Parece haver cada vez menos foguetões de bolso disponíveis no mercado e, infelizmente, tudo indica que os próximos anos não lhes serão favoráveis: dentro de pouco tempo, provavelmente chegarão os dedos de uma mão para os contar.
A explicação é conhecida: a «febre» dos SUV/crossover domina, está em curso uma mudança profunda na forma como encaramos a mobilidade e as próprias marcas, depois de fazerem «contas à vida», optaram por elevar o posicionamento das gamas (e os preços) para garantirem rentabilidade.
Ainda assim, hoje (à data de publicação deste artigo) continua a existir uma oferta interessante, embora curta: desde o mais comedido Volkswagen Up! GTI, passando por uma das várias versões do Abarth 595, até ao Suzuki Swift Sport.
Num patamar acima em potência - mais de 200 cv - e também em «seriedade», surgem propostas como o MINI Cooper S e o JCW, o Volkswagen Polo GTI e os muito aplaudidos Hyundai i20 N e Ford Fiesta ST.
E não, o Toyota GR Yaris não foi esquecido. Simplesmente não o encaro como um foguetão de bolso: entre a performance esmagadora, o preço de «arregalar os olhos» e a transformação radical face ao modelo base, acaba por ser um «animal» à parte no meio dos restantes - continua a ser um «monstro» de hatch desportivo e, mais do que isso, um desportivo «a sério».
A receita
«Sou do tempo» em que, ao falar de foguetões de bolso - um subgrupo dos hatch desportivos -, falávamos de carros relativamente simples e modestos, capazes de juntar mais desempenho e (principalmente) atitude, mantendo custos muito contidos (tanto na compra como na utilização). Até os exemplos que referi acima dos 200 cv já parecem pertencer a outro campeonato.
Por isso, ao juntar este conjunto de foguetões de bolso da primeira década (até 2010) deste séc. XXI, optei por me focar nas propostas com até (modestos) 150 cv, deixando de fora muitos outros - nesta primeira década, o número de pequenos hatch desportivos entre 150 cv e 200 cv «explodiu». Fica para outra altura, num novo artigo.
Up! GTI, 595, Swift Sport, Fiesta ST: conheçam os antecessores
Começamos pelos antepassados dos foguetões de bolso que ainda hoje se podem comprar: Volkswagen Lupo GTI, Abarth 500 e Suzuki Swift Sport.
O Lupo GTI, com um quatro cilindros atmosférico de 1,6 l e 125 cv, foi visto na época (quando apareceu, em 2000) como uma espécie de herdeiro espiritual do primeiro Golf GTI.
E, ao que parece, cumpriu: fez quase esquecer a existência de um Polo GTI com o mesmo motor - e nem o Polo GTI seguinte, lançado em 2006, muito colado à imagem do excelente Golf GTI V e agora com um 1.8 Turbo mais forte, mas (modestos) 150 cv, conseguiu convencer.
O «eterno» Abarth 500, apresentado em 2008, continua a ser vendido (sob as designações 595 e 695). A fórmula, porém, pouco mudou: à frente está um 1.4 Turbo - «coração veterano» e o último sobrevivente da família FIRE - que começou com 135 cv (e chegou aos 190 cv).
Pede uma estrada tão lisa como uma mesa de bilhar para brilhar e a posição de condução dificilmente agrada, mas é uma pequena bomba de carácter e diversão, muito por mérito do motor - talvez o turbo mais sonoro e mais cativante a «puxar» neste nível.
O Suzuki Swift Sport tem sido outra presença constante - em três gerações - e um nome marcante entre os foguetões de bolso desde 2006.
A primeira versão trazia um 1,6 l atmosférico de 125 cv, com fama… e proveito de ser «à prova de bala» - algo que posso confirmar, porque há quase 10 anos é o meu «bólide» do dia a dia.
É um carro bastante firme, mas retribui com um chassis leve e comunicativo e, três gerações depois, continua no mercado. Hoje recorre a um 1.4 Turbo - infelizmente, sem a mesma «garra» mecânica dos antecessores…
Já que falamos na Suzuki, há que mencionar obrigatoriamente o Ignis Sport (2003), o foguetão de bolso que abriu caminho ao Swift Sport. Não é tão conhecido, mas merece estar neste grupo: os genes que fizeram do Swift Sport o que é «nasceram» no Ignis Sport.
Quando passamos para o grupo seguinte, já foi referido o Volkswagen Polo GTI e, no caso do i20 N, trata-se do primeiro do género na Hyundai nesta classe - logo, não tem antecessor.
Quanto aos MINI, os primeiros Cooper S, por terem 163 cv, já ultrapassam o limite auto-imposto de 150 cv para esta lista. Mas o primeiro Ford Fiesta ST de sempre, lançado em 2005, ainda pode entrar.
Antes de se tornar a referência entre os pequenos hatch desportivos, o primeiro Fiesta ST foi, acima de tudo, discreto. Usava um 2,0 l atmosférico de 150 cv e, apesar das qualidades dinâmicas, já não tinha «pulmão» para acompanhar os rivais.
Abaixo do Fiesta ST, existia o SportKa, a versão mais aguerrida do pequeno citadino da Ford. O simples 1600 tinha apenas 95 cv, mas, tal como o «irmão» maior, compensava com um chassis excelente - o adversário ideal para o próximo e pouco comum foguetão de bolso.
Vindo de Itália e nunca - incompreensivelmente - vendido em Portugal, o Fiat Panda 100HP ganhou muitos adeptos por toda a Europa, graças a uma combinação muito apelativa de atributos.
