Autoridades russas e meios de comunicação estatais têm vindo a promover a ideia de que uma versão modernizada do sistema de protecção activa Arena‑M, agora apresentada como incluindo um “modo anti‑drone”, poderá atenuar o impacto do crescente arsenal ucraniano de munições guiadas e de drones kamikaze FPV (visão na primeira pessoa). A mensagem surge num momento em que viaturas blindadas de ambos os lados vivem sob ameaça permanente de armas aéreas baratas e descartáveis.
Uma nova vaga de tanques T‑90M, com um detalhe diferente
Entre o final de 2025 e o início de 2026, circularam imagens provenientes da Rússia que mostravam novos tanques de batalha principais T‑90M “Proryv” a sair da fábrica da Uralvagonzavod por via ferroviária. Trata‑se do tanque mais moderno da Rússia em produção em grande escala, já utilizado na Ucrânia e avistado repetidamente junto a sectores da linha da frente.
Desta vez, porém, o foco de muitos analistas não esteve no próprio T‑90M, mas sim na alteração que fontes russas dizem ter sido introduzida: o sistema de protecção activa (APS) Arena‑M, um conjunto defensivo de destruição directa (“hard‑kill”) concebido para interceptar mísseis e foguetes anticarro, terá sido actualizado ao nível do software para enfrentar ameaças aéreas, incluindo drones.
“A mensagem russa sugere uma mudança de montagens experimentais para uma integração mais sistemática da protecção activa em tanques prontos para combate.”
Isto ganha relevância porque os drones FPV se tornaram numa das ferramentas mais letais e económicas desta guerra. Um tanque que resista a mísseis, mas seja destruído por um quadricóptero de £500 com uma carga oca, acaba na mesma como uma carcaça a arder no campo de batalha.
O que o Arena‑M pretende fazer
O Arena‑M é um sistema de protecção activa de “hard‑kill”. Em vez de depender apenas de blindagem adicional para absorver ou desviar impactos, procura eliminar a ameaça antes de esta atingir o veículo.
- Um radar detecta projécteis a aproximarem‑se
- O sistema calcula a trajectória em torno do tanque
- Dispara pequenas contra‑munições numa direcção específica
- Estas detonam no trajecto da ameaça, danificando‑a ou desviando‑a
Versões anteriores do Arena foram exibidas em tanques russos mais antigos há vários anos, mas a sua utilização efectiva ficou limitada. O Arena‑M é apresentado como uma iteração mais refinada, com radar e controlo de tiro melhorados, concebida para lidar de forma mais eficaz com mísseis guiados anticarro (ATGM) e granadas propelidas por foguete (RPG) actuais.
“A nova alegação é que alterações de software permitem ao Arena‑M seguir e envolver alvos aéreos lentos e pequenos, como quadricópteros e munições vagantes.”
É uma tarefa bastante mais exigente. Os drones tendem a ser menores do que um míssil portátil, conseguem aproximar‑se por ângulos pouco comuns e nem sempre mantêm um voo rectilíneo.
Quão grande é o problema dos drones FPV para os tanques?
No teatro ucraniano, os tanques já não se preocupam apenas com outros tanques e com a infantaria inimiga. Enfrentam ameaças sobrepostas, a diferentes distâncias e altitudes:
| Tipo de ameaça | Alcance típico | Efeito nos tanques |
|---|---|---|
| Drones kamikaze FPV | 1–10 km | Golpes de precisão em pontos fracos e escotilhas abertas |
| Munições vagantes | 10–40 km | Impactos pelo topo vindos de cima |
| ATGM | Até 5 km | Penetrações laterais ou frontais |
| Artilharia e munições de fragmentação | Para além da linha de visão | Danos nas lagartas, ópticas destruídas, ferimentos na guarnição |
Em particular, os drones FPV são pilotados através de um fluxo de vídeo em tempo real, muitas vezes por operadores a vários quilómetros de distância. Podem ser guiados directamente para a zona traseira do compartimento do motor, para o tecto da torre, ou para áreas do casco mais finas do que a placa frontal fortemente blindada.
