Diogo Ribeiro atravessa uma fase menos positiva no que toca a lesões, mas mantém a convicção de que voltará a sagrar-se campeão do mundo e que, um dia - talvez por volta dos 25 anos - terá condições para atacar o recorde dos 50 metros mariposa. Reconhece que a exposição mediática após o ouro mundial lhe abriu portas a mais patrocínios, mas também o levou a ações e gravações na piscina do Jamor até altas horas, o que pode ter afetado a preparação para os Jogos Olímpicos (JO). Pelo caminho, admite ter descoberto um novo interesse - comprar, remodelar e vender casas - e diz que a desilusão em Paris 2024 acelerou a sua maturidade: “Fui muito rápido do oito ao 80 e depois do 80 ao oito.”
Mediatismo, patrocínios e foco antes dos Jogos Olímpicos
Depois de Paris 2024, a atenção mediática abrandou. Isso tem sido um alívio na preparação ou dá-lhe saudades?
Não. A exposição a seguir ao Mundial foi excessiva. Eu percebo: fui o primeiro a conseguir um feito destes numa modalidade de que muita gente gosta, mas que não acompanhava por falta de resultados deste patamar. Naquele dia, muita gente ficou presa ao ecrã para ver se o Diogo Ribeiro se tornava o primeiro campeão do mundo da natação. Ainda assim, senti que foi demais e que, por desviar o foco dos treinos, acabou por interferir na preparação para os JO, que vieram logo a seguir.
Acha que isso ajudou a explicar o resultado menos conseguido em Paris?
Não consigo afirmar. Nunca saberemos como teria sido com um mediatismo diferente e com uma preparação montada de outra forma. O que sei é que, depois do Mundial, surgiram muitos patrocínios e tive de fazer ações de marketing na piscina do Jamor até às três da manhã - com gravações que começavam às três da tarde. Isso pesa. Muitas vezes, o atleta tem de trabalhar noutras frentes além da natação, porque tem de gerar rendimento por outras vias, não apenas através do clube, do Comité Olímpico de Portugal (COP) ou da federação. Mas também não foi só isto; houve mais fatores.
“Não fiquei menos humilde com o mediatismo, nada disso, mas fiquei a achar que as coisas eram demasiado fáceis”
Foi uma decisão sua afastar-se um pouco dos holofotes?
Sim. Depois de ser campeão do mundo e de não ter alcançado nos JO o resultado que pretendia, disse ao Benfica, à equipa de comunicação, ao COP e à federação que ia colocar tudo em stand-by. Não ia aceitar mais nada porque não estava bem; precisava de tempo para mim e de recuperar o tipo de treino que tinha antes do Mundial. Sinto que isso me ajudou a regressar ao meu “normal”: mais foco. E não digo que o mediatismo seja mau - acho até que toda a gente devia poder vivê-lo, porque é uma sensação de outro nível.
A exposição também o deslumbrou?
Talvez um pouco. Não estava à espera que fosse assim. Não fiquei menos humilde, nada disso, mas fiquei a achar que as coisas eram demasiado fáceis. E, quando meti tudo em stand-by, senti mesmo: OK, se calhar é isto, se calhar é assim que vou conseguir voltar a ser campeão do mundo.
Passei esse ano inteiro nessa linha, voltei ao Mundial e não fui campeão - mas porque os outros estiveram muito fortes e porque eu fiz o meu recorde pessoal. Terminei em 4º lugar, e isto liga-se ao que eu dizia: em Portugal, as entidades à minha volta também não estavam preparadas para me apoiar como deviam. Ainda assim, temos de lidar com isso da melhor forma e voltar a ser campeões do mundo e a fazer um bom resultado nos JO.
50 metros mariposa: concorrência, tempos e margem para evoluir
O 4º lugar no último Mundial mexeu consigo? Contava com uma concorrência tão apertada?
Não me assustou; eu já esperava um cenário assim. Achava, até, que ia nadar ainda mais rápido, porque nunca tinha feito 22 segundos em fases eliminatórias. Quando fiz 22.90s nas eliminatórias e 22.80s nas ‘meias’, imaginei que na final iria aos 22.05/06s, mas acabei por fazer 22.77s.
Fiquei em 4º lugar, e o 5º tempo foi 22.80s - ficou tudo colado. Aliás, a final fechou toda na casa dos 22 segundos. Todos fizeram abaixo do tempo com que eu tinha vencido no Mundial de Doha. Ou seja, o 8º lugar foi melhor do que o 1º no Mundial. Nós sabíamos que isto podia acontecer, sobretudo porque saíram novas regras para os JO e os 50m mariposas passaram a estar incluídos no programa olímpico. A partir daí é natural que apareçam marcas melhores nesta prova, porque muita gente vai querer nadá-la para ser campeão.
Ainda sente que tem muito para crescer?
Sim. Fui o mais novo nas meias-finais, sinto que fisicamente sou o menos forte e também me considero o menos forte nos primeiros 15 metros. E isso dá-me a sensação de que tenho mais margem para melhorar do que os outros.
Consegue explicar porque é que não é tão rápido nos primeiros 15 metros?
Fisicamente, sou o pior. Mentalmente já me considero um bom atleta. Mas tenho as pernas muito finas.
Isso traduz-se em quê - mais trabalho de ginásio?
