Os casos de corrupção foram, de forma mais ou menos próxima, uma sombra constante sobre todos os primeiros-ministros espanhóis até hoje. Ainda assim, nunca tinha acontecido um cenário como este: pela primeira vez, um deles foi formalmente acusado.
A revelação abalou Madrid e rapidamente dominou o debate público: José Luís Rodríguez Zapatero, que chefiou o Governo entre 2004 e 2011, foi acusado de delitos de tráfico de influências, falsificação de documentos e organização criminosa. Segundo a informação avançada, trata-se do primeiro ex-primeiro-ministro em Espanha a ser acusado formalmente pela Justiça.
O impacto fez-se sentir de imediato no Governo, no Partido Socialista (PSOE) e em toda a Esquerda espanhola. Ao longo de anos, Zapatero construiu a reputação de um dirigente sério, honesto e sem mancha. Além disso, tornou-se uma figura de referência à esquerda por leis aprovadas durante os seus mandatos, como a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei da igualdade e a lei contra a violência de género. Foi também sob a sua governação que o grupo terrorista ETA foi derrotado.
O clima generalizado foi de incredulidade e espanto. Não apenas pelo percurso político de Zapatero, mas também porque, até agora, era o único ex-primeiro-ministro espanhol sem qualquer caso de corrupção associado ao período em que esteve no poder - uma diferença evidente face a outros executivos ao longo dos anos. Estes são os casos que envolveram, de uma forma ou de outra, todos os chefes de Governo até ao momento.
Zapatero: trama internacional
O juiz de instrução da Audiência Nacional coloca o antigo primeiro-ministro no centro de uma "trama corrupta internacional". No auto, é atribuída a Zapatero a liderança de uma organização criminosa que teria operado entre 2020 e 2025 e que teria recorrido à sua família para receber alegadas comissões ilegais. De acordo com a investigação, Zapatero terá usado um amigo, o empresário Júlio Martínez, para arrecadar as comissões pagas por empresas em troca de tráfico de influências, num montante que ronda os dois milhões de euros.
Para além disso, o juiz suspeita de que Zapatero terá também influenciado o resgate da companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia, no valor de 53 milhões de euros. O documento refere que 1% do dinheiro recebido teria sido canalizado para pagar supostos serviços de consultoria do ex-primeiro-ministro, numa alegada operação destinada a lavar dinheiro.
O ex-chefe do Governo rejeitou as acusações. Zapatero afirma que todos os trabalhos foram efectivamente prestados, que tem na sua posse todas as facturas e que a totalidade dos valores recebidos foi declarada ao fisco.
Felipe González: Grupos Armados de Libertação
O socialista foi primeiro-ministro entre 1982 e 1996. Nunca chegou a ser acusado, mas foi chamado duas vezes a depor como testemunha num dos episódios mais controversos da história recente de Espanha: o caso GAL. Os Grupos Armados de Libertação foram sustentados com dinheiros públicos para combater a organização terrorista e separatista basca ETA.
Entre 1983 e 1987, o Ministério da Administração Interna terá impulsionado, financiado e protegido a actividade dos GAL, responsáveis pela morte de 27 pessoas. O caso mais polémico foi o dos "etarras" José António Lasa e José Ignacio Zabala, que em 1983 foram sequestrados, torturados, assassinados e enterrados em cal viva. O processo terminou com a condenação do ministro da Administração Interna, José Barrionuevo, a dez anos de prisão, mas Felipe González negou sempre ter tido conhecimento das operações.
Foi igualmente durante a sua governação que rebentou o caso Filesa, que revelou um esquema de financiamento irregular do PSOE. O processo centrava-se numa rede de empresas criadas para facturar relatórios inexistentes, desviando fundos de grandes companhias para financiar o partido de forma ilegal. Vários dirigentes socialistas foram condenados, mas os tribunais nunca conseguiram provar o envolvimento directo de Felipe González.
Aznar e Rajoy: a caixa B do Partido Popular
O financiamento ilegal - desta vez no Partido Popular - esteve na base de um dos casos de corrupção mais mediáticos dos últimos anos e que acabou por envolver dois ex-primeiros-ministros do PP.
Na sentença da Audiência Nacional de 2018, o tribunal concluiu que, durante 20 anos, o PP se financiou através de actividades corruptas. O acórdão descreve que, em 1990, quando José María Aznar assumiu a liderança do partido, existiam duas empresas que emitiam facturas por serviços fictícios a outras empresas, permitindo financiar ilegalmente o partido.
A decisão judicial salienta que Aznar pôs termo a essas empresas, mas manteve uma caixa B partidária em que já não era necessário recorrer a facturas falsas, porque o dinheiro entrava "por debaixo da mesa". Essa caixa B era alimentada por doações opacas de empresas de construção e empreiteiros.
As doações seguiam para o circuito opaco do partido ou eram fraccionadas em quantias inferiores a 60 mil euros e depositadas no banco como doações anónimas, uma vez que a lei proíbe doações de empresas que possam beneficiar de adjudicações de contratos públicos.
O tribunal deu como provada a existência de uma "estrutura financeira paralela à oficial, cujos montantes se anotavam muitas vezes em folhas manuscritas". Considerou ainda demonstrado que foi criado "um eficaz sistema de corrupção institucional através da manipulação da contratação pública central, regional e local".
Apesar de a estrutura ter funcionado durante as lideranças de Aznar e de Rajoy, nenhum dos dois ex-primeiros-ministros foi acusado.
Pedro Sánchez: Caso Ábalos e Cerdán
Pedro Sánchez viu dois nomes do seu campo político envolvidos num processo de corrupção: o ex-ministro dos Transportes e Urbanismo, José Luis Ábalos, e o antigo secretário de Organização do partido, Santos Cerdán. Cerdán é acusado de um delito de participação em organização criminosa, subornos e trafico de influências, por alegadamente receber comissões em troca da adjudicação de obras públicas a várias empresas, em diferentes territórios espanhóis.
No auto, o juiz Leopoldo Puente aponta que o dinheiro acumulado por Cerdán pode atingir os cinco milhões de euros e admite a possibilidade de outras pessoas terem beneficiado do esquema. Segundo o magistrado, há "notáveis indícios" da participação de Santos Cerdán na rede de corrupção.
Ábalos está igualmente a ser investigado num processo que envolve o pagamento de comissões ilegais na adjudicação de contratos públicos para a compra de máscaras durante a pandemia.
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