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Sensação médica: Cientistas cultivam esófagos em laboratório e transplantam-nos para porcos.

Cientista jovem analisa um cérebro em placa de Petri ao lado de porco deitado em laboratório.

Uma equipa britânica de investigação conseguiu, pela primeira vez, cultivar em laboratório um fragmento de esófago em porcos e, depois, transplantá-lo com êxito. Após a operação, os animais voltaram a alimentar-se normalmente. O que parece saído de ficção científica é visto por especialistas como um possível ponto de viragem para crianças com malformações graves e para doentes que precisam de remover uma parte do esófago.

O que os investigadores conseguiram fazer com o esófago dos porcos

No centro deste trabalho está um segmento do esófago - o tubo muscular que conduz o alimento da boca até ao estômago. Oito mini-porcos receberam, cada um, um pedaço de esófago com cerca de 2,5 centímetros, previamente preparado por completo em laboratório. A base do processo foram células do próprio corpo dos animais.

Cinco dos oito porcos sobreviveram à duração integral do estudo, de seis meses, e voltaram a ingerir alimento normalmente - com um esófago artificial que se comportava como tecido verdadeiro.

Os resultados foram publicados na revista científica Nature Biotechnology e chamaram a atenção internacional, porque atacam um problema antigo da cirurgia pediátrica: substituir segmentos maiores do esófago.

Como um órgão de porco se transformou num “molde” vivo para o esófago

O estudo é liderado pelo cirurgião pediátrico Paolo De Coppi, do University College London. A equipa recorreu a uma técnica da investigação em bioengenharia. O ponto de partida foi um esófago de porco normal. Esse órgão foi tratado de modo a eliminar todas as células vivas.

O que restou foi apenas uma espécie de estrutura de suporte, a chamada matriz extracelular. Esse suporte:

  • mantém a forma e a arquitetura originais do órgão,
  • já não contém células estranhas que possam desencadear uma reação de rejeição,
  • serve de base estável para novas células do recetor.

Depois, os investigadores introduziram nesse “esqueleto” biológico células dos próprios porcos correspondentes. Tratava-se de células musculares que foram novamente reprogramadas para um estado semelhante ao das células estaminais. Assim, puderam voltar a diferenciar-se em vários tipos celulares necessários num esófago - por exemplo, células musculares e nervosas.

O segmento de esófago preparado passou uma semana num chamado biorreator. Ali circulam soluções nutritivas e existem temperaturas e pressões controladas. As células puderam fixar-se, multiplicar-se e organizar-se. Desde a remoção inicial do órgão até ao implante final decorreram, no total, perto de dois meses.

Transplante em mini-porcos: o teste decisivo no corpo vivo

Seguiu-se então o passo crucial: em oito mini-porcos com cerca de dez quilogramas, os cirurgiões removeram um pedaço do próprio esófago. A lacuna foi preenchida com o segmento preparado em laboratório.

Para proteger o tecido jovem nas primeiras semanas, os investigadores envolveram o implante com uma malha biodegradável. O objetivo era ajudar a atrair novos vasos sanguíneos e garantir estabilidade até o tecido ficar integrado.

De acordo com os dados publicados:

  • todos os oito porcos ultrapassaram a fase crítica dos primeiros 30 dias,
  • os animais apresentaram integração completa dos implantes ao fim de três meses,
  • cinco animais conseguiram engolir alimento normalmente durante seis meses.

Nesses animais, o implante desenvolveu:

  • músculo capaz de contrair,
  • estruturas nervosas,
  • uma rede vascular funcional, que manteve o segmento abastecido com sangue de forma duradoura.

As medições mostraram que o segmento do esófago cultivado em laboratório conseguia gerar pressão suficiente para transportar o alimento de forma fiável em direção ao estômago. Em alguns casos surgiram estreitamentos, conhecidos como estenoses. As equipas alargaram-nos por endoscopia - isto é, a partir do interior, com um tubo e um balão -, um procedimento já utilizado no tratamento de pessoas.

Porque este esófago bioengenheirado é um sinal de esperança para crianças com malformações

O foco está, em especial, nas crianças com uma malformação congénita chamada atresia do esófago. Nesses casos, o esófago não se desenvolve por completo. Sobretudo quando existem defeitos longos, em que falta uma porção maior, os cirurgiões enfrentam desafios enormes.

Atualmente, os médicos recorrem muitas vezes às seguintes soluções de recurso:

  • deslocar um fragmento do estômago para o tórax,
  • elevar um segmento do intestino grosso para funcionar como tubo de substituição,
  • realizar operações complexas de dilatação para juntar as extremidades do esófago existente.

Todas estas opções trazem riscos - desde refluxo e dificuldades na deglutição até novas cirurgias repetidas. Um implante personalizado, alimentado com células próprias e capaz de crescer com a criança, poderia tornar muitos destes procedimentos desnecessários ou, pelo menos, reduzir-lhes bastante a necessidade.

