Pequim: a visita de Trump já não é a de 2017
A cimeira de Pequim foi empurrada para a agenda para que Donald Trump ali aterrasse engrandecido por uma suposta vitória sobre o Irão. Em vez disso, chegou diminuído. E, além disso, a China que agora encontrou pouco tem a ver com a China que visitara em 2017.
Naquela viagem, Xi Jinping tratou-o com encenação imperial: banquete reservado na Cidade Proibida, parada em Tiananmen e uma cerimónia em que foram anunciados acordos no valor de 250 mil milhões de dólares. Desta vez, Trump apareceu carregado com uma derrota na guerra com o Irão, outra na guerra das tarifas e não é possível dizer que tenha regressado com resultados de monta.
Economia: crescimento e excedentes comerciais
Em 2025 - o primeiro ano completo sob a estratégia de Trump -, a China avançou 5% e os EUA ficaram pelos 2,1%, um recuo face aos 2,8% do ano anterior. Pequim repetiu o ritmo de 2024 e acumulou um excedente comercial recorde de 1,19 biliões de dólares: a quebra das exportações para a América foi anulada por ganhos noutros mercados. Medida em paridade de poder de compra, a China já produz mais do que os EUA.
Mas o que se observa não é apenas conjuntural; é uma deslocação mais funda. Em quase tudo o que não dependa de força bruta, percebe-se quem está a subir.
Tecnologia chinesa: IA, robótica, baterias e comunicação quântica
Comece-se pela tecnologia. Na Inteligência Artificial, a China vai abrindo caminho. Embora ainda tenha etapas por cumprir, a empresa emergente chinesa DeepSeek conseguiu, pela primeira vez, aproximar-se dos melhores modelos norte-americanos.
No hardware, os semicondutores domésticos chineses já representam 41% do mercado nacional de IA, sendo metade fornecida pela Huawei - precisamente uma das empresas que os EUA procuraram asfixiar.
Em setembro de 2025, a Fundação para as Tecnologias de Informação e Inovação concluiu que a China evidencia domínio em robótica, lidera no fornecimento de baterias, está em paridade com os EUA na produção de IA e vai à frente na comunicação quântica, com um corredor de 2.000 quilómetros.
Energia, transição e a fratura do dólar
No setor energético, a diferença é ainda mais marcada. Em 2024, a China adicionou 360 GW de capacidade solar e eólica - mais do que o resto do mundo em conjunto - e, nesse mesmo ano, atingiu o objetivo de 1.200 GW que tinha apontado para 2030, seis anos antes do prazo.
Em fevereiro de 2026, a capacidade elétrica limpa superou, pela primeira vez, a dos combustíveis fósseis: 52% da capacidade instalada já é renovável. Em 2024, o investimento em energia limpa correspondeu a 4,5% do PIB chinês; nos EUA, ficou em 1,2%. As empresas chinesas concentram 75% das candidaturas globais de patentes em tecnologia de energia limpa. Em 2000, eram 5%.
Do lado americano, Trump aprovou seis mil novas licenças de perfuração petrolífera - mais 55% -, eliminou incentivos ao veículo elétrico e reverteu normas de emissões. A estratégia tem nome: "Perfura, bebé, perfura".
Uma parte decisiva do poder americano foi edificada sobre o petróleo: desde 1974, o petróleo saudita é negociado em dólares, criando procura permanente pela moeda dos EUA. É certo que a primazia do dólar como reserva mundial assenta nos acordos de Bretton Woods, em 1944. Ainda assim, controlar o petróleo também é influenciar o dólar.
Só que esse sistema está a abrir fendas: a quota do dólar nas reservas globais desceu de 72% em 2002 para 58% em 2025. No mesmo ano, a Arábia Saudita vendeu à China quase cinco vezes mais petróleo do que aos EUA. E Pequim incentiva contratos energéticos denominados em yuan. Trump insiste num modelo do século XX quando, no século XXI, o centro de gravidade já mudou de mãos.
Minerais críticos e a guerra das tarifas
Há ainda a dimensão dos minerais críticos, com destaque para as terras raras, no coração de motores elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa contemporâneos. A China controla 60% da extração global, 87% do processamento e 94% dos ímanes de alta performance usados desde a indústria automóvel até aplicações militares.
Quando, em abril de 2025, impôs controlos de exportação sobre sete desses elementos, as remessas afundaram 74% em maio. Fabricantes de automóveis na Europa e nos EUA fecharam linhas de montagem. Os preços chegaram a ser seis vezes superiores aos praticados na China. Trump acabou por recuar. E especialistas calculam que desatar esta dependência exigirá pelo menos uma década.
Na própria cimeira - em que Xi não evitou responder a elogios com provocações -, sentou-se à mesa com a noção de que venceu a guerra das tarifas: quando os EUA as empurraram para lá dos 140%, a China acionou os minerais críticos como alavanca e Trump cedeu.
O propósito de Pequim é ganhar tempo para solidificar a sua posição. O americano seria, ao que tudo indica, somar vitórias simbólicas. Convém, porém, lembrar que o memorando de 83,7 mil milhões de dólares do estado da Virgínia Ocidental, anunciado na visita de 2017, nunca se concretizou.
O dilema europeu num mundo multipolar
É verdade que a China, para lá dos atropelos aos direitos humanos e às liberdades dos seus cidadãos, tem fragilidades sérias que podem explodir: uma perigosa crise imobiliária e uma crise demográfica estrutural. Ainda assim, no essencial, Xi tem razão quando afirma que "o Oriente está em ascensão e o Ocidente em declínio".
Quem duvide, compare um Trump errático com uma China que planeia em décadas. Trump é, ele próprio, um emblema do declínio americano. Para a Europa, a questão é aceitar que a multipolaridade é um facto, não uma opção.
O que está em jogo para uma Europa que se imagina bloco - quando, na prática, não passa de três ou quatro economias médias a suportarem as restantes - não é escolher o bloco político, até porque os EUA estão a abandonar até a vantagem comparativa da democracia. O essencial é reconhecer que viver num mundo multipolar e continuar a pôr todos os ovos no cesto americano, já roto, é uma irresponsabilidade: como se Trump fosse apenas um sobressalto político intermitente e não a confirmação de uma imprevisibilidade estrutural deste suposto aliado.
Nada voltará ao que era. A opção é evidente: diversificar relações económicas, incluindo com a China, de onde vem - para o bem e para o mal - o vento do futuro.
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