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O regresso ao escritório e a produtividade

Jovem a trabalhar num computador portátil com uma caneca, com outras pessoas a usar computadores ao fundo numa sala iluminada

A fila junto ao elevador parecia dizer que 2019 tinha regressado do além. Os mesmos crachás empresariais. O mesmo cheiro a café morno. Os mesmos sorrisos apertados a esconder o mesmo cansaço no olhar. Só que, desta vez, quem avançava para as secretárias trazia consigo uma experiência diferente: dois, por vezes três anos, a acordar um pouco mais tarde, a passear o cão à hora de almoço e a trabalhar a partir da mesa da cozinha ou de quartos silenciosos.

Agora tinha chegado o e-mail. Três palavras em negrito vindas da direcção: “Regresso ao escritório.” Sem subtilezas. Sem discussão. Sem um “como é que vocês estão, na verdade?”.

Uns garantem que a produtividade vai disparar. Outros, em silêncio, percorrem portais de arrendamento em cidades mais baratas e começam a preparar a saída.

No ar do espaço aberto, a questão paira como uma luz fluorescente mal calibrada.

Quando o regresso ao escritório parece um botão de retrocesso

À primeira vista, o argumento soa simples. Se toda a gente voltar ao mesmo edifício, a magia regressa: decisões mais rápidas, menos mal-entendidos, cultura mais forte e maior controlo. Os gestores olham para filas de secretárias ocupadas e chamam-lhe “produtividade”. A lógica é antiga, mas familiar, e num mundo ainda abalado por crises, o que é conhecido parece mais seguro.

A realidade, porém, é bem mais confusa. As pessoas voltam aos comboios e às auto-estradas, perdendo duas horas por dia em trânsito e atrasos. Pais e mães têm de conciliar as saídas para a escola com horários rígidos de entrada. E quem trabalha melhor em silêncio, e encontrou em casa um ambiente mais tranquilo, regressa agora a luzes ruidosas, com auscultadores postos, tentando reconstruir uma concentração que antes tinha de graça.

Há também um custo menos visível, mas muito real: o dinheiro gasto em deslocações, refeições fora de casa, estacionamento e roupa mais formal. O que parece, à superfície, uma simples mudança de local de trabalho, pode transformar-se num aumento mensal de despesas que pesa no orçamento familiar. Para muitas pessoas, a discussão já não é só sobre conforto ou preferência; é também sobre quanto custa, na prática, ir trabalhar.

Tomemos o exemplo da Marta, gestora de projectos numa grande empresa tecnológica. Durante o trabalho remoto, a sua equipa entregou uma grande actualização de produto três semanas antes do prazo. Tinham reuniões diárias por videoconferência, blocos de concentração protegidos nas agendas e documentos partilhados muito claros. Ela podia começar cedo, desligar-se para ir a uma consulta médica do filho e regressar, mais tarde, para duas horas de trabalho focado.

Quando a empresa passou para uma política rígida de cinco dias por semana no escritório, a mesma equipa começou a atrasar-se. Nada de dramático. Apenas o suficiente. As pessoas chegavam exaustas das deslocações, as reuniões eram remarcadas para caber nos horários dos comboios e o trabalho profundo encolheu para pequenos intervalos entre interrupções do género “tens um minuto?”. O escritório estava cheio. A produção, não tanto.

O paradoxo é este: a presença física é fácil de medir e, por isso, acaba por ser confundida com desempenho. Um parque de estacionamento cheio parece um bom indicador. Os líderes percorrem os pisos, vêem caras, ouvem conversas e sentem uma energia reconfortante. Já o trabalho remoto exige outras métricas: entregas, objectivos claros e comunicação assíncrona. Isso pede competências de gestão mais apuradas e conversas honestas sobre o que é, de facto, trabalhar.

Há ainda uma dimensão psicológica. Quando as pessoas são obrigadas a regressar sem serem ouvidas, a mensagem recebida é a da desconfiança. A ideia que fica é: “não acreditamos que estejam a trabalhar, a menos que vos consigamos ver”. A confiança diminui. O desligamento silencioso cresce. E o custo desse afastamento invisível é muito superior a qualquer poupança conseguida com um contrato de escritório vazio.

Encontrar um ritmo que não esgote toda a gente

Um bom ponto de partida é inverter a lógica: em vez de perguntar “quantos dias devem estar no escritório?”, perguntar “que tipo de trabalho beneficia mesmo de ser feito em conjunto?”. Sessões de estratégia com quadro branco. Arranques de equipa. Conversas difíceis de feedback. Integração de uma nova pessoa. Estes momentos podem ser muito mais eficazes presencialmente.

A partir daí, constrói-se o resto. Agrupam-se as reuniões importantes em dias específicos. O restante da semana fica mais leve, com tempo protegido para trabalho concentrado. As pessoas sabem quando devem aparecer, quando podem marcar uma consulta médica e quando conseguem, de facto, pensar. Esse ritmo vale mais do que qualquer regra rígida de três ou quatro dias.

Outro erro frequente é tratar a presença como solução para a ansiedade da liderança. Quando o receio aumenta, o impulso natural é aproximar toda a gente, impor regras de entrada mais apertadas e chamar todos “para reconectar”. No entanto, forçar a presença sem redesenhar a forma como o trabalho acontece acaba por recriar a pior versão do escritório: deslocações longas, espaços cheios, interrupções constantes e, depois, mensagens enviadas ao fim do dia para compensar o que não se conseguiu fazer durante o horário normal.

