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Nuno Melo reforça AD com PSD e dá prioridade à revisão constitucional no 32º Congresso do CDS em Alcobaça

Homem a discursar num púlpito, com bandeira de Portugal e sigla CDS-PP ao fundo.

Reeleito presidente do CDS no 32º Congresso, realizado este fim-de-semana em Alcobaça, Nuno Melo fechou os trabalhos a reafirmar a aposta na coligação com o PSD. Pelo caminho, voltou a classificar a AD como “A AD é um ativo sem preço“ e “uma fórmula vencedora“, assumindo a convicção de que ”o CDS vai crescer” sem se confundir com o parceiro. Para sublinhar essa separação, anunciou que dá ”prioridade" à revisão constitucional e que o partido avançará com um projeto próprio - tal como já tinha indicado ao Expresso.

Prioridades de Nuno Melo no 32º Congresso do CDS

No encerramento, o líder democrata-cristão colocou no topo da agenda a revisão da Constituição, em contraste com o PSD, que prefere empurrar o tema para o próximo ano. A intenção surge num contexto em que o Chega já apresentou o seu projeto de revisão e em que a Iniciativa Liberal também está a trabalhar no mesmo sentido.

Revisão constitucional do CDS e regras da nacionalidade

O CDS vai a jogo na revisão constitucional”, afirmou Nuno Melo, sustentando tratar-se de um "tema totalmente prioritário". Para o presidente do CDS, “A lei fundamental deve ser um documento ideologicamente neutro, capaz de congregar e não desunir”, razão pela qual prevê, conforme prometido na moção, a constituição de um grupo de trabalho que "será liderado por constitucionalistas reconhecidos".

Sem detalhar orientações concretas, Melo deixou no entanto em aberto que o CDS possa vir a propor uma alteração que permita a perda de nacionalidade como pena acessória - hipótese que foi chumbada recentemente pelo Tribunal Constitucional.

Sobre esse chumbo, disse: "Respeitamos, mas não concordamos“, admitindo que "não faz muito sentido insistir" numa confirmação da lei, opção que o PSD já recusou. Ainda assim, defendeu que a aquisição de nacionalidade “tem de ser um contrato com regras”: “Aqueles que recebemos na nossa casa têm de ter na nacionalidade portuguesa um privilégio. Ser português é um privilégio que não calha a todos.”

Reforma da Segurança Social no projeto do CDS

Além da revisão constitucional, Melo apontou como prioridade o apoio às famílias, recordando a proposta de duplicação das deduções fiscais para famílias numerosas, anunciada no sábado. A terceira linha de actuação é a reforma da Segurança Social.

Com o envelhecimento demográfico e a maior longevidade, o presidente do CDS advertiu que será necessário “mais ativos para financiar sustentavelmente mais pensões por mais tempo”. “É um problema gigantesco” e, na sua leitura, um partido com a dimensão identitária da solidariedade deve concentrar-se tanto nos cuidados aos mais velhos como nos incentivos que o sistema fiscal dá à poupança. “Isso será especialmente importante para as gerações mais novas”, defendeu. Ainda assim, a ministra da Segurança Social não se compromete a fechar a reforma da Segurança Social nesta legislatura.

Marcar diferenças com Chega e IL

O debate em torno do futuro da Segurança Social serviu também para Melo atacar os “populistas”. O líder do CDS mirou a exigência já assumida por André Ventura nas negociações do pacote laboral, referente à redução da idade da reforma - mesmo que pudesse ser apenas “uns meses”. “A par dos votos nem sempre vem a responsabilidade”, disse. “Os populistas, sempre centrados na próxima eleição e nunca na próxima geração, querem baixar a idade da reforma”. E, na interpretação de Melo, isso significa dizer aos jovens “que amanhã, quando forem velhos, não vão ter as reformas que os pais e avós têm”.

Já perto do fim do discurso, insistiu na ideia de que “O CDS é o braço lúcido da direita em Portugal” e que “continua a fazer tanto sentido em 2026 como fazia em 1974”. Antes, na parte inicial da intervenção, voltou a demarcar-se do Chega e da Iniciativa Liberal - uma distinção que o partido procurou acentuar durante o Congresso: "O CDS não é substituído pela Iniciativa Liberal que não compreende que o que o mercado tem de sobra falta-lhe em solidariedade. Nem é substituído pelo Chega que tem sido, em muitos momentos o melhor aliado da esquerda em Portugal."

Para Melo, as “marcas distintivas” do CDS não se limitam à doutrina e à “confiabilidade e previsibilidade”. Passam também pelos “quadros de qualidade”. À sua frente, lembrou, estavam representantes de três partidos que, em momentos diferentes, contaram com quadros oriundos do CDS: Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega; Carlos Abreu Amorim, ministro dos Assuntos Parlamentares; e Jorge Teixeira, deputado da IL. "Beberam da nossa doutrina. O que vale é que uns saem e outros entram. Somos um viveiro de talentos", afirmou, num discurso de 40 minutos em que voltou a responder às dúvidas existenciais levantadas ao longo do Congresso.

No fecho, reforçou a ideia de autonomia: ”O CDS não é uma tendência, o CDS não se funde e o CDS não se dilui", num congresso em que a autonomia e a identidade do partido foram o tema mais recorrente.

A propósito do debate interno, sublinhou: "Os congressos são feitos de muitas opiniões. Seguimos um caminho juntos há muitos anos. O CDS não está aqui por favor. A AD é um caminho comum em que contribuímos com pessoas, com ideias e com votos“, defendendo que a AD ”é uma marca um património que se afirma pelos resultados" por nunca ter perdido eleições legislativas.

No entanto, moções alternativas à estratégia de Melo sustentavam que o CDS deve iniciar desde já a preparação do próximo ciclo eleitoral - que, se o calendário se cumprir, só trará legislativas em 2029, ano também marcado por autárquicas e europeias - e preparar-se para concorrer sozinho. O líder democrata-cristão, por seu lado, considera que ainda é cedo para definir uma estratégia a três anos, lembrando que o partido terá outro congresso antes desse ano eleitoral.

PSD garante que CDS não é “muleta”

As reacções ao discurso surgiram rapidamente entre os convidados na plateia. Pelo PSD, o deputado Alexandre Poço disse encarar com “naturalidade” o debate identitário feito no Congresso do CDS. “Não vejo como um aviso. É a verdade dos factos. Nenhum partido é muleta do outro”, afirmou, à margem do encerramento.

Do lado do Chega, o líder parlamentar Pedro Pinto classificou as palavras de Nuno Melo como uma “palavra de vida” feita “para dentro”, “alheado da realidade” e disse que não foi “o mais feliz”, considerando “extremamente injustas” as críticas ao seu partido. Pela Iniciativa Liberal, o deputado Jorge Teixeira afirmou achar “interessante” que Nuno Melo “não seja capaz de referir” quais as ideias que “seriam originalmente do CDS” e “cooptadas” pela IL.

Já o PS, representado pelo autarca de Leiria Gonçalo Lopes, disse ter chegado com “forte expectativa” quanto aos anúncios sobre o futuro do CDS, mas concluiu que “o que se ouviu foi muito falar do passado”.


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