O realizador português Tiago Guedes viu a projeção de "Aqui" sentado ao lado de J.M. Coetzee, Prémio Nobel da Literatura.
"Aqui" marca a noite grande de Cannes
Na noite desta segunda-feira, Cannes viveu um dos momentos mais fortes desta edição do festival. "Aqui", de Tiago Guedes, inspirado na "Trilogia de Jesus" do escritor sul-africano J.M. Coetzee - distinguido com o Prémio Nobel da Literatura - impôs-se como um objeto cinematográfico singular, com argumentos de sobra para estar na corrida à Palma de Ouro.
Um filme sobre o aqui e agora
Apresentado como o relato de um homem que, após salvar uma criança, chega a um centro de emigração, "Aqui" vai muito além da premissa inicial. É um filme que questiona quem somos neste aqui e agora: o lugar que ocupamos no mundo perante o outro e o modo como nos relacionamos com a vida e com a morte.
Tiago Guedes alcança a raridade de pôr em imagens a palavra, a ideia e uma filosofia, numa atitude quase straubiana, sem se esconder numa narrativa hermética. Ao longo de pouco mais de três horas - que se escoam sem que se sinta o peso do tempo - cada espetador acabará por encontrar o seu próprio filme, mesmo que não precise de o decifrar de imediato.
Adaptar a "Trilogia de Jesus" de J.M. Coetzee
Depois da sessão, Tiago Guedes falou ao JN. "O texto eu já o lera quando saiu, há muitos anos. O primeiro livro da trilogia, que o Coetzee escreveu espaçadamente. Demorou nove anos a escrever os três. Mas quando li o primeiro, identifiquei-me muito com muitas coisas minhas e fiquei com esse interesse", recordou, a propósito da origem do projeto. "Depois, passados uns anos, o Paulo Branco, que não sabia deste meu interesse, perguntou-me se um dia eu gostaria de os adaptar. Uma coisa era adaptar um livro, outra coisa foi adaptar três para um filme, mas aceitei o desafio porque gostava muito de toda a matéria que estava ali."
Filmar as palavras de Coetzee era, como admite o realizador, o grande teste. "Foi não perder a essência dos livros, que vem muito na palavra. Com diálogos incríveis, com uma secura implacável, mas cheios de profundidade. Isso foi o ponto de partida. E depois tentar, com os atores, com a realização, manter essa secura. Ou seja, não dramatizar, não carregar em certas coisas, porque poderia ser fácil descarrilar, ir atrás de certas emoções." E conclui: "Ele é muito puro, na maneira como escreve, e eu queria manter isso no filme, porque é assim que se faz justiça à matéria que estamos a tratar"
Para Tiago Guedes, que já construiu uma filmografia consistente e variada, "Aqui" representa um salto para outra dimensão, sem abdicar do seu olhar autoral. "Os meus pontos de partida são sempre muito diferentes. Às vezes vem de uma história real e aí partes de um argumento original, outras vezes estás a adaptar um texto que já existe. O que sinto é que cada processo me ensina coisas e cada processo é um processo diferente"
Reencontro com Cannes e a reação de Coetzee
Quatro anos depois de "Restos do Vento", Tiago Guedes regressa ao festival e reconhece o peso do palco. "é sempre um palco muito grande, uma maneira de mostrar o nosso trabalho. Sinto sempre que é um grande arranque para um filme, que pode ser muito importante." O cineasta português vai, assim, aproximando-se do que se costuma chamar a "família" de Cannes. "Eu não sinto assim, mas sinto que estou a ficar mais familiarizado com as pessoas e com o próprio festival. E sim, isso é agradável também."
Tiago Guedes assistiu à projeção acompanhado pelos principais atores, pelo produtor Paulo Branco e pelo próprio J.M. Coetzee. "Foi muito interessante, muito tenso. Tenso no início, mas depois relaxei ao longo do filme. Mas não era só ele, era ele e a equipa.
Ninguém tinha ainda visto o filme. Eu estava muito apreensivo, porque quando trabalhei com um elenco com que na sua grande maioria eu nunca tinha trabalhado. Essa relação de conquista é algo que ainda está a ser trabalhado e fiquei muito satisfeito por perceber que todos gostaram do filme e sentiram que foram muito bem tratados no seu trabalho."
Por fim, quisemos saber quais foram as primeiras palavras de Coetzee dirigidas ao realizador. "Ele estava muito emocionado no final. Isso foi logo um grande sinal, disse-me que tinha gostado muito. E o abraço que me deu foi sentido. E ele não é uma pessoa muito efusiva. Portanto, eu fiquei muito mais relaxado ao sentir que pelo menos não lhe tinha estragado a ideia que ele tinha do filme."
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