Esta realidade levou ambos os lados a instalar grades, redes e blindagens improvisadas nos tanques. São medidas baratas e, por vezes, surpreendentemente eficazes, mas também desajeitadas e longe de serem infalíveis. Um sistema integrado como o Arena‑M pretende oferecer uma protecção mais “limpa” e, em teoria, mais consistente.
O Arena‑M consegue, de forma realista, abater drones?
A questão central não é se um APS baseado em radar pode funcionar em termos teóricos. Sistemas deste tipo existem noutros países, incluindo o Trophy israelita, utilizado pelos EUA e por alguns Estados da NATO. O ponto decisivo é saber se o Arena‑M consegue detectar e interceptar drones FPV nas condições reais da guerra na Ucrânia.
Desafios de detecção
Drones comerciais pequenos têm uma secção eficaz de radar reduzida. Podem confundir‑se com o “ruído” do terreno ou ficar ocultos por edifícios, árvores e dobras do relevo. Além disso, a velocidade a que se deslocam é muito diferente da de um míssil rápido - e os radares de APS foram, originalmente, optimizados para seguir esse tipo de ameaça.
Para que um modo anti‑drone no Arena‑M faça diferença, o radar tem de distinguir um quadricóptero barato de aves, estilhaços e detritos, enquanto o tanque se move e opera sob guerra electrónica, fumo e o caos normal do campo de batalha.
Janela e geometria de interceptação
Mesmo com detecção fiável, a geometria do abate é complicada. A maioria dos APS de hard‑kill protege sobretudo uma faixa em torno dos flancos do veículo, e não uma esfera perfeita. A cobertura do topo e da traseira pode ser limitada. Ora, os drones atacam frequentemente a partir de cima ou mergulham de forma acentuada sobre o alvo.
“A menos que o Arena‑M tenha sido significativamente redesenhado, alguns ângulos de aproximação continuarão vulneráveis a drones FPV ágeis.”
Existe ainda um risco para forças amigas. As contra‑munições do Arena‑M detonam muito perto do tanque, projectando fragmentos para o exterior. Em ambiente urbano denso ou junto a trincheiras, essa explosão pode ferir infantaria que esteja a apoiar o blindado.
Capacidade industrial e ritmo de colocação no terreno
Mesmo que o Arena‑M corresponda ao que é anunciado, o seu impacto dependerá de quantos T‑90M conseguirem ser produzidos, modernizados e mantidos operacionais.
A Rússia tem anunciado várias “entregas em lote” de T‑90M nos últimos dois anos, mas a informação de fonte aberta aponta para um ciclo constante: os tanques são entregues, enviados para combate, danificados ou destruídos, e depois substituídos em pequenas vagas, em vez de uma única ofensiva decisiva.
As perdas de blindados têm sido elevadas em ambos os lados. A dúvida é se a base industrial russa consegue não só fabricar novos cascos e torres, como também instalar um número suficiente de unidades Arena‑M funcionais, garantir peças sobressalentes e formar guarnições para as utilizarem com eficácia.
- Produzir radares e electrónica é mais complexo do que trabalhar aço
- As sanções limitaram o acesso a alguns componentes de gama alta
- As oficinas de reparação têm de conseguir manter unidades APS em condições de campanha
Alguns T‑90M altamente protegidos com Arena‑M não alteram, por si só, o rumo do conflito. Já uma implementação ampla e fiável em muitos batalhões poderia influenciar tácticas - mas isso exige um desempenho industrial sustentado que, nos dados públicos, a Rússia ainda não demonstrou de forma plena.
Como a Ucrânia e os seus parceiros poderão responder
Qualquer novo sistema defensivo desencadeia uma procura imediata de novas abordagens ofensivas. Se o Arena‑M começar a surgir em números maiores e revelar eficácia real, é provável que unidades ucranianas e conselheiros ocidentais ajustem procedimentos.
