Saltar para o conteúdo

No trabalho, este hábito subestimado impede o seu progresso na carreira

Pessoa a escrever num caderno com laptop fechado, telemóvel, notas coloridas e cronómetro numa mesa de madeira.

Responder a tudo em segundos, aceitar mais uma tarefa e tentar manter cinco frentes abertas ao mesmo tempo pode parecer sinal de força. Na prática, porém, esse ritmo costuma empurrar projetos para trás, multiplicar falhas e deixar boas oportunidades de promoção pelo caminho.

Muita gente confunde estar sempre ocupado com ser realmente produtivo. O problema é que o hábito de agarrar tudo e mudar de tarefa a toda a hora acaba por desgastar a atenção, o corpo e a reputação profissional - mesmo quando, à superfície, a pessoa parece incansável.

Multitasking – por que sai pela culatra no trabalho

Em entrevistas de emprego, aparece muitas vezes como uma suposta qualidade: a capacidade de fazer multitasking. Muitos acham que, ao gerir várias tarefas em paralelo, mostram uma resistência especial. No dia a dia, por isso, muita gente responde logo que sim, acumula trabalho e salta de tarefa em tarefa sem parar.

No início, a sensação até é positiva: a agenda está cheia, a caixa de entrada não pára e parece que a pessoa é indispensável. Só que, por trás dessa atividade constante, muitas vezes não há um ganho real de produtividade, mas sim uma perda séria de foco. Estudos mostram que andar sempre a alternar entre tarefas acaba, a longo prazo, por prejudicar mais do que ajudar.

O multitasking dá a sensação de produtividade - na realidade, espalha tanto a atenção que a qualidade, a memória e a motivação acabam por sofrer.

Um estudo de 2016 concluiu que quem entra de forma persistente num modo de atividades paralelas apresenta alterações nas áreas cerebrais ligadas ao controlo cognitivo, à motivação e à regulação emocional. Outros trabalhos indicam que este comportamento está associado a um desempenho mais fraco na memória de trabalho e na memória de longo prazo, além de aumentar a suscetibilidade à distração.

Há ainda outro ponto: a sensação de ganhar tempo é uma ilusão. A psicologia não fala de verdadeiro trabalho em simultâneo, mas sim de mudança rápida de tarefa. Cada salto consome energia mental e pequenos segundos de orientação, que ao longo do dia se transformam em perdas reais de produtividade - e em stress crescente.

Como o multitasking mina as suas hipóteses de carreira

O problema não fica pela concentração e pela saúde. Quem faz demasiadas coisas ao mesmo tempo também prejudica o seu perfil profissional. Os responsáveis valorizam menos a azáfama e mais os resultados, a fiabilidade e o pensamento estratégico.

  • Mais erros, menos confiança: deslizes pequenos e frequentes, detalhes esquecidos ou prazos falhados levam os superiores a duvidar se a pessoa está pronta para tarefas mais exigentes.
  • Trabalho superficial: quando há e-mails, chats e telefonemas a interromper constantemente, quase não sobra espaço para uma análise profunda. Isso trava o desenvolvimento técnico.
  • Perfil pouco claro: quem anda sempre envolvido em tudo, mas raramente leva algo até ao fim e assume responsabilidade até ao fim, parece substituível - um mau sinal quando se fala em promoções.
  • Imagem de stress permanente: pressa contínua, nervosismo e conversas dispersas notam-se. Muitos chefes preferem, para cargos de liderança, perfis mais calmos e focados.

Assim, um hábito que devia demonstrar empenho pode ser lido como falta de prioridade ou de organização. Em vez de passar por um “alto desempenho”, a pessoa ganha fama de ser trabalhadora, mas difícil de gerir.

Sinais típicos: como reconhecer o seu padrão de multitasking

A maior parte das pessoas só se apercebe tarde de até que ponto o seu dia é dominado por tarefas em paralelo. Olhar para a rotina pode ser revelador. Sinais frequentes:

  • Começa dois ou mais projetos ao mesmo tempo, sem concluir nenhum de forma visível.
  • No caminho para o trabalho, está sempre com rádio ou podcast, muitas vezes enquanto percorre o telemóvel.
  • Telefona enquanto escreve uma nota ou um e-mail em simultâneo.
  • A televisão fica ligada enquanto responde a mensagens no portátil.
  • Em reuniões, dá por si a deslizar pelas redes sociais.
  • Ouve alguém e, ao mesmo tempo, faz uma lista de tarefas para mais tarde.

Cada uma destas situações, isoladamente, parece inofensiva. Juntas, porém, treinam o cérebro para saltar constantemente entre estímulos. A concentração durante mais tempo vai ficando cada vez mais difícil - precisamente nas tarefas que contam para uma promoção ou um aumento salarial.

