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Edgar e o Pobre Tom em «Rei Lear»

Dois homens vestidos com roupas antigas caminham à beira-mar; um está vendado e o outro apoia-o com um braço.

Noutro dia, enquanto procurava uma passagem em «Rei Lear», tropecei num solilóquio de Edgar. Da sua história, confesso, tinha apenas uma lembrança vaga - que enlouquecia. Nem isso, afinal, é exacto. Lear perde a razão no sentido literal; outras figuras deixam-se arrastar para o desatino pela ambição. Edgar, porém, depois de ser deserdado e corrido pelo pai, o Conde de Gloucester, não chega a perder o juízo. O que faz é mais subtil: protege-se por meio de uma loucura fingida, inventada, apresentando-se como “o pobre Tom” - um demente completo, esfarrapado, mendigo, a despejar um discurso de algaraviadas quase dadaístas, três séculos antes (a peça estreou-se em 1606).

Edgar e Cordélia em «Rei Lear»

Isso eu recordava bem: Edgar é, de forma evidente, uma personagem-espelho de Cordélia. Também ela foi amaldiçoada e expulsa pelo pai, por uma razão que, à primeira vista, parece pequena: na hora de dividir o reino, não se prestou à lisonja que não fica bem numa filha - e Lear leu esse recuo como ingratidão.

Nesta releitura, mais do que a mecânica do poder, prendeu-me a questão do amor e do fraco juízo: o Lear perturbado, o Bobo arguto, o Edgar ferido.

O disfarce do Pobre Tom e a mentira

Edgar, filho “legítimo”, é vítima da traição do meio-irmão, Edmundo, filho “bastardo”. Edmundo age sem ambiguidades como vilão - daqueles que avançam para a boca de cena e admitem a própria vilania. Ciente de que tem “um pai crédulo e um irmão nobre”, forja uma conspiração de Edgar contra o Conde, e o Conde engole a mentira.

Assinalado por uma injustiça que bastaria para empurrar um homem para a loucura, Edgar opta por um método de defesa: descer ao nível mais baixo, porque um miserável pode ser alvo de escárnio, mas não costuma ser alvo de golpes. “Quem é que dá alguma coisa ao Pobre Tom, que o porco-sujo conduziu por meio de fogo e chamas, através de vaus e de redemoinhos, por cima de pântanos e lamaçais; que lhe pôs facas sob o travesseiro e laços de corda na varanda; lhe pôs veneno dos ratos junto às papas de aveia (...)”.

Repare-se no achado: Tom queixa-se, em aparência, do mesmo que Edgar teria razões para se queixar; só que as lamúrias de Tom são pantomima, enquanto as de Edgar têm fundamento. E, ainda assim, o que vale aqui como verdade e o que conta como mentira - sobretudo quando não sabemos se enlouquecemos mais por causa de quem nos mente ou por causa de quem nos diz a verdade?

A hierarquia das misérias: as falas memoráveis de Edgar

Edgar é correcto, devoto, obediente, senhor de si e da própria palavra. Quando surge em palco na abertura do Ato 4 (“disfarçado de louco”, diz a didascália), tem a primeira de duas falas que ficam na memória. Nela, põe as misérias lado a lado e ordena-as, como quem estabelece uma escala: “Melhor assim e saber-me desprezado/ Do que ser desprezado e adulado. Ser a pior,/ A mais baixa e abjecta coisa da fortuna/ Mantém ainda a esperança, não vive no medo./ Mudança a lamentar é a que parte do óptimo;/ Do péssimo volta-se ao riso. Bem-vindo, pois,/ Ó ar insubstancial que eu abraço:/ O infeliz que, com um sopro, lançaste no pior,/ Nada deve às tuas rajadas”.

Mais adiante, numa tirada que é impossível esquecer, acrescenta: “E ainda pior posso ficar. O pior não é [pior]/ Enquanto pudermos dizer ‘Isto é o pior.’”

Dover: Gloucester, o Pobre Tom e a última palavra

Edgar tem sido um bom amigo, ainda que, para o meu gosto, traga um certo moralismo em excesso (ele diz o mesmo de mim). Seja como for, é homem para salvar o pai, já entretanto derrubado pelas manhas de Edmundo.

Convencido de que já não tem filho, sem título e sem bens, com os olhos vazados como punição, o Conde ruma aos penhascos de Dover para se matar. Mas quem o guia é Edgar, ainda na pele de “Tom”. E, quando o Conde se atira ao vazio, ignora que Edgar o deixou em chão seguro.

Não me interessa aqui como acaba o Conde, nem sequer a peça; não quero falar de Lear e das filhas, mas de Edgar e do Pobre Tom, que vai repetindo “O Pobre Tom tem frio” para sustentar o disfarce - e, ao mesmo tempo, manter o lamento pela condição que encena.

Não por acaso, cabe a Edgar a última palavra: quatro versos inevitáveis, lúcidos, hipotéticos, desconsolados. “Ao fardo deste tempo triste vamos ceder,/ Falar do que sentimos, não do que temos de dizer./ Os mais velhos, sofreram mais; novos por enquanto/ Nós não veremos tanta coisa nem viveremos tanto”.

[«O Rei Lear», trad. de M. Gomes da Torre, Relógio D’Água]

Pedro Mexia escreve segundo a antiga ortografia

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