Entre possíveis contra‑medidas:
- Programar drones para entrarem por zonas cegas, como arcos altos pela traseira
- Empregar enxames de drones baratos para saturar o APS e, depois, enviar um drone “assassino” de seguimento
- Deslocar o foco para submunições de artilharia de ataque pelo topo, fora do alcance de detecção de um APS de tanque
- Atacar sensores e radares externos do tanque, em vez de visar a blindagem em si
A guerra electrónica é outra via. Se os radares do APS russo dependerem de frequências específicas ou de certas ligações de dados, interferência e técnicas de engano poderão degradar a detecção, criando janelas para ataques bem‑sucedidos com drones.
Termos‑chave que moldam o debate
Vários conceitos estão na base desta discussão e, no debate público, são frequentemente confundidos.
Sistema de protecção activa (APS): conjunto que detecta e contraria ameaças de forma activa, seja interferindo com a sua orientação (destruição indirecta/“soft‑kill”), seja destruindo‑as com interceptores (destruição directa/“hard‑kill”). O Arena‑M é um APS de hard‑kill.
Soft‑kill vs hard‑kill: sistemas soft‑kill, como fumo, encandeadores laser ou bloqueadores electrónicos, procuram confundir ou “cegar” armas que se aproximam. Sistemas hard‑kill disparam projécteis físicos para as danificar. Muitos tanques de nova geração procuram combinar ambos para criar protecção em camadas.
Drone FPV: pequeno drone pilotado por uma câmara com transmissão em directo, muitas vezes adaptado para transportar uma carga explosiva. O custo baixo e a elevada precisão tornaram‑no numa ferramenta preferida para atingir blindados e trincheiras na Ucrânia.
Como poderão ser os cenários no campo de batalha
Imagine‑se um T‑90M com Arena‑M a liderar um assalto perto de uma posição ucraniana fortificada. À medida que avança, operadores ucranianos lançam vários drones FPV a partir de locais dissimulados. Um segue baixo ao longo de linhas de árvores, outro aproxima‑se a grande altitude e um terceiro procura contornar para atingir a traseira.
Se o Arena‑M detectar primeiro o drone mais alto, poderá disparar uma contra‑munição e destruí‑lo antes do impacto. Alertada pelo sistema, a guarnição do tanque poderá largar fumo e alterar a direcção. Entretanto, o drone que voa baixo pode passar por uma sombra de radar, obrigando os operadores ucranianos a desviá‑lo para um veículo de apoio menos protegido, em vez de o conduzirem para o T‑90M.
Num cenário alternativo, vários drones ucranianos atacam em rápida sequência. O APS consome o número limitado de interceptores na primeira vaga. Uma segunda vaga, temporizada para chegar 10–20 segundos depois, pode apanhar o sistema momentaneamente sem munições. A partir daí, o desfecho volta a depender dos métodos tradicionais: espessura da blindagem, competência da guarnição e pura sorte.
Riscos, benefícios e o que isto significa para a guerra blindada
Se o Arena‑M se revelar razoavelmente fiável, as guarnições russas poderão sentir‑se mais seguras para aproximar tanques de áreas contestadas, pelo menos contra ameaças de drones menores. Isso poderia facilitar manobras blindadas mais arrojadas e tornar posições ucranianas estáticas mais vulneráveis.
Do lado russo, os riscos incluem excesso de confiança, incidentes de fogo amigo junto a infantaria e a pressão de manter electrónica complexa em condições duras no terreno. Um APS que funcione apenas parcialmente, com sectores cegos ou falhas intermitentes, pode alimentar uma falsa sensação de segurança.
“O Arena‑M no T‑90M é menos um escudo mágico e mais uma nova camada numa disputa contínua entre drones e blindagem.”
Para quem observa, a chegada destes sistemas indica que o tanque não está a desaparecer da guerra moderna - está a transformar‑se. É provável que futuros veículos blindados, russos, ucranianos e ocidentais, passem a ser concebidos de raiz com defesa integrada contra drones, combinando sensores, bloqueadores e interceptores de hard‑kill.
Na frente ucraniana, os próximos meses deverão esclarecer se a Rússia consegue colocar no terreno um número suficiente de T‑90M equipados com Arena‑M, mantê‑los operacionais e, de facto, reduzir a sombria colecção de destroços de tanques que imagens de satélite e vídeos de drones têm documentado desde o início da guerra.
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