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Advogado da Operação Marquês confirma entrega de 10 mil euros ao motorista de José Sócrates

Homem de fato entrega envelope a outro homem perto de carros em frente a edifício com escadaria.

Depoimento no julgamento da Operação Marquês

O advogado arguido no processo Operação Marquês confirmou esta terça-feira que, a pedido do alegado testa-de-ferro do ex-primeiro-ministro, entregou 10 mil euros ao motorista de José Sócrates, sublinhando, ainda assim, que nunca se apercebeu de estar a praticar qualquer ilícito.

Gonçalo Trindade Ferreira, de 50 anos, trabalhou há mais de uma década para uma empresa de Carlos Santos Silva - apontado pelo Ministério Público como um dos testas-de-ferro de José Sócrates - e está acusado de três crimes de branqueamento de capitais. Dois desses crimes dizem respeito ao tratamento de documentação ligada à compra de casas na Grande Lisboa e em Paris (França), negócios que, segundo a acusação, terão servido para fazer chegar dinheiro à esfera do antigo governante; o terceiro relaciona-se com 200 mil euros guardados num cofre bancário.

O cofre com 200 mil euros e o contexto do BES

Ouvido hoje em tribunal, em Lisboa, no âmbito do julgamento da Operação Marquês, o advogado confirmou a existência do cofre com 200 mil euros, esclarecendo, porém, que o dinheiro pertenceria a Carlos Santos Silva e destinava-se a funcionar como fundo de maneio para cobrir despesas que fossem surgindo nas empresas do engenheiro.

"Este valor não foi entregue de uma vez só. Na altura, estávamos um bocadinho antes do colapso do BES [Banco Espírito Santo] e tínhamos muitos trabalhadores espalhados pelo Brasil, pela Argélia, pela Venezuela. Tínhamos muitas obras. E o engenheiro [Carlos Santos Silva] disse-me que eu era a pessoa que tinha ligação com muitos funcionários e se eu queria guardar alguma quantia para o caso de ser necessário", explicou.

Envelopes, casas e acusações do Ministério Público

Em determinada ocasião, acabou por transportar e entregar um envelope com 10 mil euros ao então motorista de José Sócrates, apesar de este não ter qualquer ligação profissional ao empresário para o qual o advogado prestava serviços.

"A única vez que [o dinheiro] me veio parar às mãos foram os 10 mil euros para o João Perna. [Carlos Santos Silva] não disse o que estava lá dentro, mas era o envelope que entregara e deixara naquela manhã", relatou.

O advogado referiu ainda ter entregue envelopes à ex-mulher do chefe de Governo, no período entre 2005 e 2011, dizendo ter acreditado que continham documentação e não dinheiro.

Para o Ministério Público, contudo, esses montantes seriam, na realidade, de José Sócrates e não de Carlos Santos Silva, e teriam origem em atos de corrupção.

Gonçalo Trindade Ferreira afirmou também que tudo o que fez relativamente aos negócios das casas na Grande Lisboa e em Paris ocorreu estritamente no exercício das suas funções de advogado. Nesse âmbito, incluiu a elaboração de um contrato de arrendamento na capital francesa com efeitos retroativos, em que Carlos Santos Silva figurava como senhorio e José Sócrates como inquilino.

"Em momento algum senti que estava a cometer o que quer que seja. Estava a cumprir o meu dever", declarou, reiterando que apenas conheceu o antigo primeiro-ministro na véspera da detenção, em novembro de 2014, e que, nessa altura, "era miúdo" e "estava deslumbrado de poder sair de manhã de Lisboa para ir a Paris para ir fazer uma visita".

José Sócrates, de 68 anos, Carlos Santos Silva, de 67, João Perna, de 56, Sofia Fava, da mesma idade, e Gonçalo Trindade Ferreira integram o grupo de cinco entre os 21 arguidos do processo, que, em geral, têm negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que, no total, lhes são imputados.

O ex-governante socialista responde, entre outros ilícitos, por três crimes de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para favorecer o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.

O julgamento teve início a 03 de julho de 2025, no Tribunal Central Criminal de Lisboa, e os factos em causa terão ocorrido entre 2005 e 2014.

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