Com vista privilegiada para a Ria Formosa - cenário natural do cavalo-marinho, que Olhão assume como símbolo - o Marina com Noélia, instalado no Real Marina Hotel & Spa, celebra o peixe e o marisco algarvios com a assinatura muito própria da chef. À mesa, a viagem continua depois no território: entre as paisagens da ria e os mercados locais.
Marina com Noélia e a Ria Formosa em Olhão
"O que tens hoje a estalar de vivo?", dispara Noélia Jerónimo, com a energia de quem conhece bem o ritual, ao aproximar-se da banca de Humberto Silva. "Cavalas", responde o vendedor, presença constante no mercado do peixe de Olhão há 50 anos. A escolha fica decidida ali, no momento.
Ao sábado de manhã, os mercados históricos da cidade - que a chef descreve como "os mais bonitos do Algarve" - tornam-se ainda mais intensos: o peixe acabado de chegar às bancas segue para ser amanhado, enquanto o vaivém das compras e das conversas enche o espaço. "Adoro as pessoas e o movimento", admite.
Natural da serra e com raízes firmes em Cabanas de Tavira, Noélia mantém uma rotina de abastecimento que passa com frequência pelos mercados de Olhão, Tavira, Faro e Cabanas, onde escolhe peixe, marisco e legumes para os seus restaurantes. O início do percurso profissional aconteceu precisamente em Cabanas de Tavira, na pastelaria da família do marido. Hoje, está à frente do Noélia, onde a elevada procura obriga a marcações com meses de antecedência. Há três anos, essa cozinha atravessou para a frente ribeirinha de Olhão, com a abertura do Marina com Noélia dentro do Real Marina Hotel & Spa.
Do mercado ao prato: peixe, marisco e cozinha mediterrânica
Mantendo a lógica da casa original, a chef concentra-se em valorizar o sabor do peixe e do marisco vindos da Ria Formosa e do Atlântico. A carta passou a incluir entradas de perfil mais fresco, como ceviche de dourada e abacate, ostras da ria ao natural e tártaro de atum.
O carácter marítimo que Noélia tanto sublinha está bem presente na canja de berbigão e coentros, uma novidade no capítulo das sopas. Também com origem directa no mercado surgem propostas para partilhar, como a muxama de atum acompanhada pela acidez do gaspacho de tomate e o lingueirão à Bulhão Pato. "A ideia foi trazer um receituário de terra e mar cheio de sabor", afirma Noélia.
Com os veleiros a passar à entrada da marina, a vertente mediterrânica surge em arrozes com texturas distintas - ora crocantes, ora mais caldosos - como o de carabineiro com espargos e o de lingueirão. Em paralelo, mantêm-se na carta alguns clássicos que continuam a estar entre os favoritos do restaurante Noélia, em Cabanas de Tavira: bacalhau à Brás e filetes de peixe-galo com xerém de berbigão. Já o tataki de atum aponta para técnicas e influências mais variadas. Nos doces, sobressai a tarte de alfarroba com curd de limão.
A selecção muda de dia para dia, porque a chef faz questão de seguir a sazonalidade dos produtos e dos ingredientes. "Respeitamos profundamente a Ria Formosa e a ligação genuína com os produtores locais", sublinha o director do hotel, Jorge Neves. Através da proposta gastronómica, pretende-se reforçar a proximidade entre o hotel e o quotidiano da reserva natural.
Algumas opções mais simples de servir fora do restaurante principal - como os croquetes de pescada e caril ou o ceviche de dourada - poderão, no futuro, passar a integrar também a oferta dos outros restaurantes e bares do Real Marina.
Marina com Noélia
Avenida 5 de Outubro, Olhão
Tel.: 913 308 129
Web: marinacomnoelia.com
Das 12h30 às 15h30 e das 19h às 23h, de quarta a domingo; não encerra em julho e agosto
Preço médio à carta, sem bebidas: 40 euros
Para ver e fazer em redor
# Caminho das Lendas
Este itinerário, criado a partir de uma intervenção promovida pelo município, propõe uma visita guiada por lendas ligadas à história de Olhão. O percurso passa por cinco largos, onde estátuas e instalações de forte impacto visual contrastam com a arquitectura "cubista".
A Lenda do Arraúl (no Largo João da Carma), por exemplo, relata o episódio do filho do guarda-mor das Colunas de Hércules, que teria sido engolido por uma baleia e "cuspido" no local onde se diz ter começado Olhão. "Arraúl imediatamente se apaixona pelo lugar e tenta protegê-lo, construindo uma enorme barreira de areia com terras provenientes dos cerros de São Miguel e da Cabeça, dando assim origem à formação das ilhas-barreira da Ria Formosa", pode ler-se numa placa ao lado da escultura de um homem gigante.
# Passeios de barco na ria
Para quem quer ver a paisagem e perceber melhor a ligação entre o que chega ao prato no Marina com Noélia e a sua origem, a experiência pode começar antes mesmo de sair do hotel, graças à parceria com a empresa Passeios Ria Formosa. "Qualquer pessoa pode reservar um passeio connosco, a preços especiais", explica Jorge Neves.
Recentemente, o hotel colocou na água uma embarcação coberta, com lotação para cerca de 45 pessoas, identificada com o nome e a bandeira da unidade. Os passeios partem do porto de recreio de Olhão.
Protegida como parque natural desde 1987, a Ria Formosa é um dos sistemas lagunares mais ricos da Europa, estendendo-se por 18 mil hectares entre a Península do Ancão e a Manta Rota. É também o habitat do cavalo-marinho.
# Os mercados de Olhão
O ponto alto acontece ao sábado: de manhã realiza-se o mercado ao ar livre, onde pequenos produtores do concelho vendem o que colheram. A oferta é variada - cebolas, batatas, ervas aromáticas, bolos caseiros, fruta e plantas ornamentais - e a azáfama continua lá dentro, nos dois edifícios construídos em 1912.
Cada um assenta em 88 estacas e ambos são ligados por arcos de alvenaria de tijolo. A estrutura em ferro e vidro, com tijolo aparente e oito torreões circulares, remete para o estilo do arquitecto Eiffel. Um dos espaços é dedicado ao peixe; o outro concentra legumes, frutas e carnes. Há ainda lugar para produtos como ervas aromáticas, amêndoas, mel, figos secos e ervas para o chá.
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