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Ébola na RDC: OMS eleva risco, mas pandemia global é improvável

Profissional de saúde em equipamento de proteção mede temperatura de homem sentado ao ar livre, com grupo ao fundo.

O ébola tem potencial para desencadear surtos muito graves e até chegar a atravessar fronteiras, "mas o risco de uma pandemia global é baixo", sublinha ao JN a especialista Isabel de Santiago, que ainda assim deixa um aviso às autoridades de saúde portuguesas. O cenário mais preocupante é sobretudo regional, em especial quando há atrasos na deteção, no isolamento, no rastreio de contactos e no controlo da transmissão em contexto hospitalar e durante funerais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) agravou a avaliação: o risco para a saúde pública associado ao surto de ébola na República Democrática do Congo (RDC) passou para "muito alto", mantendo-se "alto" para a região da África Central e "baixo" no plano global. A doença - capaz de causar uma febre hemorrágica altamente contagiosa e letal - já terá provocado 177 mortes em cerca de 750 casos suspeitos no país, e tudo indica que circula há vários meses, estando "a espalhar-se rapidamente".

"Até ao momento, foram confirmados 82 casos na RDC, com sete mortes confirmadas. Mas sabemos que a epidemia é muito maior", afirmou ontem o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ao classificar o surto como uma emergência de saúde pública de importância internacional - o segundo patamar mais elevado de alerta, abaixo de uma emergência pandémica, hipótese que por agora se considera afastada. No Uganda, para onde o vírus já chegou, a situação mantém-se estável: existem dois casos confirmados em pessoas que viajaram da República Democrática do Congo e regista-se uma morte.

Para Isabel de Santiago, "Há preocupação regional real, sobretudo para os países vizinhos e para zonas com grande mobilidade populacional. O facto de já existirem casos importados no Uganda mostra que há circulação de pessoas infetadas antes de terem sido identificadas, o que é relevante numa zona de fronteira muito movimentada, com deslocações por razões familiares, comerciais, laborais e de procura de cuidados de saúde". Ainda assim, ressalva, não estamos "perante uma propagação inevitável ou descontrolada".

Fluidos corporais

A investigadora, que liderou em 2015 uma missão de prevenção do vírus em alguns países da África lusófona durante o maior surto de ébola de sempre (29 mil casos suspeitos e mais de 11 mil mortes segundo estimativas oficiais), admite que podem surgir infeções noutros países. A razão é simples: "o período de incubação pode permitir que uma pessoa viaje antes de desenvolver sintomas ou de ser diagnosticada".

"No entanto, "possível" não quer dizer "provável" em termos de transmissão sustentada", frisa, lembrando que o ébola não se dissemina pelo ar - ao contrário da gripe ou da covid-19. A transmissão dá-se "por contacto direto com fluidos corporais de pessoas doentes (sangue, vómito, fezes, saliva, suor e sémen) ou cadáveres infeciosos". Esta característica ajuda a explicar por que motivo, apesar do risco de propagação, a possibilidade de uma pandemia global é considerada baixa.

"A doença por vírus ébola pode causar surtos graves e até propagação internacional, mas o risco de uma pandemia global é baixo. O risco mais importante é regional"

Trata-se de um "vírus muito perigoso para contactos próximos, profissionais de saúde e comunidades afetadas, mas geralmente menos capaz de causar uma pandemia global do que vírus respiratórios, que se espalham facilmente pelo ar", sintetiza. Assim, o cenário mais verosímil passa pelo "aparecimento de casos importados ou pequenos focos, se houver falhas na deteção precoce".

Na sua leitura, a contenção depende, em grande medida, da velocidade de resposta - e essa rapidez, sublinha, "Que não existe". Apesar de a RDC ter experiência prévia com o vírus, enfrenta, diz, "obstáculos muito duros". Ontem, o diretor-geral da OMS apontou a violência e a insegurança como fatores que travam a deslocação das equipas de vigilância, comprometendo o transporte seguro de amostras e tornando mais difícil o rastreio de contactos.

Portugal sem alarme

A docente de Literacia, Educação e Comunicação em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa realça que quanto mais cedo forem detetados casos e localizados contactos, menor é a probabilidade de o vírus conseguir instalar-se noutros países. "A propagação ampla torna-se menos provável quando há triagem em fronteiras e unidades de saúde, testes laboratoriais rápidos, isolamento, proteção dos profissionais de saúde, rastreio de contactos e comunicação eficaz com as comunidades".

