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Festas de São Pedro da Afurada: romaria em Gaia de 23 de junho a 6 de julho

Pessoas a celebrar numa rua com músicos e andores em festa tradicional com bandeirolas e lanternas coloridas.

"O São Pedro é baile, os nossos fados, homenagear os pescadores e celebrar a nossa terra". A frase encaixa como uma luva na romaria mais simbólica da Afurada, em Vila Nova de Gaia, que arranca na terça-feira e se prolonga até 6 de julho. As montagens têm avançado devagar, mas com a minúcia de quem já conhece, de cor, cada tarefa.

Quem passa pela freguesia percebe que, nas últimas semanas, a conversa e a atenção dos moradores gravitam em torno das festas, que nas próximas duas semanas deverão atrair milhares de visitantes. Chegam as sardinhas, as ruas ganham enfeites e os carrosséis começam a erguer-se. São elementos incontornáveis em qualquer edição, sempre com a intenção de não deixar cair a tradição.

Ver tudo à porta de casa

Na Afurada, há quem acompanhe os preparativos do melhor camarote possível: a própria entrada de casa. Foi assim com a família Campota, a apanhar sol à porta, com uma mesa por perto onde não faltavam chouriço, pão e cerveja.

"Somos uma comunidade muito unida e muito forte. Por isso, é importante que não percamos a nossa essência, porque é isso que nos caracteriza", explicou Graça Campota, com brilho nos olhos. Ainda que admita a desilusão por sentir que "a festa já não tem o mesmo apoio financeiro que tinha" e por ver no cartaz musical ritmos novos e diferentes do habitual, a família assegura que fará a sua parte para tornar a freguesia mais bonita.

Quando o JN passou pela Afurada, a preparação ainda estava numa fase mais contemplativa, mas Manuel, de 77 anos, já tinha o plano traçado. "Mais uns dias e vou enfeitar a minha varanda", garantiu o morador, nascido e criado na freguesia. Assim que a festa começar, explicou, as varandas das ruas estreitas encher-se-ão de peças decorativas feitas pelos próprios habitantes. Para honrar o papel dos pescadores na vida local, os enfeites serão quase todos dedicados a essa arte e ao mar, com "lemes, redes ou boias".

E, mesmo em tempo de romaria, há espaço para a rivalidade futebolística - sempre na brincadeira. " O meu pai é do Benfica e o nosso vizinho é do Porto. Embora a nossa varanda esteja mais bonita, prefiro a cor utilizada pelo vizinho, porque é azul", atirou Graça, filha de Manuel Campota.

Um pouco mais acima, junto à rua onde os carrosséis estão a ser instalados - e que será uma das artérias centrais das festividades - Ricardo Oliveira vigiava o grelhador. Natural da Afurada, diz-se satisfeito com a mudança da freguesia, que considera ter ficado "mais aberta aos forasteiros", algo que, na sua perspetiva, também ajudou a festa.

"O São Pedro é o apogeu do nosso ano. A tradição ainda se mantém, apesar de algumas pessoas terem saído da Afurada devido à valorização das casas", contextualizou Ricardo. O funcionário da Taberna de São Pedro, de 42 anos, sublinha sinais distintivos que, para si, diferenciam esta romaria de outras. "Se passar por aqui, vê as portas abertas, o que já não é usual, e as pessoas convidam-no a entrar. Com sorte, ainda se senta, come e bebe", relatou ao JN.

Procissão sem igual

A dimensão religiosa é outro pilar do São Pedro da Afurada. "A nossa procissão não tem igual. Temos andores muito bem enfeitados, sempre com gente da terra a carregar. Pais, filhos, netos e sobrinhos, é uma tradição que vai passando de geração em geração", realçou, antes de deixar o convite. "Visitem a Afurada, que a Afurada é linda", clama Ricardo.

A poucos dias da maior festa "que Gaia tem, à exceção do São João", Eduardo Matos, presidente da Junta de Freguesia, disse estar satisfeito com a forma como a organização decorreu. "Eu nasci e cresci aqui e, para nós, afuradenses, estas festas são algo de único. Diria mesmo que está no sangue das nossas gentes", afirmou o autarca, apontando o fogo de artifício e a procissão como os pontos mais altos.

Assumindo o peso imaterial que o São Pedro tem para a comunidade, Eduardo Matos reconhece que, do ponto de vista económico, já não representa o mesmo que representava - e lê isso como sinal de evolução da freguesia. "O São Pedro da Afurada continua a ter uma importância brutal. No entanto, felizmente, hoje é apenas mais uma das atividades da nossa freguesia e não a única atividade. Embora seja muito importante e sejam duas semanas de muito trabalho, a Afurada já tem muita procura, principalmente pela nossa restauração".

Malhoa, Diapasão, fado e samba

Música para diferentes preferências, um programa de atividades e a preocupação ambiental estruturam as festas de São Pedro da Afurada (Gaia), que decorrem entre 23 de junho e 6 de julho. O arranque acontece na terça-feira, embalado pela celebração do São João.

Sob o lema "Afurada, simples na origem, gigante na tradição", serão duas semanas de música popular, folclore, fado, marchas, procissão e fogo de artifício. O palco começa a ganhar vida às 15 horas do dia 26, com o hastear das bandeiras. À noite, o primeiro nome a atuar na edição de 2026 é o DJ Picota, que antecede artistas bem conhecidos: José Malhoa (29 de junho, às 22 horas), Sandra Correia (30, às 21 horas), Némanus (2 de julho, às 22 horas), uma noite dedicada a ritmos brasileiros - com samba e música sertaneja (dia 4) - e Diapasão (5, às 22 horas).

A vertente religiosa terá, igualmente, grande destaque. No dia 29 de junho está marcada uma missa solene em honra do santo padroeiro (18.30 horas), mas o momento principal será a 5 de julho. Para lá da missa de festa, agendada para as 10 horas, sai à rua a majestosa procissão, a partir das 16 horas. Já a 6 de julho, à meia-noite, cumpre-se a tradicional saudação dos pescadores a São Pedro.

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