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Antevisão de One Piece Odyssey: um JRPG por turnos cheio de energia

Personagens de anime em pose de batalha numa praia com blocos flutuantes e ícones coloridos no céu.

Terminei este ano o arco de Arlong Park no anime One Piece e, entretanto, fiz uma pausa para ver outras séries que tinha em lista e avançar em alguns jogos que queria finalmente acabar. Ou seja: entrei numa sessão de antevisão jogável de One Piece Odyssey com apenas uma pitada de conhecimento do universo, sabendo que ainda me faltam mais de 1000 episódios para ficar a par.

Depois de cerca de duas horas com Odyssey, fiquei com vontade de voltar já ao anime - e esse é, honestamente, o melhor elogio que lhe posso fazer. E ajuda o facto de o jogo se estar a revelar um JRPG muito sólido, com sistemas próprios que tanto simplificam a vida a quem não está habituado ao género como tornam os combates mais vivos para quem já é fã.

One Piece Odyssey também funciona para quem não domina One Piece

Cheguei a esta antevisão com receio de me perder por não conhecer bem a série, mas em One Piece Odyssey nota-se que a equipa fez questão de construir um RPG pensado para todo o tipo de jogadores, e não apenas para fãs de One Piece.

Os registos do jogo vão preenchendo lacunas para pessoas como eu. Quando chego a Nanohana, em Alabasta, essas entradas ajudam-me a perceber a relevância do local. E ainda bem que não contam toda a história do arco de Alabasta: o jogo dá informação suficiente para contextualizar, sem me estragar o que ainda não vi. Muitos jogos baseados em anime caem no erro de recontar as histórias do material de origem - e, por norma, sem o mesmo impacto. Aqui, isso não acontece: Odyssey usa arcos conhecidos como base para criar histórias novas em cenários familiares, em vez de repetir episódios que os fãs já adoram.

Isso percebe-se assim que a tripulação do Chapéu de Palha chega à cidade desértica de Alabasta. O grupo - o capitão Monkey D. Luffy, Brook, Franky, Roronoa Zoro, Vinsmoke Sanji, Nami, Nico Robin, Usopp e Tony Tony Chopper - reconhece imediatamente as aventuras que viveu ali. Conversam sobre experiências passadas, o Luffy comenta o quanto gosta do restaurante Spice Bean, e por aí fora. Tudo isto encaixa no que One Piece tem feito ao longo dos anos, e a nova aventura apoia-se nessa memória.

Combate por turnos com áreas, vantagens e Cenas Dinâmicas

Antes de Alabasta, o jogo monta um cenário bastante caótico para a tripulação e para o navio Thousand Sunny. Numa cinemática, uma tempestade violentíssima empurra o navio para fora de rota e acaba por o atirar contra a costa de uma ilha misteriosa. O naufrágio separa o grupo e eu fico a controlar o Luffy enquanto tento reencontrar toda a gente. É também aqui que Odyssey me apresenta o seu sistema de combate - chamativo, divertido e, surpreendentemente, mais profundo do que parece à primeira vista.

Nesta fase, toda a equipa está no nível 40, para mostrar a sua força enquanto piratas. Cada personagem tem quase uma dúzia de habilidades disponíveis, incluindo as várias técnicas de Gum do Luffy. Na base, continua a ser um RPG por turnos, e quem conhece o género percebe rapidamente o essencial. Mas, ao olhar com mais atenção, encontrei mecânicas que lembram Pokémon e uma forma de apresentar cenas e menus que faz pensar na série Persona.

Os confrontos acontecem num sistema em que os inimigos ficam distribuídos por zonas no campo de batalha, consoante a posição. O Luffy pode ter dois adversários mesmo à sua frente, enquanto o Sanji pode ficar sem ninguém na sua área - mas, graças a golpes de longo alcance, consegue atacar os alvos que estão com o Luffy. A Nami tanto pode ignorar os inimigos mais próximos para apoiar o Luffy, como optar por se focar nos que tem à frente. E vale a pena estar atento a todos, não só porque podem atacar de diferentes posições, mas também porque cada inimigo tem forças e fraquezas determinadas por um esquema ao estilo “pedra-papel-tesoura”, muito à Pokémon.

Personagens e inimigos do tipo Força - e os ataques de Força - são eficazes contra Velocidade; Velocidade é forte contra Técnica; e Técnica funciona melhor contra Força. O jogo assinala a eficácia com setas vermelhas para cima quando um golpe é particularmente eficaz, e com setas azuis para baixo quando a opção escolhida não é a melhor. Algumas acções aplicam ainda efeitos de estado, como paralisia, sangramento e desmaio, que deixa o inimigo inconsciente durante algum tempo. As habilidades (com movimentos que fãs do manga e do anime irão reconhecer) consomem Pontos de Tensão, mas um golpe super eficaz pode render Pontos de Tensão suficientes para permitir outra habilidade, caso eles se gastem mais depressa do que o esperado.

O sistema ganha ainda mais dinâmica com as Cenas Dinâmicas, objectivos que certas batalhas apresentam logo no início. Numa situação da história, os inimigos apanham o Usopp de surpresa e deixam-no paralisado; a Cena Dinâmica obriga-me a derrotar os adversários antes que eles consigam derrotar o Usopp, que não se consegue mexer para atacar, defender-se ou sequer reagir. Como os inimigos se concentram quase sempre nele, tenho mesmo de agir depressa. E completar estas Cenas dá experiência e recompensas extra, o que faz com que pareça sempre valer a pena tentar.