Porque dizer “não” muitas vezes é mais inteligente do que dizer sempre “sim”

Uma parte central do problema está na atitude por trás do multitasking: muita gente acredita que tem de aceitar tudo, senão vai parecer pouco empenhada. Esse receio leva os trabalhadores a encher demasiado a agenda - e é justamente isso que derruba o desempenho.

Por isso, quem trabalha em desenvolvimento de carreira recomenda uma mudança de perspetiva. O que conta não é o número de tarefas assumidas, mas a capacidade de definir prioridades e planear com antecedência. Quem comunica de forma clara o que é realisticamente possível transmite profissionalismo, não fraqueza.

Um “não” dito com intenção a uma décima tarefa extra pode valer mais, ao longo da carreira, do que dez projetos feitos a meio gás.

Sobretudo em funções de conhecimento, trabalho por projeto ou cargos de chefia, a trabalho aprofundado é decisiva: perceber temas complexos de verdade, desenhar estratégias, avaliar riscos. Isso raramente acontece entre notificações a saltar e cinco documentos abertos.

Estratégias para sair da armadilha do multitasking

Quem percebe que andar sempre a saltar entre tarefas virou rotina pode corrigir o rumo com passos simples. O essencial é trazer mais monotasking - isto é, trabalho focado numa só coisa - para o dia a dia.

1. Blocos de tempo para trabalho concentrado

Planeie períodos fixos em que se dedica apenas a uma tarefa. Exemplos:

  • 25 a 50 minutos de trabalho de projeto sem e-mails nem janelas de chat.
  • Depois, 5 a 10 minutos de pausa ou de organização rápida.
  • Só então mudar para o bloco seguinte.

Este método lembra a técnica Pomodoro e treina a mente a manter-se mais tempo no mesmo caminho.

2. Reduzir as notificações de forma radical

O telemóvel e o portátil são os maiores motores do nosso multitasking. Desligue todos os sons e pop-ups que não sejam mesmo necessários. Defina horários fixos para tratar de e-mails e mensagens, em vez de abrir tudo assim que chega.

3. Acordos claros com a equipa

Diga aos colegas quando está disponível e quando precisa de trabalhar com foco. Muitos mal-entendidos nascem porque toda a gente espera respostas imediatas. Comunicar isto com transparência protege os seus períodos de concentração e, ao mesmo tempo, passa uma imagem profissional.

4. Priorizar tarefas em vez de acumular

Escreva de manhã, ou na véspera, as três tarefas mais importantes do dia. Elas são o seu núcleo. Tudo o resto vem depois. Assim evita gastar o dia com assuntos secundários e deixar os pontos realmente decisivos para trás.

O que o multitasking faz ao stress, ao descanso e à vida pessoal

Os efeitos do multitasking no trabalho costumam prolongar-se para além do fim do expediente. Quem passa o dia inteiro a saltar de estímulo em estímulo chega ao fim do dia cansado, mas inquieto por dentro. O cérebro fica em modo de “varrimento” e continua à procura de novos impulsos - redes sociais, streaming, notícias.

Isso enfraquece a recuperação e pode, a longo prazo, favorecer problemas de sono, irritabilidade e níveis de stress constantemente elevados. Quem tem grandes ambições de carreira cai facilmente nesta armadilha: sacrifica a recuperação e, com isso, trava a própria capacidade de desempenho nos momentos que mais contam, como apresentações, reuniões com clientes ou projetos decisivos.

Quando o trabalho em paralelo faz sentido

Apesar de todos os riscos, há situações em que algum trabalho em paralelo pode ser útil. Tarefas de rotina, que exigem pouca carga mental, podem por vezes ser combinadas com bom senso: por exemplo, arrumar enquanto se fala ao telefone, juntar uma atividade física leve a um podcast ou consultar e-mails numa passadeira.

Situação Adequado para atividade paralela?
Reunião estratégica complexa Não, é necessária concentração total
Copiar dados ou esperar por um processo do sistema Limitadamente sim, para ocupar tempos mortos curtos
Desenvolver um conceito criativo ou uma proposta Antes não, o foco melhora a qualidade
Separar materiais, arquivar documentos Sim, é possível ouvir conteúdo áudio em paralelo

O importante é fazer uma pergunta honesta: a tarefa principal exige-me muito do ponto de vista mental? Se sim, precisa de atenção sem interrupções, porque é aí que se somam os pontos para a carreira - não na corrida nervosa entre pequenas tarefas.

Quem percebe até que ponto o seu comportamento no trabalho afeta o desempenho cerebral, a imagem que projeta e a evolução a longo prazo pode corrigir a rota de forma consciente. O objetivo não é um dia de trabalho esterilizado e rigidamente cronometrado, mas sim uma rotina em que a concentração, as prioridades claras e as pausas verdadeiras tenham mais espaço. É isso que aumenta as hipóteses de esforço, talento e ambição se tornarem visíveis no momento certo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário