No seu mais recente livro, editado pela Elsinore, Ariana Harwicz descreve com enorme domínio o caminho de autodestruição de uma mãe.
Olhar para a América Latina e para elas
A frase não tem nada de inédita, mas convém repeti-la: quando procuramos a literatura mais estimulante do nosso tempo, é para a América Latina - e, em particular, para as suas autoras - que devemos orientar a atenção. Trata-se de prosas urgentes, cortantes, que trocam o ensimesmamento tão frequente em muita da escrita publicada por aí pela exposição de instintos básicos e primordiais, próprios de quem sabe que a sobrevivência precisa de ser confirmada a cada segundo, sem pseudo-crises existenciais nem exercícios estéreis de insuflação do ego.
A contundência rara da escrita de Ariana Harwicz
A par de Fernanda Melchor, Samanta Schweblin ou Mariana Enriquez, Mariana Harwicz - entre tantas outras - escreve com uma contundência que se torna cada vez mais difícil de encontrar. No seu relato quase sem pausas, as palavras batem de forma incessante, como se o texto tentasse extirpar um mal para o qual não há alternativa senão o corte e a rasura totais.
"Perder o juízo": tribunal, fogo e fuga
Em "Perder o juízo", o leitor segue uma mulher - argentina a viver em França - cuja sanidade começa a desfazer-se a partir do instante em que o tribunal lhe retira a guarda das duas crianças. Num impulso irracional, pega fogo à casa onde elas vivem com o pai e com os avós, e daí parte para uma fuga de contornos delirantes, sem espaço para qualquer final feliz.
Maternidade, violência e linguagem ferina
O desespero de uma mãe é um tema abundante nas artes, do cinema à literatura, mas poucas abordagens terão encarado com tanto realismo e crueza o processo de afastamento gradual das normas de comportamento. O amor louco de Harwicz não tem nada de surrealista ou de artístico: é a constatação nítida de que, reunidas certas condições, todos podemos "perder o juízo", como anuncia o título.
Convencida de que a vida deixa de fazer sentido ao ver ruírem os projectos de maternidade que alimentou durante tantos anos, Lisa desmonta várias ideias associadas ao papel de mãe. Assim, a doçura normalmente colada à condição materna transforma-se numa violência por vezes inaudita, efeito a que contribui decisivamente uma linguagem que roça a ferocidade.
Tal como no anterior "Trilogia da paixão", a escritora argentina volta a explorar, sem concessões, a fronteira dos desejos mais inconfessáveis, como se a escrita fosse o último território possível para todos os questionamentos - reais ou imaginados.
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