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Haret Hreik, Beirute: no bastião do Hezbollah após ataque de Israel

Mulher coloca flores em memorial com fotos em rua de bairro urbano ao entardecer.

O JN esteve na quarta-feira no bairro visado por Israel e falou com um dos principais responsáveis do Hezbollah. No centro dos subúrbios de Beirute, nota-se sem esforço o apoio popular à organização xiita: cartazes, bandeiras e faixas tingem as ruas de amarelo, a cor de quem afirma combater para defender a sua terra do “inimigo israelita”.

No cemitério dos mártires da resistência: luto e orgulho

Em Haret Hreik, no chamado cemitério dos mártires da resistência, Abu Hassan ajoelha-se junto a uma das muitas sepulturas e passa os dedos pela fotografia dos dois filhos. Um morreu em combate em 2008; o outro foi morto num ataque de Israel em 2024. Ambos eram combatentes do Hezbollah. “Esforcei-me muito para os criar e para os conduzir à resistência. Também faço parte da resistência e não tenho vergonha disso. Pelo contrário, sinto-me honrado e orgulhoso”, diz. “Lutamos contra o inimigo israelita e contra os americanos também”, acrescenta, a sorrir.

Confrontado com a acusação de que o Hezbollah é uma organização terrorista, responde que “são eles” - Israel e os Estados Unidos - quem vai matar o seu povo e arrasar a sua terra. “Ocuparam a Palestina e agora querem expandir-se e tomar o Líbano, a Síria, o Iraque, até chegarem ao Irão. Não vão conseguir. Aconteça o que acontecer, continuaremos a lutar, mesmo que seja com as nossas vidas. Até ao último momento, até à última gota de sangue”.

Nas imediações encontra-se também Hadi Nasrallah, igualmente morto em combate, filho do histórico líder do Hezbollah, que, após ter sido morto num ataque aéreo de Israel neste bairro, esteve aqui provisoriamente sepultado.

Haret Hreik, o bastião do Hezbollah

Dahiyeh em guerra: destruição à vista, vida a continuar

Em períodos de paz, Dahiyeh - a periferia da capital libanesa - acolhe cerca de meio milhão de pessoas e é uma zona onde o Hezbollah mantém forte apoio popular. Destas, 100 mil vivem em Haret Hreik, bairro repetidamente atingido por ataques de Israel. Agora, em contexto de guerra, muitos edifícios exibem sinais claros dos bombardeamentos. Ainda assim, apesar do cenário de grande destruição, o quotidiano não desaparece: há lojas abertas por todo o lado e o trânsito caótico de Beirute também atravessa esta área da periferia.

Ghaleb Abu Zainab, dirigente do Hezbollah, contempla os escombros de um prédio onde vivia parte da sua família e que ficou reduzido a nada sob as bombas israelitas. Ao JN, acusa Israel e os Estados Unidos de “querem que a região caia nas suas mãos”.

“Resistência” e cessar-fogo: a leitura do Hezbollah

Mesmo perante estes golpes, assegura que a “resistência” permanece “forte” e que se está a preparar para a “batalha definitiva”, insistindo que o país pertence aos libaneses. “Conhecemos cada palmo de terra no Sul do Líbano e é por isso que os nossos rapazes se movimentam com facilidade. Estamos a apostar no fortalecimento da resistência e no preço que o inimigo pagará por ocupar qualquer parte do Líbano. Portanto, não há escolha a não ser retirar-se desta terra, seja agora ou num futuro próximo”.

Na perspetiva deste responsável do Hezbollah, o cessar-fogo assinado resultou do “esforço iraniano”, que terá obrigado Israel a aceitar uma trégua que não pretendia, e denuncia ainda que Telavive viola o acordo diariamente.

Enquanto fixa o edifício destruído, admite guardar ali muitas recordações. “Aqui vivia parte da minha família. Fui criado nesta zona. Quando chegámos aqui, há muito tempo, a maior parte desta zona ainda era um pomar”, lembra. Hoje, sempre que volta ao local, diz sentir uma mistura de emoções, por ter perdido esse património afetivo.

"Este é o efeito da agressão israelita. É isto que faz, desloca as pessoas à força. Mas não sabem que isto aumenta a força da presença das pessoas. Quanto aos meus sentimentos pessoais, sinto-me triste por tudo. Pelas paredes, pelas portas, pelas memórias. Estavam em todos os recantos da casa. Mas não apenas aqui. Sou de uma aldeia do sul, que foi completamente arrasada. Lá não há uma única casa de pé. Querem controlar o nosso país e criar novas memórias, as suas. Apesar desta destruição, acabaremos por reconstruir e preservar as nossas memórias. Talvez daqui a um ou dois anos, quando nos voltar a visitar, a situação será diferente. Vamos colocar uma parte da nossa alma nestas casas. Para vivermos com dignidade. Longe do inimigo israelita."

Três mísseis e um prédio de 10 andares destruído

No mesmo dia da visita do JN a Haret Hreik, as forças israelitas dispararam três mísseis contra o bairro a partir de um navio ao largo do Líbano. O alvo foi um edifício de 10 andares, que ficou destruído, junto a uma escola.

Este ataque foi a primeira violação do cessar-fogo em Beirute após várias semanas de calma, apesar das violações diárias atribuídas a Israel no sul do Líbano. O objetivo seria matar o líder das unidades de elite do Hezbollah, as forças Radwan, que têm causado dificuldades na fronteira à invasão israelita. Do ataque resultaram duas mortes e cerca de 20 feridos. Milhares voltaram a abandonar o bairro, procurando abrigo no centro de Beirute.

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