Não é a autonomia, nem o preço das baterias, nem sequer o tempo de carregamento. Nos elétricos, o incómodo vem de outro lado: a própria suavidade que os torna tão agradáveis pode, para alguns passageiros, transformar-se num problema. É quase o equivalente automóvel a alguém dizer “sou demasiado honesto”.
E, à medida que estes carros ficam mais refinados, há quem saia da viagem com o ar de quem fez uma especial do Dakar enquanto tentava ler mensagens no telemóvel. A explicação está na fisiologia, e a Mercedes-Benz acredita que pode ter parte da resposta.
O ponto de partida é simples. O enjoo de movimento surge quando há um desencontro entre aquilo que o corpo sente e o que o cérebro espera que vá acontecer.
Na prática, habituámo-nos a prever o movimento através de sinais como o ruído, as vibrações e as mudanças no regime do motor. Nos elétricos, essas pistas quase desaparecem. O habitáculo é mais silencioso, vibra menos e a resposta ao acelerador é imediata e linear. O cérebro perde referências e, em certas pessoas, isso pode traduzir-se em náuseas, tonturas e, nos casos mais graves, numa paragem obrigatória da viagem.
A travagem regenerativa também pesa na equação. A desaceleração contínua típica do modo one-pedal é diferente da travagem convencional e pode agravar o desconforto, sobretudo para quem viaja no banco de trás. Junte-se a isto o binário instantâneo - muitas vezes afinado para impressionar logo nos primeiros metros - e o resultado são movimentos menos previsíveis para o organismo.
A solução da Mercedes
A Mercedes-Benz patenteou um sistema que tenta devolver essas referências ao corpo. A ideia passa por recriar artificialmente a sensação de movimento no habitáculo através de dois estímulos complementares: fluxo de ar e iluminação ambiente.
A proposta baseia-se numa rede de saídas de ar discretas que ajusta continuamente a intensidade do caudal em função da velocidade do veículo - mais velocidade, mais fluxo; menos velocidade, menos fluxo. Em paralelo, a iluminação ambiente serviria de reforço visual, mudando cores, padrões ou direcionalidade durante acelerações e travagens, criando uma espécie de linguagem luminosa que acompanha a dinâmica do automóvel.
Em suma, trata-se de devolver ao corpo sinais preditivos que a mecânica elétrica, pela sua suavidade e silêncio, acabou por retirar. Tudo isto sem comprometer a estabilidade térmica nem o conforto de um habitáculo que está sempre a adaptar as suas características à velocidade. Seja qual for a solução, ficará certamente protegida por patentes.
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