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Europa a perder terreno? Indústria automóvel faz soar alarmes

Carro elétrico azul brilhante exposto em sala moderna com bandeira e mapa da Europa.

A transição para a neutralidade climática só poderá resultar se a Europa conseguir manter as competências, as tecnologias e a base de produção que a tornam viável, defende a CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores de Automóveis) num documento recentemente divulgado.

Apesar de o tempo continuar a correr, a União Europeia (UE) ainda não avançou com ações concretas de apoio aos fornecedores europeus, que pedem regras capazes de assegurar que os automóveis fabricados no Velho Continente incorporam uma quota significativa de componentes de origem europeia.

Nos últimos meses, a associação tem multiplicado os apelos às instituições europeias, alertando para o impacto potencial na indústria: a indústria automóvel arrisca-se a perder mais de 350 mil empregos até ao final da década.

“O valor local está em risco. Sem ajuda urgente, estão em risco 350 mil postos de trabalho até 2030.”
CLEPA

Entre os fatores apontados para este risco estão custos estruturais elevados e a falta de políticas industriais suficientemente competitivas quando comparadas com a concorrência da China e dos EUA.

A CLEPA chama ainda a atenção para a evolução do valor criado na cadeia de fornecimento: atualmente, até 75% do valor dos componentes dos carros produzidos no bloco tem origem na Europa, mas esse peso “está a mudar rapidamente”. Em paralelo, refere a associação, concorrentes nos EUA, na China e noutros mercados beneficiam de custos de conformidade mais baixos e de um apoio político mais robusto.

Medidas específicas propostas pela CLEPA para a política de conteúdo local

No núcleo das recomendações da CLEPA está a política de conteúdo local, concebida para impor uma quota mínima de componentes produzidos na Europa. Em concreto, a associação pede que a UE estabeleça um patamar entre 70% e 75% de componentes europeus nos veículos fabricados no continente - excluindo as baterias - de forma a garantir que automóveis promovidos como “Fabricado na Europa” correspondem, de facto, a criação de valor dentro da União Europeia.

A proposta é complementada por metas próprias para tecnologias críticas, incluindo sistemas de transmissão e chassis para veículos elétricos, componentes eletrónicos e soluções de assistência à condução. O objetivo é que a Europa retenha conhecimento especializado estratégico e preserve capacidades industriais consideradas essenciais.

Para a CLEPA, é igualmente determinante que esta definição seja consagrada na Lei do Acelerador Industrial (proposta legislativa da Comissão Europeia destinada a acelerar a descarbonização das indústrias europeias). Essa formalização é apresentada como condição para criar segurança jurídica e para alinhar políticas públicas, incentivos e compras governamentais com a proteção da competitividade europeia face à concorrência internacional.

Um efeito adicional de uma política de conteúdo local bem definida é o reforço da resiliência das cadeias de abastecimento: ao reduzir dependências externas em áreas críticas, a indústria ganha maior capacidade de resposta a ruturas logísticas, volatilidade geopolítica e escassez de matérias-primas transformadas.

Em paralelo, a preservação de competências passa também por acelerar programas de qualificação e reconversão profissional ao longo da cadeia de fornecedores, especialmente nas áreas associadas à eletrificação e à digitalização automóvel, para que a transição industrial não agrave a pressão sobre o emprego identificada pela associação.

Outras propostas

Para além da política de conteúdo europeu, a CLEPA enumera um conjunto de medidas destinadas a robustecer a indústria automóvel na Europa: reduzir custos de energia, mão de obra e burocracia; facilitar o acesso a mercados; incentivar frotas públicas e empresas a adquirirem viaturas com maior valor europeu; e combater a concorrência desleal sem recorrer a tarifas.

Segundo a associação, o setor está disponível para dar o passo seguinte, desde que exista previsibilidade e condições de concorrência adequadas: os fornecedores de automóveis estão prontos para investir e inovar, mas necessitam de um enquadramento de políticas que permita à Europa não apenas competir, como também liderar.

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