No conjunto, isto resulta num combate muito enérgico, que me prendeu ainda a meio do primeiro encontro. É rápido, fácil de ler e inclui pequenos ajustes - como trocar membros da equipa a qualquer momento, sem custo - que tornam a acção mais agitada e estimulante, de uma forma que deverá manter interessados os recém-chegados ao género. A interface e os menus, sobretudo na apresentação, também parecem beber de Persona: Odyssey é muito apelativo visualmente. Cada movimento tem animações bem conseguidas e cheias de dinamismo, e os menus destacam-se pela cor e pelo estilo. Até o ecrã de resumo após o combate faz lembrar Persona 5, com as personagens a surgirem de forma estilizada enquanto toca uma música cativante a marcar a vitória.

Música, exploração em Waford e o Mundo das Memórias

A música merece destaque: para mim, foi talvez o ponto mais forte desta antevisão. Soa aventureira, pirata, e exactamente como se espera de One Piece. Também não surpreende: a banda sonora é composta por Motoi Sakuraba, conhecido por Dark Souls e com créditos nas séries Tales e Super Smash Bros.. O que ouvi em Odyssey até agora afasta-se bastante do que associo a Sakuraba em Dark Souls, mas consegue envolver tudo com o mesmo sentido de aventura que a música do anime transmite. Fiquei com curiosidade para ouvir o resto.

Os momentos iniciais servem para ensinar o combate; pouco depois, o jogo deixa-me explorar as zonas de arranque dessa ilha misteriosa, que a Robin identifica como Waford - um lugar novo neste universo. Como a tripulação nunca lá esteve (e apenas a Robin já tinha ouvido falar dele), o ambiente fica naturalmente envolto em mistério. A ilha está cheia de relíquias e artefactos estranhos, cobertos por símbolos de aspecto antigo.

Rapidamente descubro que esses elementos se ligam a uma personagem inédita criada por Eiichiro Oda, o autor de One Piece, chamada Lim. A Lim aparece pouco antes de surgir Adio, outra nova criação de Oda. Ao concluir que os Chapéus de Palha são piratas, e antes sequer de haver apresentações, a Lim usa um poder invulgar: retira as habilidades e a força da tripulação e transforma-as em cubos, que depois espalha misteriosamente pelo mundo.

De repente, as personagens confortavelmente no nível 40 - com as quais eu esmagava inimigos - passam para o nível 2, e as técnicas mais fortes desaparecem. Fico limitado a ataques básicos, e não consegui evitar rir ao ver inimigos que antes recebiam centenas de pontos de dano passarem a levar apenas algumas dezenas.

É uma reviravolta divertida naquele clássico problema dos RPG - “como é que tornamos um grupo forte subitamente fraco?” - e gosto de ver isso integrado directamente na narrativa. Também torna a recolha desses cubos (o centro da história) mais apelativa, porque cada missão bem-sucedida pode significar ganhar um novo cubo e, com ele, recuperar parte das capacidades e da força anteriores.

Para encontrar mais cubos, tenho de explorar o Mundo das Memórias. Não cheguei a ver em detalhe como funciona, mas parece ser uma espécie de portal que transporta para locais célebres da história de One Piece, como a já referida Alabasta.

A Lim retira os poderes aos Chapéus de Palha por achar que são piratas criminosos - o tipo de piratas com quem ela tem problemas - mas rapidamente percebe que são piratas “bons” e arrepende-se do que fez. É então que lhes explica o que precisam de fazer para voltarem ao que eram. E é aqui que entra o Mundo das Memórias.

Em Alabasta, faço tarefas bastante tradicionais: derrotar um inimigo que guarda um objecto de missão e devolvê-lo a alguém; reunir ingredientes para o cozinheiro Sanji preparar uma sopa saborosa para um habitante local; e outras actividades do género. Os objectivos em si não são os mais entusiasmantes, mas o mundo de Odyssey está tão bem renderizado que se torna fácil seguir em frente. Além disso, poder controlar diferentes membros da tripulação em momentos distintos ajuda a manter o ritmo interessante. É provável que alguns jogadores não apreciem a opção por um jogo em 3D, mas para mim funciona - tal como o estilo visual, estranho mas acolhedor, com um toque quase pictórico. E, pelo menos nesta sessão, correu bem.

O conteúdo secundário não parece estar a reinventar nada, embora eu admita que só lhe tenha tocado de leve durante o tempo disponível. Ainda assim, não preciso que seja revolucionário - e o mesmo vale para o caminho principal. Odyssey é o primeiro RPG por turnos de One Piece com esta ambição e escala, e afasta-se do molde habitual dos jogos de anime que tendem a apostar em luta 2D, luta 3D ou acção. Só isso já sabe bem.

Mesmo com o meu conhecimento relativamente limitado de One Piece, é fácil perceber o cuidado que a ILCA teve ao levar esta série para o território dos RPG. Se vai ser um sucesso junto da comunidade, ainda está por ver, tal como o grau de fidelidade de Odyssey à identidade de One Piece enquanto marca. Mas, se estas duas horas significarem alguma coisa, é que One Piece Odyssey está a caminho de ser um JRPG diferente e entusiasmante - e um jogo a seguir com atenção, seja-se fã de One Piece ou não.

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