O maior aeroporto do Canadá, tal como acontece há anos no maior aeroporto do Brasil, está a ser visado por redes criminosas: em Toronto, foi identificado um esquema de transporte de cocaína e de outras drogas.
No Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, os episódios já são do conhecimento público e das autoridades há bastante tempo e incluem tácticas como a tentativa de embarque com roubo da etiqueta de outras malas, o envio de bagagem sem etiqueta e, mais recentemente, a impressão em duplicado de uma etiqueta legítima. Em Toronto, por sua vez, este padrão de criminalidade vem a ocorrer desde o último ano.
Esquema no Aeroporto Internacional Pearson de Toronto
Numa investigação divulgada pela CTV News, foi apurado que pelo menos 17 cidadãos canadianos foram detidos nos últimos 12 meses ao desembarcarem no estrangeiro em voos com origem em Toronto. Em todos os casos existe um elemento comum: as malas associadas a esses passageiros estavam recheadas de droga.
As situações abrangem voos do Canadá para vários destinos, com destaque para Alemanha, França, Bermuda, Coreia do Sul, Marrocos, Filipinas e República Dominicana. Em muitos destes países, o tráfico internacional de estupefacientes pode ser punido com pena capital, isto é, o passageiro poderia ser condenado à morte.
Como funciona a troca de etiquetas de bagagem
Para que uma mala carregada com droga entre no avião, um trabalhador que actua no aeroporto - normalmente ligado ao carregamento da aeronave (handling) - remove a etiqueta de uma bagagem legítima registada no check-in e coloca-a numa mala cheia de droga, introduzida clandestinamente no perímetro aeroportuário.
Só no ano passado, a Polícia Montada do Canadá deteve seis funcionários do serviço de rampa do Aeroporto Internacional Pearson, em Toronto, suspeitos de participação no esquema de tráfico de droga.
Embora os 17 canadianos tenham acabado por ser libertados após se ter confirmado que a troca ocorreu em Toronto, muitos relatam o impacto emocional de terem sido detidos, interrogados e acusados de um crime que não cometeram. Um deles disse à CTV que os criminosos chegaram a colocar localizadores do tipo AirTag na mala carregada de droga.
Entre os exemplos citados, num dos casos foram encontrados 20 kg de metanfetamina numa bagagem cuja etiqueta tinha sido retirada de uma mala pertencente a uma canadiana de 35 anos que viajou para a Nova Zelândia. Noutro episódio, passageiros canadianos foram detidos ao chegar à República Dominicana com uma mala repleta de maconha, o que evidencia que os traficantes não se restringem a um único tipo de substância ilícita.
Falhas de segurança e credenciais na Transport Canada
Até agora, o governo canadiano não especificou que medidas estão a ser aplicadas para travar estes casos, nem esclareceu como é que uma mala consegue entrar num recinto aeroportuário sem ser inspeccionada. Esta falha expõe uma vulnerabilidade adicional: se entram drogas, também podem entrar armas e explosivos, o que facilita a preparação de um eventual ataque terrorista.
Numa outra investigação do mesmo canal, a CTV News indica que, mesmo depois de alertas de risco emitidos pelas próprias autoridades de segurança - no sentido de que certos trabalhadores com credencial aeroportuária, ou candidatos a obtê-la, estariam ligados ao crime organizado -, nada era feito para afastar essas pessoas do aeroporto, permitindo a continuação do tráfico.
Os próprios números da Transport Canada (TC), a entidade responsável pela aviação civil no país e equivalente à ANAC, mostram que 125 mil credenciais foram aprovadas entre 2020 e 2025 e que 7.500 delas tinham esse alerta de risco, mas ainda assim foram emitidas. A TC não apresentou pormenores sobre os motivos que levaram à aprovação nem sobre a natureza dos riscos sinalizados.
Como o passageiro se pode proteger
Entre as recomendações para reduzir a probabilidade de o passageiro se tornar vítima de traficantes está fotografar a mala no momento em que é colocada na passadeira de bagagens, garantindo que o número da etiqueta e o peso indicado na balança ficam visíveis. Essas imagens devem ser guardadas na nuvem, com metadados que incluam a hora, o local e o dispositivo em que foram captadas.
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