Os professores tendem a vê-las como rápidas, curiosas e, por vezes, também difíceis de lidar. Em casa, os pais observam uma criança que consegue passar horas a ler, inventar ou a resolver problemas por conta própria. Na escola, estas características chocam com estruturas rígidas - sobretudo quando os projetos em conjunto e o trabalho de grupo entram no horário. Especialistas referem que é precisamente aí que aparece um padrão muito comum entre muitos alunos sobredotados.
O que está por trás da sobredotação
Em regra, considera-se sobredotada a criança com um quociente de inteligência de cerca de 130 ou superior. No entanto, esse valor mostra apenas uma parte daquilo que realmente conta no dia a dia. Psicólogos como Michael M. Piechowski têm sublinhado, ao longo de décadas, que não se trata apenas de raciocínio lógico puro.
- grande curiosidade intelectual
- elevada intensidade emocional
- imaginação muito desenvolvida
- forte necessidade de sentido e compreensão
Em estudos com crianças e adolescentes, verificou-se que os sobredotados fazem mais perguntas abstratas, querem perceber as ligações até ao último detalhe e estão sempre à procura de novos estímulos para pensar. Em contexto escolar, isso pode fazê-los parecer, por vezes, “cansativos” - não porque queiram perturbar, mas porque a mente simplesmente não pára.
Porque é que a linguagem e as palavras são tão importantes para eles
Muitas destas crianças têm uma ligação muito especial à linguagem. Querem saber exatamente o que significa um termo, em que é que os sentidos divergem e de onde vem uma palavra. Psicólogas relatam que alguns sobredotados leem o dicionário por prazer - da mesma forma que outros devoram banda desenhada.
“Os dicionários tornam-se, para muitas crianças sobredotadas, um parque de diversões para a mente - e não um simples livro de consulta seco e aborrecido.”
No quotidiano, as docentes observam comportamentos como estes:
- usam dicionários digitais para procurar palavras de imediato;
- perguntam por nuances (“Qual é a diferença entre corajoso e temerário?”);
- memorizam palavras novas com muita rapidez e passam a usá-las sem hesitação;
- questionam formulações de enunciados ou fichas de trabalho.
Esta atenção extrema ao detalhe pode ser desgastante para os professores, mas revela sobretudo o desejo muito forte de compreender de verdade. “Aprender de cor” raramente basta a estas crianças; elas procuram sentido.
O ponto crítico na escola: o trabalho de grupo
O conflito torna-se ainda mais visível quando se fala de trabalho de grupo. Há vários anos que os modelos pedagógicos apostam fortemente nas fases de equipa, porque ajudam a desenvolver competências sociais e a puxar os alunos com mais dificuldades. Para muitas crianças sobredotadas, porém, isso acaba por gerar uma situação de grande tensão.
Especialistas dizem o mesmo de forma consistente: muitos alunos sobredotados suportam mal o trabalho de grupo - ou evitam-no sempre que podem.
Entre os motivos mais apontados por psicólogas e educadoras estão os seguintes:
- trabalham muito mais depressa do que o resto do grupo;
- percebem logo o que é pedido e querem começar imediatamente;
- costumam ter as suas próprias ideias sobre como abordar o tema;
- mostram pouco interesse por conversa fiada ou assuntos paralelos.
Quando estão num grupo com colegas mais lentos, menos motivados ou constantemente distraídos, a frustração acumula-se. Muitos acabam por assumir praticamente toda a tarefa, porque querem “despachá-la depressa” e não desejam abrandar ao ritmo dos outros.
“Prefiro fazê-lo sozinho” - um padrão frequente
Algumas crianças dizem-no sem rodeios; outras mostram-no sobretudo através do comportamento: afastam-se, organizam a tarefa por conta própria, apresentam o resultado no fim e já têm a questão resolvida interiormente há muito. Aos olhos do professor, isto pode parecer dominador ou pouco social.
As psicólogas explicam este reflexo com o facto de o pensamento das crianças sobredotadas avançar muitas vezes a uma velocidade muito elevada. Tentar travar esse ritmo durante muito tempo exige enorme energia. Ao mesmo tempo, elas sentem que repetir explicações ou avançar devagar por passos demasiado simples é uma perda de tempo. Daí nasce a impressão de que não querem cooperar - quando, em muitos casos, estão apenas a lutar para conter o próprio ritmo.
Forte preferência pelo trabalho autónomo
Nas escolas que acompanham muitas crianças sobredotadas, há um padrão muito claro: estes alunos florescem sobretudo quando lhes é permitido trabalhar de forma independente. Métodos escolhidos por eles, tarefas adicionais, projetos - tudo isso encaixa na forma como trabalham.
As professoras referem que, com frequência:
- desenvolvem tarefas para lá do exigido, porque “ainda lhes ocorre uma ideia”;
- encontram soluções próprias em vez de seguirem o método apresentado;
- pedem material mais avançado quando terminam cedo;
- aproveitam os períodos de trabalho livre com concentração e sem pressão.
Muitas crianças sobredotadas não sentem o trabalho autónomo como um peso, mas como um alívio - finalmente podem pensar ao seu próprio ritmo.