Por exemplo, sim, vamos trabalhando isso. Só que não dá para puxar demais: se houver um crescimento muito repentino, pode trazer problemas e lesões. As lesões que tenho tido este ano também podem estar ligadas a isso, porque temos aumentado as sessões de ginásio.
Equipa técnica, recorde mundial e o estágio com Andrii Govorov
Entretanto houve mudanças na equipa técnica e deixou de ser treinado pelo Alberto Silva. Essa saída alterou muito o processo?
Neste momento, o treinador principal é o Samie Elias, que já integrava a equipa - era o biomecânico. Eu tinha muito carinho pelo Alberto e as coisas estavam a correr muito bem. Infelizmente, ele saiu por razões financeiras, porque a federação não conseguia pagar o que ele estava a pedir. Da mesma forma que eu passei a ganhar mais no Benfica, ele também queria ganhar mais da federação.
Custou saber que ele ia embora, mas eu já sabia que ficava alguém que estava por dentro do trabalho, por isso não seria uma mudança assim tão grande.
Disse recentemente que quer bater o recorde mundial dos 50 metros mariposa. Aponta uma idade ou um prazo?
Não. Tenho a certeza de que não é já, não está perto, mas talvez por volta dos meus 25 anos. É um objetivo.
“No nadar ninguém é mais rápido do que eu. Se os 50 metros tivessem 55, provavelmente ganhava sempre”
Teve a hipótese de estagiar com o recordista Andrii Govorov. O que é que aprendeu com ele?
Sobretudo, como gerir certas situações em competições lá fora e a forma de lidar com alguns atletas. Nem toda a gente é simpática. Ele contou-me que, quando bateu o recorde do mundo, estavam na câmara de chamada a falar com ele e a dizer-lhe que não ia conseguir.
Ele bateu o recorde em 2018; eu treinei com ele em 2023. Disse-me que eu era o melhor do mundo porque, no nado, ninguém é mais rápido do que eu. O problema é que, nos primeiros 15 metros, eu saio sempre atrás, não consigo sair ao lado deles. Vou apanhando ao longo do percurso. Se os 50 metros tivessem 55, provavelmente ganhava sempre (risos).
Competir em Portugal, necessidade de provas lá fora e apoios
A falta de concorrência em Portugal atrapalha-o?
Atrapalha, porque eu podia usar as provas cá como preparação para competições internacionais e acabo por não conseguir. Quando nado em Portugal, muitas vezes é um bocado na “brincadeira”. Não é a gozar com os outros, mas acabo por experimentar coisas que não faria numa prova a sério: tento, por exemplo, entrar demasiado rápido e depois “morro” mais à frente; como sei que ninguém me vai apanhar, acabo por não me esforçar - entre aspas - para não rebentar.
Numa prova de preparação com alguém ao meu lado, eu ia mesmo forçar, mesmo que rebentasse. Sinto que isso não me ajuda quando chego a uma competição como a que fiz agora na Suécia, onde tive uma lesão e ainda estou a recuperar.
Dada essa realidade, seria preciso competir mais no estrangeiro?
Acho que sim; devia ser obrigatório. E devia ser uma prioridade assumida pela federação, para os atletas competirem a sério.
Hoje, o que teria de acontecer para dizer: “não tenho nada do que me queixar da preparação e das condições”?
Sinceramente, há uma parte que depende mesmo de mim: as lesões. O COP está cada vez melhor; o presidente Fernando Gomes veio dar uma grande ajuda, tem muitos contactos e uma equipa forte. É alguém que quer saber dos atletas e trabalha o máximo possível.
Todo o staff do COP tem dado o melhor para garantir apoios de topo - tanto financeiros como em materiais. Não tenho nada a apontar. A federação também faz o melhor que consegue; nota-se uma melhoria, incluindo levar atletas a competições lá fora, algo que antes não existia.
O Benfica é o meu maior suporte. Foi o Benfica que apostou em mim quando tive o acidente. Isso nunca vou esquecer. Foram eles que me projetaram para os palcos onde estou hoje. E, claro, a minha família, os meus amigos e os meus treinadores.
Maturidade após Paris 2024 e a decisão sobre os estudos
O que aconteceu nos Jogos de 2024 foi um terceiro salto de maturidade, depois de ter perdido o pai aos 4 anos e do acidente de mota grave aos 21?
Acredito que sim. De certa forma, o que aconteceu em Paris acabou por ajudar. No momento, não ajudou grande coisa. Mas, pensando melhor, sinto que também me deu ferramentas para lidar com certas pessoas, para perceber quem estava mesmo lá e quem não estava.
É muito fácil toda a gente aparecer depois de um Mundial e depois, após os Jogos Olímpicos, quase ninguém estar presente. Eu precisava disso para perceber como é, de facto, a vida de um atleta. Já estive no topo, no máximo, e também já estive cá em baixo. “Fui muito rápido do oito ao 80 e depois do 80 ao oito.” Acho que posso dizer que me tornei adulto.
Depois de ser campeão do mundo, pôs os estudos em stand-by. Foi escolha sua ou alguém aconselhou?
Foi uma escolha minha, porque senti que estava a viver a melhor fase desportiva da minha vida. O desporto é algo que não dura para sempre; os estudos posso retomar mais tarde. Posso terminar a minha carreira na natação e voltar a estudar, talvez até com mais inteligência do que quando era mais novo.
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