Se, como disse Kylian Mbappé em 2022, “o futebol mudou”, para o jornalista francês Sami Mouafik ele passou também a servir de linguagem para falar de um tempo que já não existe. Por isso, para a Copa do Mundo 2026, escolheu um formato pouco habitual: notas de voz publicadas nas redes para viver o torneio de outra forma, longe de “debates estéreis”, na tentativa de recuperar uma narrativa que sente ter-se perdido.
Em vez do comentário clássico, Mouafik optou por mensagens faladas para contar a Copa do Mundo 2026. No Instagram, apostou numa proximidade quase confessional: áudios muito pessoais, íntimos e com uma camada de nostalgia. Desde o arranque do maior evento de futebol do ano, organizado pela FIFA, o jornalista de 31 anos - com passagens por L’Equipe, Libération e RFI - tem lançado vários vídeos curtos, montados com excertos de jogos a passar numa televisão com estética dos anos 90.
Os dois vídeos com maior impacto - com 165 000 e 220 000 visualizações - deixam claro o propósito por trás destas notas de voz. Ao falar com o seu “mano” depois do Argentina–Argélia e do Portugal–Uzbequistão, Sami Mouafik afasta-se do pós-jogo para sublinhar aquilo que pode ser o verdadeiro peso desta Copa do Mundo: muito provavelmente, a última para duas lendas, Cristiano Ronaldo (41 anos) e Lionel Messi (39 anos).
O desenho sonoro também ajuda a vender a ideia. A voz surge tratada com compressão “à rádio”, para ganhar nitidez, mas mantém-se caseira e próxima, como se tivesse sido gravada no micro do telemóvel - a ponto de criar a ilusão de um áudio recebido de um amigo no WhatsApp. Por cima, entra uma música etérea em fundo. “Para de fazer essas vozes, dá-me vontade de chorar sempre! Vídeo magnífico, de qualquer maneira”, escreveu um utilizador.
“É estranho o que senti em frente à minha televisão”
Nesta série “Vocal Nocturno”, os maiores sucessos explicam-se menos pela análise e mais pelo que evocam: uma sensação, não um diagnóstico técnico pensado para puristas. Seja pelo avançado português, seja pelo argentino, 2026 mostra um futebol a atravessar uma mudança de era. “Percebi que aquilo que eu estava a ver não era só um jogador a envelhecer, era uma época a afastar-se”; a época de muitos franceses nascidos nos anos 90, que cresceram com estas referências do futebol.
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Depois do jogo de Portugal, Mouafik quis deixar marca ao falar de Ronaldo. “É estranho o que senti em frente à minha televisão. Fiquei contente por o ver uma última vez numa Copa do Mundo com o seu icónico ‘7’ nas costas e, ao mesmo tempo, fiquei um bocado triste de o ver ali. Quando admiras um jogador tão imenso como eu admirei, é bastante difícil vê-lo a este nível. Mas no fim… não será essa a maior força dele?”, dizia.
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No caso destas duas figuras - que somam 13 Bolas de Ouro entre os dois - o criador do canal Samos TV quis prestar homenagem, mas sem reduzir tudo a uma simples mensagem de despedida. Sobre Lionel Messi, exaltou a capacidade de “te oferecer um hat-trick assim, sem esforço. Tornou o irreal banal, o excepcional tão normal”. Já sobre Cristiano Ronaldo, “perguntei-me se era possível estragar uma lenda. Se as minhas últimas memórias dele iam acabar por esmagar as mais bonitas? E depois vi o olhar dele. Sempre o mesmo, há mais de 20 anos”.
“Olise, o sopro de frescura que ele traz”
Nem todos os episódios do “Vocal Nocturno” olham para trás. Um exemplo é a nota de voz dedicada a Michael Olise, da Seleção de França. Impressionado, Sami Mouafik afirmava: “é incrível o sopro de frescura que ele traz […] Tem tudo de jogador ultra-moderno, mas há um toque de elegância, de classe, que o coloca numa dimensão mais subtil. Não te estou a dizer que ele vai ganhar 8 Bolas de Ouro e 4 Ligas dos Campeões, estou só a falar de um tipo que faz bem ao futebol”.
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Ainda assim, para o jornalista, casos como o de Olise seriam cada vez menos comuns. Noutra nota de voz, desta vez sobre a seleção do Brasil, quis insistir nesse ponto. Para a Samos TV, o futebol moderno arrasta a época para uma espécie de declínio. Ao comparar o brilho da seleção sul-americana antes dos anos 2000 com o magnetismo recente de Neymar, Mouafik criticava um jogo contemporâneo que terá substituído uma prática “sem cálculo, guiada pela despreocupação, pelos dribles e por um toque de loucura”.
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“De tanto querer que tudo seja grande, já nada o é de verdade”
Com a Copa do Mundo 2026, a Samos TV pode ter encontrado o contexto certo para reacender a chama - mas por outro caminho. A ambição, aqui, passa por salvar a narrativa do futebol e, ao mesmo tempo, denunciar os desvios do presente. Tal como na sua última série de visitas a clubes em vários países, que já queria contar “de forma diferente”, o “Vocal Nocturno” serve para chegar a um público mais vasto e puxá-lo para a ideia de um futebol mais emocional e instintivo, aliviado do peso da cobertura mediática.
“Eu nunca me senti tão afastado da minha paixão. Sinto-me vazio, como os jogadores e os seus 70 jogos acumulados. Nunca houve tantos jogos, tantas competições. Vendem-nos grandes cartazes excepcionais todas as semanas, desafios loucos todos os fins-de-semana. De tanto querer que tudo seja grande, já nada o é de verdade. As nossas emoções diluem-se, apagam-se. Mas o futebol ainda existe, algures, sufocado sob toneladas de conteúdos, de cartazes excepcionais e de debates estéreis”, desabafava ele, a 18 de dezembro.
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