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Futuro dos híbridos plug-in em risco: São uma fraude?

Carro elétrico de alta tecnologia com design futurista estacionado em ambiente moderno com estações de carregamento.

Os híbridos plug-in vivem hoje sob escrutínio apertado. Entre regras europeias mais exigentes, emissões reais que não coincidem com as homologadas e dúvidas crescentes sobre a sua utilidade no dia a dia, começa a ser difícil desenhar um futuro tranquilo para os PHEV (plug-in hybrid electric vehicle).

O mais recente golpe veio através de um estudo da Transport & Environment (T&E), que aponta esta tecnologia como “uma das maiores fraudes da história da indústria automóvel”.

Mas o problema está mesmo nos PHEV ou no uso que lhes é dado por muitos condutores, que simplesmente não os carregam? Falámos sobre isso no episódio mais recente do Auto Rádio, um podcast da Razão Automóvel com o apoio do piscapisca.pt. Vejam o vídeo:

O que está em causa?

Quando chegaram ao mercado, os híbridos plug-in foram apresentados como a solução ideal: autonomia elétrica suficiente para as deslocações diárias e um motor térmico capaz de acabar com a ansiedade nas viagens mais longas. Em teoria, o melhor dos dois mundos.

Na prática, porém, isso nem sempre aconteceu. O problema? Muitos condutores raramente carregam a bateria e acabam por usar sobretudo o motor de combustão, o que leva a consumos e emissões muito acima dos valores homologados.

Para piorar, os híbridos plug-in são, por natureza, bem mais pesados do que os modelos equivalentes só a combustão.

Segundo o mais recente estudo da organização não governamental Transport & Environment, com base em dados da European Environment Agency (EEA) de 2023, a diferença de emissões entre estes dois tipos de modelos pode ser, na realidade, muito menor do que os números oficiais sugerem.

“Os híbridos plug-in emitem em média 135 g/km de dióxido carbono (CO2), enquanto os carros a gasolina e Diesel emitem 166 g/km. Uma diferença de apenas 19%”, pode ler-se no estudo da Transport & Environment.

Euro 6e-bis pode mudar tudo

Esta não é uma conversa nova. Já no final de 2024, a Comissão Europeia tinha publicado um relatório que chegava a conclusões muito próximas das do estudo da Transport & Environment.

É por isso que a União Europeia vai apertar ainda mais as regras para os híbridos plug-in, com a entrada em vigor da norma Euro 6e-bis, que altera a forma como as emissões destes veículos são calculadas.

A distância dos testes de homologação passa de 800 km para 2200 km e o fator de utilização elétrica passa a pesar menos no cálculo das emissões. Em termos simples: os novos testes vão aproximar-se mais da forma como os híbridos plug-in são realmente usados no dia a dia.

O efeito desta mudança, que vai abranger todos os carros novos a partir de janeiro de 2026, será a subida dos valores oficiais de emissões de CO2, algo que já fez soar os alarmes na indústria automóvel europeia.

Para contornar este revés e garantir que os híbridos plug-in continuam a ser uma solução para cumprir as metas de emissões da UE, os construtores decidiram aumentar de forma significativa - em muitos casos para o dobro - a capacidade das baterias dos seus PHEV. Uma das consequências é que, agora, muitos conseguem fazer mais de 100 km em modo elétrico.

Mas o que à primeira vista parece uma vantagem pode transformar-se num problema: se os condutores não os carregarem, uma bateria maior só se traduzirá em consumos e emissões ainda mais altos.

Portugal em contraciclo

Enquanto a Europa aperta o cerco aos híbridos plug-in, Portugal continua a dar-lhes margem. Atualmente, os híbridos plug-in beneficiam de 75% de redução no ISV se tiverem pelo menos 50 km de autonomia elétrica e emissões de CO2 inferiores a 50 g/km.

Mas a partir de 2026 - já previsto no próximo Orçamento do Estado - o Governo vai alargar o limite de emissões para 80 g/km, permitindo que mais modelos continuem a beneficiar desse incentivo fiscal.

Na prática, isto significa que, mesmo com regras europeias mais apertadas, os PHEV vão continuar a ter um tratamento fiscal distinto em Portugal. Segundo a ACAP, se nada fosse feito, o agravamento fiscal no ISV poderia ultrapassar os 100 milhões de euros por ano.

E, olhando para a realidade nacional, isso são boas notícias. As vendas dos PHEV continuam a acelerar. Até setembro, foram vendidos 24 924 híbridos plug-in em Portugal, o que representa um crescimento de 21,1% face ao mesmo período do ano passado.

Contas feitas…

Que as emissões oficiais dos híbridos plug-in são inferiores às registadas no chamado mundo real, quase ninguém duvida - há estudos e relatórios a apontá-lo. Mas será que esta morte anunciada dos PHEV faz sentido?

Claro que não. Neste caso, tal como em muitos outros, não faz sentido cair em absolutismos. Os PHEV são um excelente compromisso para quem não quer - ou não pode - ter um 100% elétrico. E, quando usados da forma certa, permitem recorrer muito poucas vezes ao motor de combustão interna e representam uma poupança real nos custos de utilização. Mas, claro, carregá-los é essencial.

Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana

Há, por isso, muitos motivos para ver/ouvir o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana nas plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.

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