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Depoimento de Gonçalo M. Tavares sobre "Os Lusíadas" e o ensino de Camões nas escolas

Professor a ler um livro em sala de aula com alunos atentos a escreverem nas suas secretárias.

Texto de Gonçalo M. Tavares, escritor e autor de "Uma viagem à Índia", sobre a sua relação com a leitura de "Os Lusíadas" e sobre a forma como Camões é ensinado nas escolas.

Gonçalo M. Tavares e "Os Lusíadas"

"Camões está entre os meus maiores autores, até porque passei horas e horas a escrever "Uma viagem à Índia", uma homenagem ao Camões, um livro que é uma epopeia contemporânea, mas que segue os passos de "Os Lusíadas" no século XXI. Já muito antes lia "Os Lusíadas" em voz alta, numa coisa meio encantatória. "Os Lusíadas", e Camões no geral, são, para mim, essenciais, porque são um prodígio da língua portuguesa. Está ali quase tudo o que é possível fazer com a língua: as distorções, as entradas por locais imprevistos no próprio verso... E ele, respeitando regras absolutamente rígidas, consegue fazer absolutas maravilhas.

Camões nas escolas: canção antes de análise

"O ensino de "Os Lusíadas" devia ser centrado na canção e não na análise. Partir e analisar cada bocadinho isolado parece-me um erro evidente. O ensino de "Os Lusíadas" parte de um pressuposto pouco estimulante, que é fazer uma análise a determinados versos, quando aquilo tem a força da canção. É como pensar numa sonata clássica e estar sempre a interromper antes de a ouvirmos toda. Ao contrário de [Fernando] Pessoa, que não tem esta parte sonora e é mais traduzível, Camões é muito difícil de traduzir. É um tesouro da língua portuguesa que só mesmo grandíssimos tradutores podem passar para tesouros de outras línguas.

O primeiro contacto com Camões e o regresso aos 30

"O meu primeiro contacto com Camões foi na escola e, durante alguns anos, fugi um pouco dele, porque me foi dada uma espécie de dissecação de um cadáver, como se "Os Lusíadas" servissem para analisar a estrutura do verso e não toda a potência da linguagem. Só por volta dos 30 anos, voltei de novo [a Camões] e aí com um entusiasmo enorme. O que me interessa muito em Camões é como, dentro de limites, se consegue ser absolutamente criativo.

Uma proposta para a sala de aula: ler em voz alta

"Se fosse professor, começaria por ler "Os Lusíadas em voz alta e faria com que os alunos lessem em voz alta, explicando a obra como se fosse uma tradução, eventualmente, explicando primeiro um pouco do enredo, uma espécie de sinopse rápida. E depois ler, ler, ler, sem interrupções. O texto não é acessível de imediato para alguém com 16 anos. E se a pessoa só está concentrada no conteúdo, no que está a dizer, vai perder coisas essenciais".

Iniciativa no âmbito das comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões.

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