Esses atributos iam desde o visual mais robusto, ao 1,4 l atmosférico e irrequieto de 100 cv, passando por uma postura dinâmica bastante viva - e também com fama de «partir» costas de tão firme que era…
Até o «monstro» GR Yaris teve antepassados… modestos. O Toyota Yaris 1.5 TS, de 2001, foi o primeiro Yaris com genes desportivos e, com somente 106 cv, não podia estar mais longe em performance do seu sucessor mais recente.
Dito isto, mesmo sem ter conquistado tantos fãs como alguns dos foguetões de bolso já referidos, era elogiado pelo motor voluntarioso, pela leveza e por uma condução envolvente.
Houve quem visse ali mais margem e, apenas na Suíça, o Yaris TS recebeu um turbo e passou para 150 cv - muito mais promissor, não?
E onde andam os franceses?
Sim: hoje, para grande tristeza de quem vive os automóveis com paixão, já não há foguetões de bolso franceses - e os hatch desportivos de segmentos acima, vindos de França, também quase desapareceram -, mas nos anos 90 e durante a primeira década deste século a variedade era grande e alguns eram o derradeiro «alvo a abater».
E se nesta primeira lista não podemos colocar “a” referência da época, o Renault Clio R.S., porque há muito ultrapassava a fasquia dos 150 cv, a Renault Sport ofereceu-nos, como porta de entrada, um brilhante Twingo R.S., lançado em 2008.
O Twingo R.S. apareceu na segunda geração do citadino e não veio para fazer figura de corpo presente. Leve e com um estridente quatro cilindros atmosférico de 1,6 l e 133 cv, depressa se tornou favorito, também graças ao seu chassis magnífico (derivado da segunda geração do Clio).
Saltando para a arquirrival Peugeot, o cenário foi diferente: depois de uma década de 90 repleta de modelos memoráveis, parece ter perdido o rumo na primeira década do séc. XXI.
Os enfants terribles 106 GTI e Rallye saíram de cena em 2003, mas os Peugeot 206 e 207 nunca preencheram devidamente esse vazio… Do 206 S16 e do especial de homologação GT com 136 cv, até aos mais potentes 206 RC e 207 RC, ficaram sempre uns «furos abaixo» dos rivais.
Também a Citroën revelou dificuldades em dar continuidade ao Saxo Cup.
O C2 VTS, lançado em 2004, era mais sólido e mais seguro, mas acabou por perder muita da efervescência do antecessor - também por culpa de mais 100 kg -, embora continuasse a usar o mesmo motor (ainda que evoluído), agora com 125 cv.
Ainda não acabou
Como já se percebeu, a primeira década do séc. XXI «mimou-nos» com propostas muito variadas que acrescentavam carácter, desempenho e prazer de condução, sem obrigar a «rebentar» a carteira.
Houve até espaço para um foguetão de bolso em formato monovolume: o Mitsubishi Colt CZT (2005), que após a sua reestilização passaria a adotar a designação Ralliart (2008).
Não se deixem enganar pela carroçaria - começou por ser lançado numa versão mais apelativa de três portas, mas também existiu como cinco portas.
A combinação de um motor turbo agressivo de 150 cv com um chassis «danado» para a brincadeira foi uma das boas surpresas da década, mesmo sem atingir a notoriedade de outros nomes da classe.
Mais discreto era o compatriota Nissan Micra 160SR, de 2005. A designação podia induzir em erro: 160 não apontava para a potência, mas para a cilindrada de 1,6 l.
Ainda assim, apesar dos modestos 110 cv, tal como o Yaris TS, compensava com um motor suficientemente nervoso e um chassis muito competente e interessante de explorar.
Foguetões de bolso… Diesel?
A febre Diesel que varreu a Europa nesta primeira década do séc. XXI teria inevitavelmente de chegar aos foguetões de bolso e a outros hatch desportivos. Podemos considerá-los verdadeiros foguetões de bolso e hatch desportivos? - o debate continua aceso após estes anos todos…
O certo é que não faltaram tentativas para colocar motores Diesel nestes pequenos desportivos, e o Grupo Volkswagen foi quem apostou mais forte.
Em Portugal, o fenómeno começou ainda nos anos 90 com o chamado SEAT Ibiza GT TDI. A história prolongou-se na geração seguinte (a terceira, lançada em 2002), sob a forma do Ibiza FR 1.9 TDI de 130 cv - e existiu ainda um CUPRA TDI mais radical, com 160 cv. Havia, no entanto, um FR a gasolina, com o mesmo 1.8 Turbo de 150 cv do Polo GTI.
Também a Skoda não resistiu a testar esta receita de foguetão de bolso a gasóleo, lançando em 2003 o Fabia RS TDI, equipado com o mesmo 1.9 TDI de 130 cv do Ibiza.
As críticas a esta curiosa proposta checa foram muito positivas, em parte graças a um chassis muito bem afinado. Já na geração seguinte, porém, o Fabia RS (2010) virou costas ao Diesel e passou a usar o 1.4 TSI de 180 cv - houve quem lamentasse a perda…
Mais «morno» que «quente»
Para terminar, fica uma lista de modelos que nem sempre são fáceis de «encaixar» numa categoria específica. Normalmente não são vistos como hatch desportivos e, por isso, também não os podemos chamar de foguetões de bolso.
Regra geral, são versões um patamar abaixo das mais «picantes» e podem até apresentar valores de potência e prestações muito interessantes - por vezes superiores aos de alguns dos modelos referidos acima -, mas acabam por ser mais carros rápidos do que máquinas para conduzir com a «faca nos dentes».
Como seria de esperar, os britânicos inventaram uma designação para isto. Depois de hatch desportivo e foguetão de bolso, criaram o termo hatch «morno». Em vez de desportivos “quentes” (hot), estes são apenas “mornos” (warm).
Já referimos alguns acima, como os Peugeot 206 S16 e GT, mas aqui fica mais uma «fornada»:
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