Bom dia,
Durante uns meses - menos do que eu desejava e mais do que contava - fomos vivendo com uma poluição visual relativamente contida nas ruas e nas estradas. Depois de legislativas, autárquicas e presidenciais, e ainda com alguns partidos a distribuírem lonas para cobrir telhados castigados pelas tempestades, pareceu haver algum pudor em voltar ao ataque. Entretanto, esse travão desapareceu.
Ventura já tinha alguns cartazes na rua e, agora, foi a vez do PS com José Luís Carneiro. “Alternativa” e “Confiança”, lê-se nos novos painéis dos socialistas. Mas com que objetivo? Se o calendário eleitoral se mantiver, só voltaremos a ter eleições em 2029. A menos que…
Pois.
A sensação é a de que todos estão a fazer o mesmo cálculo. Ontem, quando gravámos a Comissão Política, o podcast da secção de política do Expresso, regressámos ao tema das apostas e eu arrisquei que vamos ter eleições antecipadas em 2028. Logo se verá se acabo a pagar um jantar aos colegas da secção. Depois de ler a moção com que Luís Montenegro avança para a recandidatura à liderança do PSD, e depois de o ouvir insistir que não desistiu de procurar uma maioria absoluta, fiquei praticamente sem dúvidas: podemos não ir a votos antes do prazo, mas eles já estão todos a agir como se isso fosse acontecer.
Há umas semanas, numa conversa aqui na redação, o João Pedro Henriques - que tem o dom de, por vezes, ver mais à frente - dizia que o grande debate da próxima campanha seria a política de alianças. Já foi assim noutras ocasiões: António Costa conseguiu chegar a uma maioria absoluta ao agitar o fantasma de uma possível aproximação de Rui Rio ao Chega; e, mesmo na primeira eleição de Luís Montenegro, o tema já estava em cima da mesa. Eram os tempos do “não é não”. Agora, apesar de teoricamente não haver eleições à vista (embora eu já não acredite muito nisso), Montenegro decidiu trazer para o presente a discussão que o João Pedro antecipava. E isso pode querer dizer alguma coisa.
Na tomada de posse como Presidente, António José Seguro afirmou que era urgente travar o frenesim eleitoral. Ainda assim, as semanas de aparente marasmo parecem estar a chegar ao fim - mesmo que não haja eleições no curtíssimo prazo. Olhemos para os sinais desta segunda-feira, precisamente um ano depois das últimas legislativas, que sugerem que as placas tectónicas podem estar a começar a mexer:
Sinal 1 - Luís Montenegro colocou a política de alianças logo na abertura da moção estratégica. Nela, afirma que não há “cercas sanitárias” nem parceiros preferenciais, colocando, preto no branco, PS e Chega no mesmo plano, como conta a Paula Caeiro Varela. Mais tarde, num discurso de apresentação da recandidatura - com o slogan “Fazer Portugal Maior” - voltou a projetar a ambição de uma maioria absoluta que lhe permita governar sem depender de terceiros.
Sinal 2 - Como é habitual, André Ventura divide-se entre a oposição e a próxima ida às urnas e, ontem, nas jornadas parlamentares em Viseu, voltou a manter-se ambíguo sobre o que fazer com a polémica lei laboral. No fim, Ventura fará o que lhe for mais conveniente. A UGT foi ter com ele para lhe dizer que a proposta prejudica os trabalhadores. Resta perceber se o vento da opinião pública continua a soprar contra a proposta do Governo.
Sinal 3 - Os cartazes do PS vêm a reboque de sondagens que lhe deram algum fôlego. Esta terça-feira foi publicada mais uma sondagem do “Correio da Manhã” a indicar que o partido lidera no indicador de “confiança” dos portugueses.
Sinal 4 - O congresso do CDS. No fim de semana, Nuno Melo recusou empurrar o partido para fora de uma AD tratada como “seguro de vida” e recusou fazer planos a três anos. Se a política está a andar tão depressa, porquê desenhar estratégias para tão longe, quando a meio do caminho pode ser preciso mudar de direção?
Onde há fumo, pode haver fogo. E o tédio pode dar lugar ao frenesim.
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Os nossos podcasts
Comissão Política - Como referi acima, na reunião semanal da secção de política voltámos às políticas de alianças, antecipando o debate que, mais tarde, Luís Montenegro acabaria por lançar com a sua moção. Será este o fim da geometria política tal como a conhecemos? Tentámos responder.
Expresso da Manhã - Miguel Castanho: “Estamos menos preparados para lidar com uma pandemia, mas a culpa não é dos vírus, é dos humanos”. Neste episódio, Paulo Baldaia conversa com Miguel Castanho, investigador da Fundação GIMM - Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular e professor na FMUL, a propósito do alerta da OMS sobre o surto de ébola.
Humor à primeira vista - “Nos Gato Fedorento usámos o dinheiro que havia no texto. Foi a opção certa, ainda hoje vêm ter comigo com frases que escrevemos há 25 anos”, conta Ricardo Araújo Pereira. Na segunda parte da conversa com Gustavo Carvalho, o humorista defende que o humor pode ser uma boa forma de os deputados lidarem com o discurso do Chega no Parlamento e revela o (pouco) que já foi pensando para a sua reforma.
Frases
“Cada um faz as interpretações que quer. E, portanto, o que eu digo é que eu acho que essas palavras não foram ditas literalmente. Mas independente disso, mesmo que fossem não há nenhuma acrimónia porque está tudo claro”, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre as palavras do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio
"O PSD será fiel ao seu compromisso de não ter uma solução de governo nem com o Chega nem com o Partido Socialista. *O sentido do “não é não” com o Chega é o mesmo do “não ao bloco central“ com o PS”, *Luís Montenegro, na moção de estratégia ao congresso do PSD
“Dinâmica da despesa precisa de cotenção”, Mário Centeno, ex-governador do Banco de Portugal, em entrevista à CNN.
“É complicado prender umex-primeiro-ministro que está a regressar a Portugal e, como se vê, o processo ainda não estava fundamentado. Não pode ser. Prender um ex-primeiro-ministro, não havendo risco de fuga, como não havia, sinceramente, acho que não é sensato. Esse foi um erro”, João Massano, bastonário da Ordem dos Advogados, em entrevista ao Expresso.
O que ando a ler
Há pouco mais de um ano, eu estava na Basílica de Santa Maria Maggiore quando o Papa Francisco lá foi rezar pela última vez, a 11 de abril. Não surgia em público há algum tempo, depois do internamento, e havia dúvidas sobre se estaria presente na celebração do Domingo de Ramos, em frente à Basílica de São Pedro. Naquele sábado, nada fazia prever que o Papa iria aparecer no meio de uma basílica em Roma - ainda que fosse a sua preferida e onde está sepultado - e, para ser sincera, eu também não deveria estar lá.
O que me levou a esse lugar foi uma sequência de acasos: a vontade minha e da minha irmã de levarmos a minha mãe a Roma, no ano do Jubileu; o meu filho ter decidido atirar a última chucha para uma sarjeta; e até um almoço que não se devia ter estendido.
Esse instante - estar a dois passos do Papa - tocou-me mais do que eu imaginava. Não sou católica, nem religiosa, nem crente, mas havia algo em Francisco que me fazia ligar a um lado mais espiritual. Talvez por isso me esteja a saber tão bem o livro de Javier Cercas, um ateu como eu. O “Louco de Deus no fim do mundo”, de que falei no último Curto, está na mesa de cabeceira e eu já vou bastante adiantada.
É uma leitura que, também pelas perguntas que levanta, pede tempo: devagar, quase com introspeção. Cercas acompanha a viagem de Francisco à Mongólia, mas a viagem é muito mais interior. Há ali uma mistura de biografia com auto-biografia, de ensaio e até de reportagem. E está tudo escrito de forma magistral. Recomendo mesmo.
Muito obrigada por desse lado. Vá passando por expresso.pt para acompanhar as últimas notícias.
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