está mais ligado a retenção de líquidos do que a acumulação de gordura. Por fora pode parecer “ganho súbito”, mas do ponto de vista clínico raramente se traduz em dezenas de quilos.
Metabolismo e massa muscular (Sarkopenie): a mudança silenciosa com a idade
A idade tem um impacto muito relevante no gasto energético. Se não houver intervenção, perde-se gradualmente massa muscular ao longo dos anos - um processo chamado Sarkopenie (sarcopenia). E a massa muscular funciona como um “motor” do gasto em repouso: menos músculo tende a significar menor metabolismo basal, mesmo que o peso na balança não mude muito.
Outras causas frequentes de cansaço e sensação de frio (além do metabolismo)
Nem sempre o problema é a tiróide. Em Portugal, é comum encontrar pessoas com ferro baixo (ou anemia), défice de vitamina B12 ou vitamina D, ou simplesmente uma recuperação insuficiente devido a stress e sono fraco. Estas situações podem agravar a fadiga, reduzir a tolerância ao frio e diminuir a disposição para actividade física - criando um ciclo em que o NEAT baixa e o controlo do peso fica mais difícil.
Travão hormonal após crash diets (dietas radicais repetidas)
Quem passa anos a alternar entre dietas muito restritivas e períodos de “compensação” costuma notar que emagrecer fica cada vez mais penoso. Um dos motivos é a resposta hormonal do corpo à perda de gordura.
Quando a massa gorda desce de forma significativa, tendem a ocorrer, entre outras alterações:
- diminuição da Leptin (leptina), hormona que normalmente sinaliza saciedade
- aumento da Ghrelin (grelina), que estimula a fome e o apetite
Não se trata de uma “avaria”, mas de um mecanismo de protecção. Para a pessoa, porém, o impacto é real: mais fome, menos saciedade, menos energia e menor impulso para se mexer. Se, além disso, a dieta for pobre em proteína, a perda de massa muscular pode acelerar - e o gasto energético total volta a descer.
Como optimizar o gasto energético de forma prática (sem promessas mágicas)
Não existe um truque que “turbine” o metabolismo de forma milagrosa. Existem, isso sim, medidas realistas e sustentadas por evidência que ajudam a manter o metabolismo mais estável e, em alguns casos, a aumentá-lo ligeiramente.
Metabolismo e músculo: o queimador natural de calorias
O factor mais eficaz é preservar e/ou construir massa muscular. Não é obrigatório treinar num ginásio “de luxo”; o que conta é dar estímulo regular de resistência à musculatura:
- treino de força com pesos
- treino com o peso do corpo (flexões, agachamentos, pranchas)
- exercícios com bandas elásticas ou máquinas
Cada quilo extra de músculo gasta mais energia em repouso do que um quilo equivalente de tecido adiposo.
Proteína: útil para muito mais do que quem faz musculação
A proteína é matéria-prima para músculo e outros tecidos. Se a ingestão for baixa, num défice calórico o corpo tem mais probabilidade de sacrificar massa muscular - o que reduz o gasto energético e atrapalha a perda de peso.
Além disso, a proteína exige mais energia no processamento digestivo do que a gordura ou os hidratos de carbono. Exemplos de alimentos ricos em proteína:
- queijo quark magro, iogurte natural, skyr
- ovos
- leguminosas (lentilhas, feijão, grão-de-bico)
- peixe e carnes magras
- tofu e outros produtos de soja
Sono, stress e NEAT: as alavancas muitas vezes esquecidas
Dormir mal de forma crónica põe o equilíbrio energético à prova. Pouco sono tende a:
- reduzir a Insulinsensitivität (sensibilidade à insulina)
- aumentar a vontade de doces e alimentos mais gordos
- diminuir a motivação para mexer o corpo
Muita gente nota um padrão simples: após noites más, aparecem mais snacks, mais encomendas de comida rápida e menos vontade de cozinhar. Ao mesmo tempo, o NEAT cai porque o cansaço leva a sentar mais e a mover menos.
O stress crónico também conta. Um Cortisol (cortisol) persistentemente elevado pode influenciar o apetite e a acumulação de gordura, sobretudo na zona abdominal. Se a isto se juntarem poucas horas de sono, muitas horas sentado e petiscos frequentes, a pessoa pode aumentar de peso sem que exista qualquer “mudança mágica” no metabolismo - é, na prática, uma soma de pequenas alterações do quotidiano.
Quando faz sentido ir ao médico - e o que pode fazer já hoje
Se durante meses houver cansaço intenso, frio excessivo e alterações visíveis na pele e no cabelo, vale a pena procurar avaliação médica. Um conjunto simples de análises pode ajudar a verificar tiróide, glicemia, hemograma e níveis de vitaminas.
Em paralelo, compensa olhar para rotinas com honestidade. Perguntas úteis:
- Quantas horas por semana me movimento, de facto?
- Com que frequência faço refeições ricas em proteína?
- Quantas vezes fico sentado mais de duas horas seguidas?
- Quantas horas durmo, na prática, por noite?
Muitas vezes, a conclusão é clara: o metabolismo não está “estragado”. Está a responder a pouca actividade, crash diets repetidas, privação de sono e perda gradual de massa muscular com a idade.
Ao atacar estes pontos - com algum treino de força, proteína suficiente, melhor sono e mais movimento no dia a dia - é comum sentir duas melhorias ao mesmo tempo: mais energia e menos sensação constante de frio. Em geral, são estes os sinais mais fiáveis de que o equilíbrio energético voltou a ficar mais alinhado com o que o corpo precisa.
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