Nas escolas com uma orientação específica, as equipas docentes recorrem por isso à chamada diferenciação: em vez de ocuparem todas as crianças da mesma forma, algumas recebem projetos extra, tarefas mais exigentes ou questões abertas. Dessa maneira, a necessidade de estimulação intelectual continua a ser levada a sério.
O que os professores podem fazer na prática
Mesmo numa turma “normal”, sem apoio específico para sobredotação, há pequenas alavancas que podem ser ajustadas. Os pedagogos apontam, entre outras, as seguintes abordagens:
| Situação | Possível resposta do professor |
|---|---|
| O aluno termina sempre muito mais depressa o trabalho de grupo | Propor tarefas extra ou perguntas de aprofundamento que ele possa resolver sozinho |
| O aluno acaba sempre por assumir todo o trabalho de grupo | Distribuir papéis claros, como “gerador de ideias”, “apresentador” e “verificador”, para que a tarefa fique repartida de forma justa |
| O aluno resiste ao trabalho de grupo aberto | Permitir fases de trabalho individual e explicar por que razão, ainda assim, certas formas de socialização são necessárias |
| O aluno faz constantemente perguntas adicionais e abstratas | Criar um “estacionamento de perguntas”: anotar as questões e discuti-las de forma aprofundada num momento fixo |
Pequenos ajustes deste tipo podem ajudar as crianças sobredotadas a sentirem-se vistas e a não terem a sensação permanente de estarem a ser travadas.
Como os pais podem interpretar os sinais corretamente
Nem toda a criança que detesta trabalho de grupo é sobredotada. Ainda assim, em muitas crianças sobredotadas repetem-se alguns indícios que podem chamar a atenção dos pais:
- aquisição da linguagem muito cedo e com grande intensidade, vocabulário vasto;
- forte sentido de justiça e elevada capacidade de empatia;
- desagrado perante ritmos “lentos” na escola ou numa atividade extracurricular;
- grande entusiasmo por temas específicos (planetas, história, tecnologia, etc.);
- tédio evidente nas aulas, apesar de serem possíveis notas boas.
Se, além disso, houver frustração persistente com trabalhos de grupo ou projetos com outras crianças, pode ser útil procurar aconselhamento junto de uma psicóloga escolar ou de um psicólogo da infância e adolescência. Um teste de sobredotação não é obrigatório, mas pode ajudar a enquadrar melhor os comportamentos e a encontrar caminhos de apoio adequados.
Mais do que apenas “inteligente”: o lado emocional da sobredotação
As crianças sobredotadas não aprendem só mais depressa; muitas vezes também sentem de forma mais intensa. Crítica, injustiça ou tédio podem atingi-las com mais força do que os adultos imaginam. Em trabalhos de grupo, vivem então vários focos de tensão ao mesmo tempo: pressão para se adaptar, sensação de improdutividade e exigências sociais.
Quando os professores reconhecem as necessidades por trás deste comportamento, os conflitos podem ser atenuados. Uma criança que não gosta de trabalhar em grupo não é, automaticamente, arrogante ou antissocial. Pode simplesmente estar a tentar conciliar o seu impulso interno com o enquadramento externo da escola.
Exemplos práticos em sala de aula
Algumas escolas relatam bons resultados com os chamados “projetos de autonomia”. Neles, as crianças sobredotadas recebem, para além das tarefas normais, um tema de longo prazo que podem desenvolver por conta própria: criar um livro próprio, conceber uma experiência, realizar um pequeno estudo no contexto escolar.
Durante as fases habituais de trabalho em grupo, podem então continuar esse projeto, desde que as obrigações principais já estejam concluídas. Assim, a turma mantém-se coesa, mas estas crianças continuam a ter um espaço onde podem definir o próprio ritmo e a profundidade do trabalho.
Outra abordagem consiste em formar equipas de propósito, de modo a que os papéis fiquem claramente distribuídos. As crianças sobredotadas ficam, por exemplo, responsáveis pela estruturação e pelo planeamento, enquanto outras tratam da apresentação ou da componente visual. Desta forma, não têm de “fazer tudo”, mas continuam numa posição em que o seu modo de pensar mais rápido é útil.
O que acontece quando as necessidades são ignoradas
Ignorar durante demasiado tempo a forma particular de trabalhar destas crianças sobredotadas acarreta sobretudo dois riscos: frustração e retraimento. Algumas deixam de se empenhar, porque aprendem que, em grupo, acabam sempre a ser elas a abrandar. Outras desenvolvem uma imagem negativa de si próprias, por exemplo a convicção de que são “estranhas” ou “não sabem trabalhar em equipa”.
Por outro lado, estas crianças oferecem um potencial enorme para projetos criativos, questões exigentes e vias de solução inovadoras. Se forem apoiadas na autonomia e, ao mesmo tempo, forem gradualmente encaminhadas para uma colaboração com sentido, quem ganha não são apenas elas - muitas vezes ganha também a turma inteira.
As alunas e os alunos sobredotados não são, por isso, um caso excecional que destrói o ensino. São crianças com uma necessidade muito marcada de sentido, ritmo e profundidade - e com uma recusa clara de situações em que a mente é obrigada a funcionar a meio gás. É precisamente no trabalho de grupo que esta tensão se torna mais visível, como se estivesse debaixo de uma lente de aumento.
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