Carlos e Ana Oliveira partiram para uma travessia improvável: um pai e uma filha, quase 36 mil quilómetros, mais de 700 horas ao volante e mais de uma centena de rotações da Terra, atravessando 27 países e consumindo 5000 litros de gasolina. Com um traço cor-de-rosa imaginário sobre o mapa, decidiram refazer - ao contrário - a velha rota das explorações: de Luanda a Maputo e, depois, de Maputo a Leiria. Foi, no essencial, a história de um sonho cumprido sobre rodas.
Um sonho antigo e o “mapa cor-de-rosa” de Carlos Oliveira
A idade não abrandou Carlos Oliveira. Já com mais de 70 anos, este antigo piloto amador de todo-o-terreno - engenheiro mecânico e profissional ligado às exportações - levava uma vida marcada por viagens e aventura, incluindo anos passados na Guiné-Bissau. Nos ralis, somou metas que muitos só imaginam: entre elas, o mítico Dacar, vivido como piloto, depois de já o ter acompanhado como repórter e chefe de equipa.
Ainda assim, faltava-lhe “a” viagem. O empresário leiriense tinha um desejo por realizar: "Fazer uma grande volta por África, um pouco a réplica das expedições de Roberto Ivens, Hermenegildo Capelo e Serpa Pinto" (1877-1880) e "do mapa cor-de-rosa" a que deram origem, e percorrer "a rota dos descobrimentos ao contrário, de Maputo a Portugal".
A preparação: Ana Oliveira, a Ford Raptor e o lema “O GPS diz que dá”
Para transformar a ideia em plano, Carlos mergulhou em mapas e história, até perceber que o GPS desenhava um caminho possível. Faltava-lhe companhia - e a escolha recaiu na filha. Ana, profissional de marketing, vivia em Moçambique há 12 anos e, como o pai diz e ela aceita com humor, era "um bocadinho tonta como o pai".
África fazia parte da vida de Ana: apreciava a imprevisibilidade do continente e as aventuras fora de estrada, e trazia de casa o hábito de viajar por todos os tipos de lugares. Tinha estado com os pais na Guiné-Bissau, por onde eles se conheceram; passara pelo Dacar como repórter; e, em provas nacionais, desempenhara o papel de navegadora. Numa deslocação de Carlos ao sul do continente - àquele lugar de que Ana gosta tanto que uma estada de seis meses em Moçambique acabou por virar anos sem data de regresso - o tema foi lançado. E, como conta, ela própria empurrou o pai: fez pressão "para ele tirar o sonho do papel mais cedo do que tarde".
Os dois organizaram o percurso em três etapas, para repartirem a exigência e, pelo meio, permitir que Carlos voltasse a Portugal para beijar a mãe - "já velhinha". O destino acabaria por ser cruel: a vida levou-lha nesse intervalo.
O veículo estava decidido: uma carrinha pick-up Ford Raptor, escolhida pela combinação de "resistência" e "conforto". O espírito da viagem ficou resumido numa frase que se tornaria mantra: "O GPS diz que dá". Antes de saírem, Ana escrevia no Instagram @azeitonasonthe_road: se o GPS diz que é possível, "então acreditamos. Mesmo sem saber se ele (o GPS) alguma vez já tentou ir de Maputo até Leiria de carro"...
A ambição vinha alta e bem definida. "Vamos cruzar estradas, fronteiras, paisagens e idiomas. Vamos conhecer pessoas, culturas e modos de vida. Vamos colecionar histórias que nos vão enriquecer. Não sabemos o que vamos encontrar pelo caminho, mas se o GPS insiste que dá... então vamos! Porque, às vezes, para sair do lugar, basta isso: um ponto de partida, uma companhia que conta e um destino que nos chama", escreveu ela. Meio ano depois, pai e filha diziam que a realidade confirmou o que prometia a expectativa.
Três etapas por África: de Luanda a Maputo, de Maputo a Angola e até Leiria
1.ª etapa - Luanda a Maputo: 28 dias e 9380 quilómetros
O primeiro desafio foi simples e logístico: colocar a Raptor em Luanda, a “casa” dos meses seguintes. Foi de barco. A 6 de junho, começou a estrada.
