Numa manhã fresca de primavera, duas casas vizinhas mostram duas formas muito diferentes de tratar o jardim.
De um lado, relvado cortado ao milímetro, canteiros varridos e nem uma folha à vista. Do outro, solo à vista aqui e ali, com folhas secas espalhadas em pequenos montes à volta das vivazes, como se o outono tivesse ficado um pouco atrasado. À conversa por cima do muro, chávena quente na mão, os dois vizinhos olham para o cenário. Um jardim parece “arrumado”. O outro parece… por arrumar.
Algumas semanas depois, o canteiro “desleixado” está cheio de vida. As prímulas abrem primeiro, as tulipas avançam mais depressa, o solo parece mais escuro, mais húmido, quase vivo. O canteiro impecável do lado ao lado vai ficando para trás e pede mais rega e adubo. Mesmo clima, mesma localidade, mas uma primavera muito diferente. A diferença quase passa despercebida, a não ser que se saiba onde olhar.
Está nas folhas.
Porque é que os jardineiros estão a aprender a gostar de canteiros “desarrumados” na primavera
Numa tarde amena de março, numa horta comunitária no Reino Unido, três horticultores estão parados junto a um canteiro elevado, a mexer na terra com os dedos enluvados. Uma delas é nova na jardinagem e parece embaraçada. “Ainda não varei as folhas”, diz, a olhar para os outros. O jardineiro mais velho ri-se, baixa-se e apanha um punhado de folhas meio decompostas. “É isto”, diz ele, “que faz com que as minhas favas não amuem em maio.” A terra por baixo está húmida, solta e cheira a chão de floresta depois da chuva.
É essa a magia discreta de deixar algumas folhas sobre o solo quando o inverno começa a virar para a primavera. Funcionam como uma manta, evitando que a terra seque nestes dias de março ventosos e traiçoeiros. Protegem rebentos cedo que, de outra forma, podiam ser queimados por uma geada tardia ou castigados por chuvas fortes. Não dão boa fotografia para o Instagram, mas quem cultiva a sério sabe que estão a fazer trabalho importante mesmo por baixo dos nossos pés.
Veja-se um pequeno jardim nas traseiras em Birmingham, que a investigadora e jardineira Jayne tem acompanhado para um grupo local de vida selvagem. Num lado, segue-se o método antigo: as folhas são varridas e ensacadas logo que caem. No lado oposto, fica uma camada solta de folhas sobre o solo, retirada apenas em pequenos círculos à volta das plantas que estão a nascer. No fim de abril do ano passado, o lado com folhas retinha a humidade 25% mais tempo depois da chuva, e a temperatura do solo mantinha-se mais estável, com apenas alguns graus de variação durante as noites frias.
Jayne também contou a vida no solo. Encontrou cerca do dobro das minhocas no canteiro coberto com folhas a meio da primavera, e mais joaninhas a passar tempo nas plantas. Estes organismos não estão lá só para enfeitar: arejam a terra, decompõem matéria orgânica e ajudam a controlar pulgões. Por isso, enquanto um lado precisava de mais água e fertilizante, o lado coberto com folhas ia construindo o seu próprio sistema de apoio, em silêncio. Em março parecia algo por acabar; em maio, era o canteiro que toda a gente fotografava.
O que está a acontecer é simples biologia. As folhas são a palha natural da natureza. À medida que se decompõem, alimentam os organismos do solo, que por sua vez criam melhor estrutura e uma terra mais rica e escura. Essa estrutura melhorada ajuda as raízes a espalharem-se, drena o excesso de água em períodos chuvosos e guarda humidade suficiente quando vem tempo seco. As folhas também funcionam como uma barreira suave, reduzindo o impacto das gotas fortes da chuva, que compactam a terra nua e criam uma crosta dura à superfície. Sob uma camada de folhas, a camada superior mantém-se solta e fofa.
Há ainda outro efeito. Essas folhas em decomposição devolvem nutrientes ao solo, sobretudo potássio e elementos vestigiais que ajudam na floração e na frutificação. No fundo, está-se a reciclar o crescimento do ano anterior em flores e legumes do ano seguinte. Tirar todas as folhas é cortar esse ciclo. Deixar uma quantidade sensata no sítio certo é jogar a favor de plantas mais fortes e de um solo mais rico, sem recorrer a um único saco de adubo.
Como deixar folhas na primavera… sem deixar o jardim desaparecer
O segredo não é abandonar o jardim debaixo de um tapete espesso e encharcado. É trabalhar com uma camada leve e pensada. Comece por percorrer os canteiros no início da primavera e retire com cuidado os montes mais densos das coroas das vivazes e dos pequenos arbustos. Deve conseguir ver a base da planta e os primeiros rebentos verdes. Depois, puxe ou empurre essas folhas um pouco mais para fora, para ficarem sobre a terra nua entre as plantas e não em cima delas.
Uma boa regra é esta: a camada deve ser tão fina que ainda se vejam pedaços de solo aqui e ali. Pense numa manta solta, não num lençol justo. Em canteiros mais estreitos, pode juntar o excesso de folhas em anéis soltos por baixo de arbustos e árvores, onde as raízes agradecem a humidade extra. Na horta, afaste as folhas das linhas onde vai semear, mas deixe-as nos caminhos e entre culturas maiores. O objetivo é moldar a cobertura de folhas, não “limpar” tudo.
