Fichas clínicas de crianças roubadas ao Serviço Nacional de Saúde: perguntas sem resposta
É difícil imaginar que utilidade poderá ter, para um pirata informático, a informação contida nas fichas clínicas de crianças - e fala-se, potencialmente, de milhares - obtidas de forma ilícita a partir do Serviço Nacional de Saúde. Mas o facto de não sabermos ao certo não traz qualquer alívio; pelo contrário, só aumenta a inquietação.
Afinal, o alvo eram mesmo dados clínicos? Ou o acesso conseguido através das credenciais de um médico foi apenas a oportunidade que “fez o ladrão”, e o que se pretendia era outro tipo de informação sobre estas crianças? Pretende usar esses dados já, ou guardá-los para mais tarde? E, em qualquer dos cenários, que consequências poderá isto ter na vida das vítimas?
Responsabilidade do Estado e falta de esclarecimentos
Não sei se alguma vez vamos obter respostas - e duvido que os serviços do Estado, incluindo as forças de segurança, as consigam dar. Não estão preparados para este tipo de confronto.
Para lá do aviso dirigido aos pais, não há explicações. Mas tem de haver. Mesmo que não seja possível clarificar os motivos nem identificar e capturar os criminosos, uma instituição que armazena dados de cidadãos é responsável por esses dados e deve responder pela sua negligência quando permite que sejam roubados. Ainda mais quando se trata de crianças.
Crimes digitais e inteligência artificial: uma escalada inevitável
Podemos ter dúvidas, mas há também certezas. Nos crimes digitais ou informáticos, a escala, a intensidade e os efeitos vão crescer de forma exponencial com o recurso à inteligência artificial.
Nos últimos meses, têm-se multiplicado os alertas de especialistas sobre os efeitos nocivos do desenvolvimento de ferramentas como o Claude da Anthropic, o ChatGPT da OpenAI ou o Gemini da Google (para referir apenas as mais populares). Por exemplo, as versões mais recentes das duas primeiras mostraram ser capazes de encontrar formas de contornar a segurança dos sistemas informáticos mais avançados do mundo.
Uma arma perigosa nas mãos erradas
É uma arma perigosa quando cai nas mãos erradas - quer essas mãos sejam movidas por extremismo político ou religioso, pela ganância, ou pela simples loucura.
Se não nos protegermos e, sobretudo, se não obrigarmos as instituições do Estado a protegerem-se - e, assim, a protegerem-nos -, acabaremos todos como baixas colaterais de múltiplas guerras digitais.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário