Caças F-16 da Força Aérea turca, recentemente enviados para a Somália, chegaram a Mogadíscio com o objetivo de apoiar operações contra o grupo terrorista Al-Shabaab, assinalando um novo patamar do envolvimento militar de Ancara no país do Chifre de África. A chegada destas aeronaves constitui a primeira vez que a Turquia destaca caças tripulados em território somali, alargando o seu papel para lá das tarefas de treino, aconselhamento e apoio indireto.
Segundo responsáveis do governo somali, três F-16 aterraram a 28 de janeiro no Aeroporto Internacional Aden Adde, em Mogadíscio, acompanhados por dois helicópteros militares destinados a apoiar operações no sul e no centro do país. Embora não tenha sido confirmada a realização de ataques aéreos, a simples presença destas aeronaves introduz uma nova dimensão operacional no conflito e altera o quadro de segurança face ao Al-Shabaab.
Este destacamento aéreo ocorreu em paralelo com a primeira participação direta confirmada de tropas terrestres turcas em combate contra o grupo insurgente, além de, no final de janeiro, os Estados Unidos terem realizado um ataque aéreo contra posições insurgentes. Na região de Middle Shabelle, perto da zona de Jabad-Godane e a cerca de 20 quilómetros da base do Exército Nacional da Somália em Qorilow, as forças somalis desencadearam um intenso bombardeamento de artilharia contra posições do Al-Shabaab, seguido de um assalto coordenado em terra. A operação foi conduzida pelas forças especiais Gorgor, com apoio direto de soldados e oficiais turcos previamente destacados para a área.
Segundo fontes locais, dezenas de militares turcos, equipados com veículos blindados e armamento avançado, participaram em confrontos terrestres que duraram cerca de três horas. Até agora, a Turquia mantivera uma linha operacional clara, limitando a sua presença ao treino, ao fornecimento de equipamento, à partilha de informações e ao apoio indireto, incluindo o uso de drones armados. A operação em Middle Shabelle põe fim a essa distinção e coloca a Turquia como interveniente direto em combate.
Esta evolução é também entendida como uma resposta clara do governo turco ao reconhecimento, por parte de Israel, da independência da região nordeste do país: Somaliland. Dessa forma, a Somália transforma-se num tabuleiro de xadrez em que a Turquia, ao apoiar o Governo Federal, procura ampliar a sua influência em África, enquanto Israel assegura um aliado no estrategicamente importante Chifre de África.
Esta decisão política de Israel foi rejeitada pelo governo federal somali e condenada por uma ampla coligação que reuniu a Turquia, o Egito, a Liga Árabe e a Organização para a Cooperação Islâmica, que a consideraram uma violação da soberania e da integridade territorial da Somália.
A participação dos F-16 turcos em Mogadíscio
Do ponto de vista militar, a entrada dos F-16 da Força Aérea turca no espaço aéreo somali representa um salto qualitativo nas capacidades disponíveis. Ao contrário dos sistemas não tripulados usados anteriormente, os caças tripulados oferecem maior capacidade de carga, mais flexibilidade operacional e tempos de resposta mais rápidos. O seu destacamento amplia as opções de apoio aéreo aproximado e de reação célere a ameaças emergentes, ao mesmo tempo que restringe a liberdade de movimentos do Al-Shabaab.
Imagens divulgadas recentemente nas redes sociais mostram F-16 turcos a descolar e a voar a baixa altitude sobre Mogadíscio, confirmando visualmente a presença destas aeronaves no país. Segundo relatos, Ancara terá estado a construir nos últimos meses uma instalação dedicada para alojar os caças, com engenheiros turcos a trabalhar no aeroporto internacional para preparar a infraestrutura necessária.
O apoio da Turquia à Somália
Neste contexto, o reforço do compromisso militar turco é interpretado como uma reafirmação do apoio de Ancara à unidade territorial somali. A Turquia tem sido um interveniente constante no país desde 2011, quando iniciou a cooperação na reconstrução e no fortalecimento do Exército Nacional da Somália através de formação, entrega de equipamento e veículos, e assistência financeira. Mogadíscio alberga também a TURKSOM, a maior base militar da Turquia no estrangeiro.
O ministro da Defesa da Turquia, Yaşar Güler, afirmou recentemente que o seu país está a aumentar as atividades de formação e apoio na Somália com o objetivo de reforçar a segurança e a estabilidade. “Na Somália, estabelecemos recentemente o Comando da Força Aérea, que inclui instalações para helicópteros e drones,” disse Güler, segundo o boletim especializado TIKLS.
Para lá do domínio estritamente militar, a Turquia mantém interesses estratégicos e económicos na Somália, entre os quais o setor energético e o potencial mineiro do país. De acordo com a consultora SMA Oxford, a Somália possui reservas significativas ainda por explorar de minerais críticos como alumínio, cobre, ferro, terras raras e titânio - matérias-primas essenciais tanto para tecnologias energéticas civis como militares.
Por enquanto, não há informação sobre quanto tempo os F-16 turcos permanecerão destacados em Mogadíscio. Ainda assim, o conjunto de medidas adotadas sugere que Ancara pretende manter e aprofundar a sua presença militar na Somália, num contexto regional cada vez mais marcado pela competição geopolítica e pela ameaça persistente representada pelo Al-Shabaab.
Imagens usadas apenas para fins ilustrativos.
Traduzido por Constanza Matteo
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