Muitos jardineiros sentem um pequeno aperto na primeira vez que deixam folhas no solo. Fomos educados a ver terra nua e canteiros limpos como “boa jardinagem” e qualquer outra coisa como preguiça. Num dia claro de primavera, com toda a gente a cortar relva e a arrumar, os canteiros com folhas podem parecer simplesmente inacabados. Na prática, o maior erro é ir para os extremos: deixar uma manta pesada e húmida onde os bolbos estão a tentar abrir caminho, ou tirar todas as folhas e depois estranhar que a terra seque tão depressa.
Há também a preocupação com lesmas. Um monte espesso e húmido de folhas, encostado às hostas novas, é de facto um convite para um banquete noturno. A resposta não é proibir as folhas, mas manter a camada arejada e afastá-la um pouco das plantas mais apetecíveis para as lesmas. E sim, ainda vai precisar de intervir com granulados, armadilhas de cerveja ou o método que preferir. *Amigo do ambiente não quer dizer sem qualquer intervenção.* Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Os jardineiros que se habituaram a um pouco de “desarrumação” na primavera costumam soar quase aliviados.
“Quando deixei de lutar contra as folhas, a jardinagem ficou mais fácil”, diz Mark, que cuida de um pequeno jardim de vida selvagem em Sussex. “O meu solo segura melhor a humidade, as plantas queixam-se menos nas secas e gasto menos dinheiro em composto. O jardim trata-se quase sozinho, mais do que eu esperava.”
Para quem tiver receio de começar, uma lista simples ajuda a manter o equilíbrio:
- Retire os montes grossos das tulipas, narcisos e plântulas pequenas e leve essas folhas para o solo nu ali perto.
- Mantenha uma camada leve e solta debaixo de arbustos, árvores e entre vivazes já estabelecidas.
- Use um ancinho ou as mãos para soltar os montes compactados, para que o ar e a chuva cheguem ao solo.
- Remova folhas doentes (como o oídio ou a mancha negra nas roseiras) e deite-as no lixo, em vez de as usar como cobertura.
- Observe o comportamento do solo durante uma estação e ajuste depois: mais folhas onde seca depressa, menos onde as lesmas fazem festa.
Uma nova forma de ver “arrumado” quando chega a primavera
Há uma mudança discreta a acontecer nos jardins britânicos, dos terraços urbanos às hortas rurais. A velha imagem de “prontidão” na primavera - canteiros despidos, terra nua, cada folha ensacada e deitada fora - está a dar lugar a algo mais suave. Um jardim que guarda alguma memória do outono. Um canteiro que parece um pouco por terminar em março, mas que ganha força mais depressa em abril. Depois de ver pequenos pássaros a remexer a folhada à procura de insetos, a ideia de remover a última folha começa a parecer estranhamente dura.
Deixar algumas folhas no solo não é preguiça. É um pequeno voto de confiança nos ciclos naturais que mantiveram as florestas a funcionar muito antes de existirem centros de jardinagem. Permite que as plantas da primavera entrem num ambiente já amortecido, alimentado e um pouco protegido das maiores oscilações do tempo. É também uma recusa silenciosa da pressão para que tudo pareça perfeito, já, de imediato. Raramente o dizemos em voz alta, mas essa pressão também aparece na forma como varremos.
Quando começa a prestar atenção, percebe quais os recantos do jardim que respondem mais fundo. Talvez o canteiro junto à vedação, onde o vento bate com mais força, passe a aguentar melhor a humidade e a vida. Talvez a faixa que antes estava nua debaixo de uma árvore se torne casa de violetas e de bocas-de-leão espontâneas, alimentadas pelas folhas do ano anterior. E pode dar por si a hesitar, ancinho na mão, a pensar duas vezes antes de raspar tudo até ficar nu. Esse pequeno momento de pausa é onde começa outro tipo de jardinagem - mais lenta, mais gentil e, de certa forma, mais satisfatória.
| Ponto-chave | Detalhe | Vantagem para o leitor |
|---|---|---|
| Folhas como cobertura natural | Protegem o solo, conservam a humidade e reduzem o compactamento | Menos rega, plantas mais resistentes ao stress |
| Habitat para a vida do solo | Abrigam minhocas, insetos úteis e microrganismos | Solo mais fértil, menos pragas a longo prazo |
| Gestão “equilibrada” da desordem | Camada fina, afastada dos rebentos jovens e levada para as zonas nuas | Jardim mais natural, mas ainda cuidado e controlado |
FAQ:
- As folhas no solo vão sufocar as minhas plantas na primavera? Podem sufocar se formarem uma manta espessa e húmida mesmo por cima dos rebentos novos; basta afastá-las um pouco das coroas e dos bolbos, mantendo uma camada leve sobre a terra nua entre as plantas.
- Todas as folhas servem para deixar nos canteiros? A maioria serve, mas as folhas muito duras e coriáceas (como as do sobreiro-azinho ou do loureiro-cerejo) decompõem-se devagar, por isso é melhor triturá-las ou compostá-las à parte, em vez de as usar como cobertura crua.
- Deixar folhas aumenta as lesmas e os caracóis? Uma camada densa, junto a plantas muito apetecíveis, pode criar abrigo, por isso mantenha a cobertura arejada, afaste-a um pouco de hostas e alfaces e junte-lhe os seus métodos habituais de controlo.
- Devo tirar completamente as folhas do relvado? Camadas grossas abafam a relva, por isso retire a maior parte; mas uma camada fina pode ser triturada pela máquina de cortar relva e devolvida ao relvado como uma alimentação suave.
- E se os vizinhos acharem que o meu jardim de primavera está desleixado? Pode manter os rebordos arrumados, os caminhos limpos e as vistas principais cuidadas, deixando ainda assim folhas por baixo dos arbustos e entre as vivazes; assim o jardim parece tratado, mas trabalha mais para si.
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