Tal como se aprende depressa no continente, a rota teve de ser ajustada - porque, em África, as certezas raramente se cumprem. Entre paragens para repouso dos viajantes e da pick-up, houve um sobrevoo do Delta do Okavango, uma passagem pelos parques de Moremi e de Chobe com encontro marcado com os seus habitantes (os donos da selva), um banho de salpicos nas cataratas de Victoria e uma imersão no lago Malawi.
A entrada em Moçambique soube a regresso: a língua portuguesa dava uma sensação de casa. Ao fim de 28 dias e 9380 quilómetros, atravessados por sete países, fechava-se a primeira etapa. A Raptor ficou estacionada em Maputo, enquanto Carlos regressava a Leiria durante um mês.
2.ª etapa - Maputo, Cabo da Boa Esperança e Angola: 32 dias e 11 715 quilómetros
A 1 de agosto, a viagem retomou com um simbolismo particular: refazer, em sentido inverso, a narrativa dos navegadores portugueses, recuando na História de África. De Maputo seguiram para a Cidade do Cabo e para o Cabo da Boa Esperança, e daí apontaram a Angola.
Pelo caminho, reservaram dias para o Kruger, para voltarem a estar perto dos “senhores da selva”, e ainda para Hlane, no Eswatini. Também subiram ao "pub mais alto de África", nas altitudes nevadas do Lesoto, antes de descerem novamente até à Cidade do Cabo e à sua meseta.
De frente para norte, as “azeitonas” - como se apelidam - atravessaram as paisagens rurais sul-africanas, as longas retas áridas da Namíbia, a cidade mineira fantasma de Kolmanskop e o lago morto de Deadvlei, enfrentaram as agruras de Sossuvlei e deixaram-se surpreender pela magia de Walvis Bay. O trajeto incluiu focas e welwitschias, passou por outro parque incontornável, Etosha, e aproximou-os do povo Himba.
Angola chegou com os seus segredos: a Fenda da Tundavala e a Serra da Leba, a Praia do Soba e o Cuanza Sul, o Miradouro da Lua e a marginal luminosa de Luanda. No total, ficaram para trás 32 dias e 11 715 quilómetros, por seis países. Antes da etapa final até Leiria, impôs-se uma paragem forçada: tratar vistos, fazer uma revisão à Raptor e preparar o ânimo para o troço mais duro.
3.ª etapa - O desafio final até Leiria: florestas, Congos, Nigéria e o deserto
Carlos antecipava o que vinha aí: seria "muito mais exigente e desafiante" e obrigaria a ter o "estômago muito mais preparado" - além do risco acrescido de malária. A 16 de setembro, arrancaram para uma autêntica prova de resistência, com episódios que não se esquecem.
Um deles nasceu de uma previsão optimista do GPS: uma estrada supostamente de quatro horas transformou-se em 15 (afinal, o GPS tem as suas coisas). "Atascámos, usámos o guincho várias vezes, o carro esteve a ponto de cair para o lado num lameiro. Perdi a minha bolsa de cintura, com passaporte, dinheiro, cartões. Apareceu um rapaz de motorizada à uma da manhã que nos ajudou - estava previsto nunca viajar de noite, mas não havia nada além da pista. Arrancámos e passados 20 km, ouvimos um barulho à frente do carro e foi aí que fui procurar a sacola e não a tinha. Entrei em choque: a viagem morreria ali. Decidimos voltar para trás, ao sítio do atascanço, lanterna na testa, escuro como breu. E encontrámos a sacola. Chegámos ao fim com a gasolina quase a terminar."
No caminho, atravessaram o Maiombe, a segunda maior floresta do Mundo depois da Amazónia, a partir de Cabinda. Seguiram-se os Congos, a floresta tropical, a simpatia de polícias, estradas terríveis e o caos de Brazzaville. E, como não podia deixar de ser, o avistamento de gorilas no Abio.
Em Yaondé, nos Camarões, voltaram a parar: mais uma vez por causa dos vistos. Pelo meio, houve lugar a enfrentar um trânsito africano caótico e, logo depois, a procurar Natureza antes da exigente Nigéria, marcada por uma "viagem difícil, de lama vermelha e pedra". Ana diz que foi precisamente na passagem de país que viveu o dia mais marcante da aventura: "Sozinhos no meio do nada, num terreno difícil, fizemos 150 quilómetros em 15 horas. E íamos com receio. Toda a gente nos meteu medo, cuidado, vão ser raptados, etc. E não foi nada disso, pelo contrário. O guarda de fronteira até me perguntou onde queria que colocasse o carimbo no passaporte e ofereceu-nos dormida se precisássemos."
