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Homem de 94 anos perde carta, mas tem de continuar a pagar o leasing.

Idoso sentado a uma mesa a ler documentos, com um café e óculos ao lado, numa cozinha iluminada.

Um homem de 94 anos do sul de França já não pode conduzir por razões de saúde. A carta de condução foi-lhe retirada, vive num lar e desloca-se numa cadeira de rodas. Ainda assim, o banco continua a debitar perto de 700 euros por mês da sua conta - por um contrato de leasing que assinou aos 92 anos. O caso expõe uma lacuna jurídica que também pode deixar muitas famílias em Portugal em alerta.

Como surgiu o contrato caro da Citroën C4

O homem, a quem chamaremos Max, vivia sozinho até há pouco tempo e era cliente habitual de um concessionário Citroën. Há dois anos, optou ali por um novo Citroën C4, com caixa automática, cerca de 130 cv e um preço de catálogo superior a 34.000 euros. A família assumiu que tinha comprado o carro - a pronto ou através de um crédito tradicional.

Só quando surgiu a mudança para o lar e os documentos foram organizados é que a verdade veio ao de cima: não havia compra, mas sim um leasing com prestações mensais de quase 700 euros, com duração até 2027. Ou seja, cerca de cinco anos de obrigação de pagamento, assinada aos 92 anos.

Um homem de 92 anos vincula-se a um contrato de leasing dispendioso sem que a família ou um tutor sejam envolvidos - legalmente admissível, moralmente questionável.

Ao analisar a papelada, o neto reparou que, além do próprio contrato, o idoso também tinha subscrito vários seguros ligados ao veículo - pacotes que pouco ou nada combinavam com a sua situação de vida e que hoje já praticamente não têm utilidade.

A saúde agrava-se - mas as prestações continuam a ser cobradas

Entretanto, o estado de saúde de Max deteriorou-se de forma acentuada. Vive permanentemente num lar, está numa cadeira de rodas e, por indicação médica, já não pode conduzir. A carta ficou no passado, o C4 permanece parado num parque de estacionamento - e a empresa de leasing continua a debitar o dinheiro.

A família esperava, ao início, que pelo menos uma das muitas apólices cobrisse a situação: invalidez, morte, incapacidade para conduzir - qualquer coisa que anulasse o contrato ou, pelo menos, reduzisse o peso financeiro. Mas, quando olhou com mais atenção, veio a desilusão.

  • Nenhuma das apólices contratadas cobre a situação de incapacidade permanente para conduzir.
  • Mesmo em caso de morte do idoso, o contrato continuaria, segundo a leitura atual.
  • A família teria de suportar as prestações até ao fim do prazo ou comprar o automóvel por um valor elevado.

Alguns contratos adicionais poderiam ser cancelados, mas o problema central mantém-se: o contrato principal de leasing está “fechado” até 2027 - foi assim que o neto o descreveu.

Família procura o concessionário e encontra resistência

O neto de Max foi várias vezes falar com o concessionário. Levou relatórios médicos que confirmam, através de especialistas, que o avô já não tem capacidade para conduzir de forma permanente. Para a família, a situação parece clara: o homem já não consegue cumprir o contrato na prática, porque nunca mais poderá voltar a estar ao volante.

Mas o concessionário mantém-se firme: diz que vai respeitar o contrato. Uma saída antecipada só é possível em condições bem definidas - e essas condições são caras. Estão em cima da mesa duas hipóteses:

  • O contrato continua até 2027, com pagamento integral de todas as prestações.
  • A família compra o veículo antecipadamente por mais de 20.000 euros.
  • O neto não poupa nas palavras. Para ele, a celebração do contrato roça a exploração da fragilidade: um homem com mais de 90 anos, cuja capacidade física e mental estava claramente a diminuir, recebeu um compacto relativamente potente, caro e com uma vinculação longa.

    Um C4 potente para alguém com mais de 92 anos, somado a um leasing elevado - para a família, isto parece um caso típico de exploração.

    Zona cinzenta jurídica: capacidade de agir e idade

    Do ponto de vista jurídico, o caso move-se num terreno sensível. Na maioria dos países europeus - incluindo Portugal - rege a regra de que os adultos têm, em princípio, capacidade para celebrar contratos, independentemente da idade. Um concessionário pode entregar um automóvel em leasing tanto a uma pessoa de 30 anos como a uma de 92, desde que não exista tutela legal nem sinais evidentes de incapacidade para contratar.

    Os tribunais costumam declarar contratos nulos apenas quando

    • se prova que a pessoa, no momento da assinatura, não estava em condições de compreender o significado e as consequências;
    • e o outro contratante conhecia essa fragilidade ou aproveitou-a de forma grosseira.

    É precisamente aqui que a família de Max se apoia: suspeita de uma forma de “exploração da fragilidade”. O idoso era cliente habitual do concessionário e, com pequenos toques e danos de chapa, voltava muitas vezes à oficina. Na perspetiva dos familiares, o vendedor deveria ter percebido que a capacidade do cliente estava a diminuir de forma acentuada.

    Vai haver agora um processo?

    O atual responsável pela filial em causa evita comentários públicos. Limita-se a afirmar que a empresa procura internamente “soluções”. Até agora, porém, a família não recebeu qualquer alívio concreto. Por isso, o neto pondera abertamente avançar para tribunal.

    Num processo, caberia a um juiz apurar se, no momento da assinatura, existia de facto uma limitação mental relevante. Em muitos casos, isso é feito através de:

    • relatórios médicos,
    • processos clínicos com valor probatório,
    • depoimentos de familiares ou dos médicos assistentes.

    Quanto mais antigo for o contrato e quanto menos documentação houver, mais difícil se torna a prova. A pressão emocional sobre a família aumenta, porque, em paralelo com uma eventual ação judicial, as prestações continuam a correr.

    O que este caso significa para as famílias em Portugal

    Embora o episódio concreto tenha ocorrido em França, o problema de fundo afeta muitas famílias no espaço lusófono: pessoas idosas assinam contratos - para carros, cozinhas, telefones ou serviços - e os familiares só descobrem isso quando o dinheiro começa a escassear ou quando surge a necessidade de cuidados permanentes.

    No caso do automóvel, juntam-se vários riscos:

    • prestações mensais elevadas em leasing ou crédito;
    • prazo longo com valores residuais;
    • seguros e pacotes de assistência adicionais;
    • custos totais muitas vezes pouco transparentes.

    Quem tiver pais ou avós mais velhos deve abordar o tema com calma: que contratos existem? Quanto tempo ainda duram? Há procurações para o caso de alguém ir repentinamente para o hospital ou para um lar? Estas perguntas podem parecer incómodas, mas podem evitar muito dinheiro perdido e muito stress.

    Como proteger melhor as pessoas idosas

    Há alguns passos que podem reduzir o risco de situações deste tipo para pessoas mais velhas e respetivas famílias:

    • Procuração: Uma procuração bancária ou uma procuração preventiva permite que os familiares analisem contratos e ajam em caso de necessidade.
    • Consulta conjunta: Em compras importantes, levar idealmente um membro da família à reunião no concessionário ou no banco.
    • Prazos curtos: Sobretudo em idade avançada, é preferível evitar contratos de leasing ou financiamento de longa duração.
    • Escolha prudente do veículo: Em vez de muita potência e equipamento caro, optar por automóveis simples e fáceis de gerir.
    • Nunca assinar sob pressão: Não assinar um contrato imediatamente depois de uma conversa comercial; é sempre melhor pedir tempo para pensar.

    Do ponto de vista legal, muitos contratos mal negociados são difíceis de anular mais tarde. Quem conta com a boa vontade de terceiros depende da disponibilidade do concessionário - tal como a família de Max. Por isso, toda a prevenção feita antes vale em dobro.

    Leasing na idade sénior: tentador, mas arriscado

    Para muitas pessoas idosas, o leasing parece atrativo: tecnologia nova, sistemas de assistência, uma prestação mensal fixa - e a sensação de segurança. Ao mesmo tempo, o automóvel continua, na maioria dos casos, a ser propriedade da empresa de leasing e, no fim, costuma haver uma prestação final elevada ou a devolução do carro, com possíveis discussões sobre danos e quilometragem excessiva.

    Aspeto Vantagem Risco
    Prestação mensal Custos previsíveis Pressão financeira em caso de dependência de cuidados
    Estado do veículo Carro moderno e seguro Custos por danos ou riscos
    Prazo Utilização durante vários anos Vinculação longa apesar de uma situação de vida alterada

    Na idade avançada, as circunstâncias mudam muitas vezes depressa: uma queda, um AVC, um diagnóstico de demência - e, de um momento para o outro, conduzir deixa de ser uma opção. Um leasing rígido ajusta-se mal a esta incerteza.

    O que o caso de Max deixa bem claro

    A história deste homem de 94 anos mostra uma coisa: os contratos ignoram a idade de quem assina, desde que ninguém os questione. Enquanto o legislador não criar mecanismos de proteção claros para pessoas muito idosas, as famílias continuarão a ser chamadas a intervir. Terão de falar mais cedo e de forma mais aberta sobre dinheiro e contratos, mesmo quando isso é desconfortável.

    Para o neto de Max, o problema já não é apenas financeiro. Ele quer que concessionários e financiadores olhem com mais atenção para quem vendem produtos caros e com prazos longos. O caso do avô não deve ficar como mais um episódio silenciado, enquanto as prestações continuam a desaparecer todos os meses da conta de uma pessoa dependente de cuidados.

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