Uma estrutura obtida de tecido animal e semeada com células do próprio doente evita reações imunes fortes e adapta-se ao crescimento - precisamente o que é necessário em crianças com malformações complexas.

Próximo passo no esófago bioengenheirado: segmentos mais longos e menos trabalho manual

A equipa britânica trabalha agora na produção de segmentos mais longos, entre 10 e 15 centímetros. Aqui, o grande desafio é sobretudo a irrigação sanguínea. Quanto maior for o implante, mais difícil se torna garantir que todas as regiões recebem oxigénio e nutrientes a tempo.

Em paralelo, os investigadores estão a normalizar o processo de fabrico. O objetivo é criar uma espécie de “semiacabado” a partir de tecido de porco tratado, que possa ser armazenado em centros especializados. Só quando houver um doente definido é que esse molde seria povoado com as células individuais.

Este tipo de abordagem teria várias vantagens:

  • maior rapidez de disponibilidade em situações de urgência,
  • qualidade dos implantes mais consistente,
  • menos trabalho manual no laboratório,
  • evitar imunossupressão permanente, uma vez que faltam células estranhas ao organismo.

O coordenador do estudo, De Coppi, considera plausível um primeiro ensaio clínico em seres humanos dentro de cerca de três a quatro anos - desde que os ensaios em curso com segmentos mais longos tenham resultados positivos e seguros.

Quem mais pode beneficiar: doentes com cancro e vítimas de queimaduras químicas

Este método não se destina apenas a crianças com defeitos congénitos. Os adultos também poderão beneficiar. Após cancro do esófago, os cirurgiões removem muitas vezes grandes porções do órgão. Situação igualmente dramática é a das queimaduras graves provocadas por produtos de limpeza ou por substâncias alcalinas, que surgem sobretudo em acidentes domésticos.

Hoje, os médicos substituem normalmente os segmentos em falta do esófago por partes do estômago ou do intestino. Isso salva vidas, mas muitas vezes deixa limitações para toda a vida no quotidiano - desde azia crónica a perturbações da deglutição e problemas de peso. Um implante ajustado à medida, que se comporte o mais possível como um esófago natural, poderá oferecer aqui uma alternativa mais suave.

Quão seguro é um implante biológico deste tipo?

Apesar do entusiasmo, continuam a surgir muitas dúvidas: poderá um implante destes durar décadas? Com que frequência aparecem estreitamentos? Como se altera o tecido ao longo do crescimento ou com o envelhecimento?

Os dados disponíveis do estudo em porcos já oferecem algumas respostas iniciais:

Aspeto Observação no estudo
Sobrevivência após a operação Todos os oito animais ultrapassaram a primeira fase crítica
Função ao fim de 6 meses Cinco animais comiam e engoliam de forma eficaz
Construção do tecido Foram detetados músculo, nervos e vasos sanguíneos no implante
Complicações Estreitamentos tratados com dilatação endoscópica

Naturalmente, ainda faltam dados de longo prazo ao longo de muitos anos. Esses resultados terão de ser fornecidos por estudos posteriores - primeiro em modelos animais e, depois, em doentes cuidadosamente selecionados com situações muito graves.

O que os leigos devem saber sobre os termos técnicos

Matriz extracelular

Designa o material de suporte existente entre as células. É composto sobretudo por proteínas como o colagénio. Esta matriz dá forma e estabilidade aos órgãos. No estudo atual, é precisamente essa estrutura que sobra quando todas as células vivas são removidas.

Biorreator

Um biorreator é, na prática, uma espécie de “incubadora de alta tecnologia” para células e tecidos. Temperatura, nutrientes, oxigénio e, por vezes, também pressão ou movimento podem ser ajustados com precisão. Assim, cria-se um ambiente que imita o corpo o melhor possível.

Células semelhantes a estaminais

As células utilizadas tiveram origem em tecido muscular, mas foram reprogramadas em laboratório para voltar a poder desenvolver-se em várias direções. Isso permitiu formar músculo, nervos e outros tipos celulares no implante.

Quais os riscos que ainda estão em aberto

Mesmo que o conceito seja promissor, os especialistas apontam vários obstáculos. Por exemplo, continua por esclarecer se os implantes em seres humanos podem desenvolver alterações a longo prazo, como fibrose ou proliferação anómala do tecido. Também ainda não é possível afirmar com segurança se o sistema nervoso de um segmento artificial destes funciona de forma totalmente fiável - os movimentos de deglutição finamente coordenados dependem muito de sinais nervosos.

Acrescem questões práticas: como produzir e financiar estes implantes à escala mundial? Que hospitais têm conhecimento técnico suficiente para realizar as operações em segurança? E como garantir que cada implante cumpre o mesmo padrão de qualidade?

Apesar de todas estas incógnitas, o trabalho de Londres mostra que um esófago construído em laboratório pode, em princípio, funcionar em animais de maior porte. Para famílias com crianças a quem falta um segmento decisivo deste órgão, isso é um sinal raro de esperança concreta - não num futuro distante, mas talvez já nos próximos anos.

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