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As aquisições de radares que estão a redesenhar a vigilância aérea na América do Sul

Homem em uniforme militar junto a mesa com mapa e tablet, perto de antenas parabólicas num campo ao pôr do sol.

Há compras de defesa que se resolvem à luz das fichas técnicas. E há outras em que o desfecho depende de fatores que não cabem numa tabela comparativa. Nos últimos meses, os dois processos de aquisição de radares que mais têm influenciado o mapa da vigilância aérea na América do Sul encaixam, em grande medida, nesta segunda lógica. O Paraguai já tinha formalizado, há algum tempo, a compra de radares AN/TPS-78 ADCAP da Northrop Grumman através do mecanismo de Vendas Militares Estrangeiras (FMS) do governo dos Estados Unidos. O Peru, segundo informação divulgada nestes dias, terá concluído em fevereiro passado que a melhor opção para o seu Programa de Recuperação da Capacidade de Controlo Aeroespacial são os radares TPS-77 MMR da Lockheed Martin, também em regime de fornecedor único e com carácter de segredo militar. Trata-se de seis sistemas AESA, por um valor entre 260 e 280 milhões de dólares. Em nenhum dos dois casos o processo se mostrou abertamente concorrencial.

Paraguai, Peru e o peso político na compra de radares

O caso paraguaio é particularmente revelador quando se olha para o contexto. Em abril de 2024, o presidente Santiago Peña deslocou-se pessoalmente às instalações da INVAP, em Bariloche. Não se tratou de uma visita protocolar: foi uma avaliação direta da proposta da empresa argentina para dotar o Paraguai de radares e cobrir o seu espaço aéreo. A oferta incluía os radares RPA-240 - o mesmo sistema em operação na Força Aérea Argentina -, com vantagens concretas em matéria de integração fronteiriça, um preço competitivo na ordem dos 45 milhões de dólares e apoio técnico prestado diretamente no país.

A INVAP é uma empresa de engenharia de alto nível, com tecnologia própria desenvolvida ao longo de décadas e exportações para países de vários continentes. Portanto, não se tratava de uma proposta marginal. Era uma alternativa séria, com um sistema já validado em operação e com uma cadeia de suporte comprovada. Menos de um ano depois, a decisão acabou por recair na compra via FMS à Northrop Grumman. Segundo várias fontes informativas, a pressão exercida por Washington sobre Assunção terá sido um elemento com impacto direto no resultado.

O fator político que não aparece nos cadernos de encargos

O mecanismo FMS é mais do que uma via de financiamento. Na prática, funciona como um instrumento de política externa. Quando os Estados Unidos vendem por esta via, não entregam apenas equipamento: oferecem a noção de “interoperabilidade” e a mensagem política associada ao alinhamento com Washington em matéria de material estratégico. Num momento em que a administração norte-americana voltou a insistir de forma explícita na coesão hemisférica e nos quadros de cooperação em defesa com os países da região, esse componente político tem um peso real nas decisões de compra e não pode ser neutralizado por uma ficha técnica, por muito completa que seja.

Isso não quer dizer que os produtos oferecidos pelos Estados Unidos sejam inadequados. A questão não é a qualidade do que é adquirido. O problema está na estrutura em que a compra é feita, porque essa estrutura faz com que concorrentes com capacidades equivalentes ou complementares - e com vantagens logísticas, industriais e económicas objetivas para a região - fiquem sistematicamente fora da discussão antes mesmo de ela começar.

Há ainda outro efeito, menos visível mas decisivo: quando a escolha inicial é condicionada por considerações políticas, também o ciclo de vida do sistema tende a ficar amarrado a essa mesma lógica. Formação, manutenção, atualizações e disponibilidade de peças passam a depender de uma relação de longo prazo que limita a margem de manobra do comprador. Em defesa, o custo total nunca se esgota no preço de aquisição; durante décadas, o apoio técnico e a autonomia operacional contam tanto quanto a capacidade do radar em si.

A INVAP, por seu lado, tem vindo a repetir esse padrão no mercado da América Latina com os radares RPA, apoiando-se em argumentos que têm base concreta: preço, assistência técnica regional, transferência de conhecimento e a vantagem de trabalhar com um parceiro sem condicionalidades geopolíticas associadas. Na edição de 2025 da LAAD, no Rio de Janeiro, apresentou a sua família de radares com foco explícito na América Latina, uma região onde a concorrência, naquele momento, ainda deixava espaço para soluções como as da engenharia argentina.

O que fica, em todo o caso, é uma questão mais ampla sobre o tipo de mercado de defesa que está a consolidar-se na América do Sul. Num mercado em que a qualidade técnica e as condições comerciais importam, mas em que o fator decisivo é muitas vezes a pressão política associada a certos fornecedores, cria-se uma dependência de longo prazo difícil de inverter. O Paraguai e o Peru terão os seus radares. A pergunta é quanto espaço resta, nesse modelo, para que a região desenvolva - ou preserve - capacidades industriais próprias.

Com a notícia dos radares para o Peru, a Argentina, com propostas superiores e sem condicionamentos, volta a sentir o impacto de um contexto em que a autonomia em matéria de defesa continua longe de ser a prioridade.

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