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Porque os condutores atuais são privilegiados

Dois carros, um eléctrico futurista cinza e um clássico vermelho, expostos em showroom com carregador elétrico.

Num tempo em que o saudosismo parece estar “em voga” (basta olhar para o fenómeno das festas “Revenge of the 90’s”), dei por mim, há dias, a chegar a uma ideia simples: os condutores atuais são uns autênticos privilegiados.

É verdade que é fácil contemplar um clássico e ficar rendido a muitas das suas particularidades e manias; o que a maioria de nós já não consegue imaginar é o que significava, na prática, conduzir um desses carros todos os dias.

Conduzir há 30 anos: simplicidade e austeridade

Há 30 anos, abundavam modelos que ainda exigiam manivelas para subir e descer os vidros, e até um rádio básico podia surgir apenas na lista de opcionais. Em alguns casos, para afinar o funcionamento, ainda era necessário “fechar o ar” e enriquecer a mistura de ar/combustível.

Também no capítulo da segurança o cenário era outro: itens como o airbag ou o ABS eram vistos como luxos, e o ESP pouco mais era do que uma ambição distante no papel dos engenheiros. E quando o tema era navegação, o “sistema” muitas vezes resumia-se a um mapa aberto em cima do capô.

Tecnologia, conforto e segurança nos carros modernos

Em contrapartida, hoje a grande maioria dos automóveis oferece ao condutor ar condicionado, sistema de navegação e até soluções que já acenam com a condução (quase) autónoma.

A isto juntam-se câmaras e sensores que tornam as manobras mais fáceis, mesmo nos maiores modelos, além de sistemas que travam por nós e até estacionam o carro sem intervenção. Tudo isto faz-me lembrar uma professora que tive: desejava precisamente este tipo de ajudas e, sabendo do meu interesse por automóveis, perguntava-me em tom de brincadeira quando é que tal passaria a ser possível.

Oferta para todos os gostos

Num mundo em que um utilitário atinge 150 km/h “sem suar”, transporta quatro passageiros com conforto e segurança e ainda oferece mais espaço do que muitos modelos de segmento C de há 20 anos, também a variedade de motorizações disparou.

Há 25 anos, a escolha era essencialmente entre gasóleo e gasolina. Atualmente, a essas opções somam-se vários graus de eletrificação: desde os híbridos ligeiros (mild-hybrid), passando pelos híbridos, até aos híbridos plug-in. E, se assim o quisermos, é até possível cortar de vez com o motor de combustão e escolher um 100% elétrico.

Seja qual for a solução, a tendência é clara: face às antecessoras, a motorização é mais forte e, simultaneamente, mais poupada, com intervalos de manutenção mais espaçados. O mais curioso é que tudo isto é alcançado com menor cilindrada e, muitas vezes, com menos cilindros - um verdadeiro “Ovo de Colombo”.

E não é só nos motores que se nota a mudança. Se há 20 anos ainda era habitual ver carros (sobretudo norte-americanos) equipados com caixas automáticas de quatro relações, hoje multiplicam-se as automáticas de sete, oito e nove velocidades; as CVT afirmaram-se; e até a “velhinha” caixa manual ficou mais “inteligente”.

É melhor? Depende…

Por um lado, sabe bem conduzir carros que ajudam a evitar multas por usar o telemóvel, que nos mantêm “na linha”, garantem a distância de segurança e ainda nos tiram o “fardo” de enfrentar o “pára-arranca”. Mas existe um reverso.

À medida que o automóvel evolui, cresce a sensação de que o condutor fica menos ligado ao próprio ato de… conduzir. Para agravar, há quem acredite - infelizmente - que a condução totalmente autónoma já é uma realidade, acabando por depositar confiança a mais em todos os “Anjos da Guarda” do carro.

O que fazer para equilibrar estas duas realidades

Como contornar estas duas questões? A primeira pode ser atenuada com alguns passeios ao volante de automóveis clássicos - não como rotina diária, mas em ocasiões especiais que permitam aproveitar as suas muitas qualidades sem ter de conviver com os seus “feitios”.

Quanto ao segundo ponto, creio que a resposta passa por mais consciencialização junto dos condutores e, talvez, por uma atuação mais punitiva das autoridades.

No fim de contas, sim: acabamos por ser verdadeiros privilegiados, porque hoje tanto podemos usufruir do conforto, da segurança e das restantes virtudes dos carros modernos, como continuar a saborear o carácter mais vincado dos seus antecessores.

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