Todos conhecemos essa sensação: passar nove horas à secretária e, no fim, ter a impressão de não ter produzido nada de verdade. Esse desencontro desgasta. Espalha-se pela vida familiar, pelo sono e pela saúde. E, quando as pessoas percebem que a sua vida encolheu para que a empresa se sinta mais segura, o ressentimento começa, discretamente, a assumir o controlo.

Um director sénior de recursos humanos disse-me, em privado:

“Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, na perfeição. Ninguém está totalmente presente durante oito horas seguidas, seja no escritório ou em casa. A diferença está em organizarmos o trabalho à volta da realidade ou fingirmos que ainda vivemos em 1998.”

Também ajuda deixar os gestores melhor preparados. Muitas empresas pedem resultados modernos, mas continuam a formar líderes com hábitos antigos. Se a cultura interna não premiar clareza, autonomia e coordenação, o regresso físico só acrescenta fricção. O problema não é apenas onde se trabalha; é a forma como se lidera, como se decide e como se avalia.

  • Definir o que é trabalho em conjunto e o que é trabalho individual
    Liste as tarefas que realmente exigem a mesma sala: sessões de ideias, resolução de conflitos, workshops com clientes. Todo o resto pode manter flexibilidade.

  • Estabelecer expectativas claras e partilhadas
    Não “aparecer e ser visível”, mas sim “entregar X até sexta-feira”, “estar disponível Y horas para a equipa” e “responder num prazo Z”. A clareza vale mais do que a vigilância.

  • Observar o segundo turno invisível
    Se as pessoas se deslocam, passam o dia em reuniões e só conseguem fazer o trabalho sério à noite, algo está a falhar. É aqui que o esgotamento começa a ganhar terreno.

  • Dar voz às equipas na organização do horário
    As regras impostas de cima parecem eficientes, mas muitas vezes ignoram a realidade no terreno. Ritmos construídos em conjunto tendem a durar mais e a magoar menos.

  • Medir resultados, não cadeiras ocupadas
    Acompanhe prazos de projectos, satisfação dos clientes, taxa de erros e inovação. Um escritório movimentado com resultados fracos é apenas uma ilusão cara.

Um novo acordo entre trabalho e vida pessoal está em cima da mesa

A história mais profunda por detrás da guerra do escritório não é, afinal, sobre cadeiras giratórias e cartões de acesso. É sobre uma renegociação colectiva daquilo que consideramos uma “boa vida”. Milhões de pessoas descobriram que pensam melhor sem ruído constante, que apreciam almoçar com os filhos e que não querem que a sua identidade fique toda presa a um edifício com logótipo. Quando essa porta se abre, é difícil fechá-la sem consequências.

Alguns trabalhadores aceitam a troca: mais dias no escritório em troca de hipóteses de promoção, visibilidade e regras mais claras. Outros saem, discretamente, para empresas que confiam neles para escolherem o local onde são mais eficazes. O mercado de trabalho já começa a reflectir essa divisão.

Entre esses dois extremos existe um ponto de equilíbrio frágil. Nem liberdade total, nem controlo total. Um espaço onde os líderes admitem que não têm todas as respostas, e as equipas experimentam, ajustam, discutem e tentam outra vez. É mais lento. É mais caótico. Ainda assim, pode ser a única forma de construir locais de trabalho onde a produtividade não seja comprada à custa de uma vida esgotada.

Regresso ao escritório, trabalho híbrido e produtividade: o que vale mais para as equipas

O modelo híbrido, quando é bem pensado, costuma funcionar melhor do que os extremos. Em vez de obrigar toda a gente a estar sempre no escritório ou a ficar sempre em casa, permite combinar momentos presenciais com dias protegidos para trabalho profundo. Para muitas equipas, essa mistura melhora tanto os resultados como o bem-estar.

A chave está menos em contar presenças e mais em desenhar ritmos realistas. Reuniões de alinhamento num ou dois dias por semana, tempo sem interrupções nos restantes, e regras simples que toda a equipa compreenda. Quando a organização é previsível, a colaboração melhora e a vida pessoal deixa de ser tratada como um obstáculo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O híbrido supera os extremos A combinação de momentos presenciais “em conjunto” com dias remotos protegidos para trabalho concentrado tende a melhorar tanto a produção como o bem-estar. Ajuda-o a defender um horário que sirva ao mesmo tempo o desempenho e a vida pessoal.
Medir resultados, não presença Objectivos claros, prazos e resultados dão uma leitura mais justa do trabalho do que contar dias ou horas no escritório. Dá-lhe argumentos para contestar políticas que confundem movimento com eficácia.
A voz das equipas conta nas regras As equipas que criam em conjunto o seu ritmo de trabalho relatam mais confiança e menos esgotamento do que as que vivem sob imposições rígidas. Incentiva-o a pedir lugar na mesa quando se discutirem regras de regresso ao escritório.

Perguntas frequentes

  1. O regresso ao escritório aumenta mesmo a produtividade?
  2. O que posso fazer se a minha empresa me obrigar a voltar a tempo inteiro ao escritório?
  3. O trabalho híbrido é, de facto, melhor do que o trabalho totalmente remoto?
  4. Como falar com o meu gestor sobre equilíbrio entre trabalho e vida pessoal sem parecer preguiçoso?
  5. Recusar dias de escritório pode prejudicar a minha carreira a longo prazo?

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