Recordando que o "vírus não pede licença para entrar no avião", a especialista - que há 11 anos coassinou um plano de comunicação para prevenir o contágio por ébola nos PALOP - chama a atenção para as ligações entre os países onde o surto foi identificado e nações de língua oficial portuguesa. Do lado português, entende que a Direção-Geral da Saúde (DGS) "já deveria ter enviado mensagens preventivas às comunidades africanas [desses países] residentes cá".

Alinhada com as recomendações do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que coloca o risco de surto na Europa como "muito baixo", a DGS afirmou esta semana que está a acompanhar a evolução do quadro: "Considerando a avaliação de risco para a União Europeia, é de ter em conta a baixa probabilidade de importação e de transmissão secundária". Caso surjam suspeitas em Portugal, deverá seguir-se a abordagem prevista numa orientação de 2019, onde estão descritos os procedimentos de referência para estas situações.

Sem vacina ou tratamentos

Isabel de Santiago salienta que a ausência de vacina e de anticorpos/antivirais aprovados para o vírus Bundibugyo - a estirpe mais rara associada ao surto recente (ler caixa à esquerda) - torna o esforço de contenção "mais difícil". De acordo com a OMS, "sempre teórica e que se tornou uma máquina burocrática e institucional", o controlo depende sobretudo de deteção precoce, isolamento, cuidados de suporte, prevenção de infeções, rastreio de contactos, funerais seguros e envolvimento comunitário. "Mas como, se os meios são tão parcos?", questiona a investigadora, criticando o reduzido investimento em saúde no continente africano.

"Mesmo que possam existir bons especialistas, muitas zonas têm limitações em água e saneamento; eletricidade; laboratórios; ambulâncias; equipamento de proteção individual; salários e retenção de profissionais; cadeias de frio; comunicações; stocks de medicamentos básicos", exemplifica. Reitera, por isso, que "a doença que o vírus ébola causa é uma emergência de alta exigência logística" e insiste: "Não basta saber o que fazer; é preciso conseguir fazê-lo todos os dias, em locais difíceis por razões de segurança e de acesso".

Tumultos em hospital

Na província de Ituri, epicentro do surto, tendas usadas para isolar doentes com ébola num hospital foram incendiadas anteontem durante um motim que terminou com intervenção do exército. Segundo a AFP, a revolta terá sido desencadeada pela recusa das autoridades de saúde em entregar à família o corpo de uma vítima, por motivos de saúde pública.

"Corpo de pessoa falecida pode ter elevada carga viral"

Principais medidas para travar surto passam por deteção eficaz, isolamento, rastreio de contactos e funerais seguros.

  • Encontrar casos rapidamente
    "É necessário e urgente identificar pessoas com febre, vómitos, diarreia, fraqueza intensa, dores, hemorragias ou historial de contacto com casos suspeitos", aponta Isabel de Santiago, alertando para um obstáculo adicional: os primeiros sinais podem confundir-se com os de doenças frequentes na região, como malária, febre tifoide e meningite.

  • Isolar doentes com eficácia
    Casos suspeitos ou confirmados devem ser acompanhados em unidades preparadas, com zonas de isolamento, equipamento de proteção individual, circuitos distintos de entrada e saída e gestão segura de resíduos, roupa e superfícies contaminadas, protegendo outros doentes, familiares e profissionais.

  • Cuidados de suporte
    "Sem tratamento aprovado não significa sem tratamento nenhum. Os cuidados de suporte podem salvar vidas", diz a docente, enumerando medidas como: hidratação oral ou intravenosa; controlo de eletrólitos; tratamento de choque e baixa pressão arterial; oxigénio quando necessário; tratamento de infeções associadas; controlo de sintomas; e nutrição (onde muitas vezes existe desnutrição crónica).

  • Rastreio de contactos durante 21 dias
    Como o período de incubação pode chegar aos 21 dias, cada contacto de risco com uma pessoa infetada "deve ser acompanhado diariamente". Devem ser incluídos familiares, profissionais de saúde, participantes em cuidados ou funerais e viajantes que tenham estado em contacto com casos. Se alguém desenvolver sintomas, deve ser isolado e submetido a teste. Também é crucial garantir enterros seguros e dignos, uma vez que "o corpo de uma pessoa falecida pode ter elevada carga viral".

  • Controlar deslocações
    Em territórios com elevada mobilidade transfronteiriça, as autoridades de saúde recomendam reforçar a vigilância, implementar rastreio em pontos de entrada, partilhar informação e assegurar coordenação entre países, para evitar que casos e contactos se desloquem sem acompanhamento.


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