Os contratempos mecânicos também apareceram: furaram o depósito de gasolina e terminaram com um vidro partido. "Um rapaz num Land Rover com mais de 50 anos a transportar bananas parou e deitou-se debaixo do Ford e com sabão resolveu o problema", recorda Carlos - e, além disso, ainda lhes deu guarida. Ana completa a memória com humor: "No dia seguinte fomos atrás dele, no seu Land Rover com uns 50 anos carregado de bananas, por várias vezes quase a capotar...".
Sobre a Nigéria, Carlos contrapõe a fama ao que viveram: "Apesar dos alertas de risco, a Nigéria é absolutamente fantástica do ponto de vista humano, toda a gente, incluindo os polícias, mas tem pistas muito difíceis". Reconhece que "Foi um bocado imponderado partir à aventura com um carro sozinho", mas sublinha que o saldo - para ambos - foi maior. "Correu tudo muito bem", diz, embora Ana lamente ter cedido ao medo que lhe foram transmitindo e, por isso, não ter parado mais vezes para se ligar aos aldeões e os fotografar.
A rota prosseguiu pelo Benim, onde cruzaram património religioso de inspiração brasileira erguido por descendentes de escravos retornados e também vestígios portugueses, como o Forte de São João Batista de Ajudá. Depois veio o estreito Togo, e o Gana das cidades organizadas, das praias paradisíacas e do peso do passado negreiro. Na Costa do Marfim, encontraram chuva, palmeiras e uma capital moderna. Conheceram a Libéria, nascida da esperança de ex-escravos e dona da capital mais caótica. Seguiu-se a Serra Leoa, de nome português, antes de entrarem na Guiné-Conacri das "inacreditáveis pistas" de terra vermelha constante.
A chegada à Guiné-Bissau - tão ligada ao passado de Carlos - foi particularmente querida. Ali, abrandaram: voltaram a Bafatá, onde Ana tinha feito voluntariado, desviaram-se ao Saltinho do rio Corubal e aproveitaram o encanto da velha Bissau.
Ainda faltavam o Senegal e a travessia rápida da encravada Gâmbia, até pararem na histórica ilha de Saint-Louis. Depois, avançaram para o deserto, entre Mauritânia, Saara Ocidental e Marrocos.
Na fronteira marroquina, Carlos guarda um episódio caricato: "Tínhamos nas portas do carro mapas do percurso estimado, tirados do Google Maps, e incluíam o Saara Ocidental. Pediram para arrancar. Arrancámos e rasgámos. E confiscaram-nos o drone. Tínhamos jantado em Nouhadibou e ficámos com o contacto de Instagram do rapaz do restaurante, era espanhol, e ele foi à fronteira buscar o drone para trazê-lo para a Galiza..."
A 3 de novembro, com quase 36 mil quilómetros somados, Carlos e Ana deixaram a Raptor em Leiria, com a bagagem cheia de histórias. Também na geografia completaram a travessia em pleno: cruzaram o Trópico de Capricórnio, o Equador e o Trópico de Cancer. "Eu bebo sempre o meu copo de vinho. E nunca sem brindar. E brindo sempre à sorte. E a sorte, felizmente, esteve sempre lá." Carlos admite que não voltará a repetir a aventura - não por cansaço, mas porque há muita estrada no mundo. "Só posso estar cansado quando tenho acesso ao descanso. E ter fome quando tenho acesso à comida." Simples.
Já Ana guarda a essência do percurso num pensamento: "A beleza da viagem é progredir e avançar em África. Olhar para trás e perceber: atravessámos um continente!". Diz que pretende repetir este modelo de viagem; com o pai, talvez. A experiência aproximou-os ainda mais, apesar das inevitáveis fricções: "Numa viagem tão longa conhecemos melhor as coisas boas e as coisas más de cada um". O caminho fez-se ultrapassando desacordos - por vezes com o silêncio da co-piloto, a “convidada” dentro do sonho.
A história, essa, está contada em imagens surpreendentes na página @azeitonasonthe_road, no Instagram.
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