Um balanço diário como sinal vital
“Faço o balanço todos os dias”, atirou o primeiro-ministro esta segunda-feira, em Caminha, quando lhe perguntaram pelo primeiro ano desta legislatura. Disse-o num tom de defesa, como quem responde a um jornalista que talvez esperasse outra escala de tempo - uma avaliação menos quotidiana. Vale a pena perceber a escolha.
Quem precisa de fazer um balanço todos os dias é alguém que, todos os dias, tem de confirmar se continua aqui. É quase um sinal vital: um homem diante do espelho a contar os dentes.
Do 32,7% à Presidência: vitórias que não ficam
Há um ano exacto, a AD ganhou as legislativas com 32,7%. Foi uma vitória nítida, sim, mas sem maioria absoluta e com um partido novo a crescer rapidamente à sua direita. Ao mesmo tempo, o PS desceu ao terceiro lugar parlamentar pela primeira vez na sua história. Pedro Nuno Santos saiu nessa noite, demitiu-se sob assobios num hotel em Lisboa. Do palco, Montenegro proclamava: "O povo quer este Governo. O povo quer este primeiro-ministro". Tem o encanto da tautologia: o povo quer aquilo que tem.
Oito meses depois, foi esse mesmo povo que entregou Belém ao antigo líder do PS - e, do lado socialista, respirou-se como quem volta à superfície. José Luís Carneiro chegou a abrir o congresso do partido com um “estamos vivos, camaradas!”. Ufa.
António José Seguro venceu as presidenciais com o maior número absoluto de votos de sempre, superando o anterior recorde positivo de Mário Soares em 1991. Já Marques Mendes, o candidato apoiado por Montenegro, ficou nos 11%. Foi o pior resultado de sempre para um candidato presidencial apoiado pelo Governo, ultrapassando o anterior recorde negativo de Mário Soares em 2006. Há conquistas que pedem nota de rodapé.
Direita no Governo, esquerda em Belém: um equilíbrio levado ao limite
A fórmula ficou: a direita governa, a esquerda preside. Portugal conhece este tipo de equilíbrio em várias versões desde 1976, mas poucas vezes ele pareceu tão simétrico. Raramente um vencedor eleitoral foi tão castigado poucos meses depois; raramente uma vitória de 32,7% desembocou, no espaço de um inverno, numa humilhação presidencial de 11%.
Desde 2015, sobretudo, os portugueses parecem ter percebido algo que o sistema partidário talvez ainda não tenha assimilado: dar Belém a quem governa é dar demais. Marcelo Rebelo de Sousa não governou, é verdade, mas geriu. Comentava com o ouvido a sair da porta e a voz pela janela - e isso, pelos vistos, bastou. Seguro promete que não fará o mesmo e, presumivelmente, distribuirá menos beijinhos.
Medidas, aritmética e a metáfora CR7
Entretanto, o Governo fez coisas. Segundo o primeiro-ministro, reduziu o IRS quatro vezes. Já o ministro das Finanças diz que se trata de uma redução prevista para ser entregue até ao final de 2026. As duas frases não podem estar certas ao mesmo tempo, mas a aritmética é uma das vítimas habituais da retórica política - e não é por aí que o mundo cai.
Aprovou o PTRR, com 22,6 mil milhões de euros, 96 medidas, 15 domínios, três pilares, quatro novas barragens (Girabolhos, Ocreza-Alvito, Alportel, Foupana) e 400 charcas. Vai negociando e tropeçando no Trabalho XXI. E garante já ter assinado 39 acordos de concertação social, um número que tanto pode parecer curto como exagerado, conforme o lado de onde se olha.
E há outra marca do estilo: Cristiano Ronaldo. O primeiro-ministro cita-o, e faz disso um hábito - em mensagens de Natal, em discursos a militantes - como exemplo de talento, esforço e dedicação. Convenhamos: é uma musa política peculiar. Sá Carneiro continua a ser convocado, como é obrigação de qualquer presidente do PSD, e Pinto Balsemão também, agora que nos deixou. Salazar chamava São Tomás de Aquino, o que pesa mais nos ombros. Marcelo citava o Papa Francisco. Montenegro escolheu CR7. Não é terrível - há quem escolha pior -, mas pede reflexão.
Cristiano Ronaldo foi o primeiro português a perceber que o esforço, quando bem fotografado, vira produto. Tem muitos golos, muitas taças individuais e colectivas, muitos contratos, muitas marcas, muitos abdominais - tudo contabilizado. É um homem que ganhou praticamente tudo o que era possível ganhar a título individual. Com a Seleção, em dezanove anos de capitania, somou um Europeu e duas Ligas das Nações. A metáfora encaixa porque há muito brilho próprio e menos brilho colectivo.
O Governo também se parece com isso. Exibe óptimos números individuais: impostos a descer, pensões a subir, o salário mínimo a aumentar, medidas a multiplicarem-se. As métricas existem. O troféu colectivo - o de o país sentir, de forma palpável, que está melhor - é mais difícil de levantar.
Hugo Soares admitiu-o ontem, na Antena 1, com uma frase limpa: “não há um português que viva ainda como gostaria de viver, mas vivem melhor”. É um argumento perfeito. Ninguém vive como gostaria; logo, qualquer melhoria marginal encaixa no vazio. Que venham tentar desmenti-lo - não conseguem.
O lado de lá do balanço
As sondagens indicam que há mais portugueses a achar que a economia piorou do que a sentir que melhorou. E há episódios que não cabem na soma: a gestão das tempestades de Janeiro, a falha do SIRESP no apagão de Abril do ano passado, a crise persistente na saúde e na habitação, a Spinumviva que continua a ser Spinumviva.
Mas, do lado de cá - o lado controlável -, o Governo mantém-se em ordem. Mantém-se estável.
"Sim é sim a Portugal” foi a frase que Montenegro escolheu na noite eleitoral, para substituir o "não é não" ao Chega da legislatura anterior. Há ali qualquer coisa de incoerente e, ao mesmo tempo, algo de sincero. Diz sim ao que vier. Diz sim ao trabalho. Diz sim, todos os dias, ao balanço.
CR7, com quarenta e tal anos, ainda marca penáltis. É também isso.
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