Resultados, contexto geopolítico e planos de contingência
Em 2025 o grupo regressou aos lucros. Como está a ser 2026? A guerra no Médio Oriente já se faz sentir?
Por questões regulatórias, não me é possível comentar os nossos números deste ano. Ainda assim, de forma geral, o mercado publicitário não tem mostrado um impacto direto destes acontecimentos geopolíticos, e podem existir várias explicações para isso. Portugal, felizmente, não está no centro da tempestade e, por essa razão, não se tem notado um efeito relevante no investimento publicitário.
Dito isto, temos planos de contingência a ser trabalhados internamente, precisamente para o caso de ocorrerem quebras de receitas ou aumentos significativos nos custos de energia. Infelizmente, a última década trouxe-nos de tudo um pouco: a pandemia de covid-19, o ataque informático e a guerra na Ucrânia foram três episódios particularmente difíceis.
Eficiência e redução estrutural de custos na Impresa
Ainda existe espaço para cortar custos?
Sim. Está em curso um plano que arrancou no ano passado e se estende até ao final de 2028, assente em três frentes principais: conteúdos, serviços gerais e administrativos, e operações e tecnologia.
A meta é sermos tão eficientes quanto possível - algo que sempre orientou o grupo desde que aqui trabalho -, mas, desta vez, fomos mais longe e optámos por recorrer a um consultor externo, com o objetivo de mapear oportunidades de redução estrutural de custos nestas três áreas. No primeiro ano, 2025, não só atingimos como excedemos a meta em mais de €1,5 milhões. E a intenção é manter esse ritmo.
Trust in News e as declarações de Luís Delgado
A Impresa vendeu as revistas em 2018 à Trust in News, de Luís Delgado, mas continua com montantes por receber devido à insolvência do grupo. Ainda acredita que esse dinheiro possa ser recuperado?
Não temos acesso a informação detalhada sobre o que se passou na Trust in News. Conhecemos apenas o que é público: uma deterioração muito acentuada dos resultados, que acabou por conduzir ao processo de insolvência. Nós somos parte interessada - para não dizer diretamente afetada - e teremos de aguardar para perceber o que o tribunal irá decidir.
Luís Delgado afirmou que não comprou aquilo que pensava estar a comprar. Como interpretou essas declarações?
Temos a consciência tranquila. Não vendemos gato por lebre, nem as revistas, nem nada. Se aquele comprador não fez o seu trabalho, é perguntar ao comprador.
Direitos desportivos: oportunidades, FIFA e a entrada do YouTube
O futebol é um ativo muito disputado. A Media Capital tem direitos de transmissão de jogos do Moreirense e a RTP transmitiu jogos da Taça de Portugal. A Impresa não entra nesse jogo. Não quer entrar?
A Impresa participa quando identifica oportunidades que façam sentido do ponto de vista do negócio. Neste caso, entendemos que não eram oportunidades atrativas e, por isso, optámos por não avançar.
O CEO da Media Capital criticou o preço pedido pela FIFA pelos direitos do Mundial de Futebol. A SIC continua a avaliar a possibilidade de transmitir alguns jogos?
Sim. O que está em discussão é um montante muito elevado. Concordo totalmente com o que disse o Pedro Morais Leitão, mas há um aspeto ainda mais grave: além de estar acima do habitual, os jogos já foram vendidos ao YouTube.
Vai existir um jogo por dia, por cada jornada do Mundial, e o melhor jogo foi vendido ao YouTube, incluindo os jogos de Portugal. Naturalmente, nos dias em que Portugal jogar, será sempre o melhor jogo que eles irão escolher e, na nossa leitura, isso reduz automaticamente o valor que a FIFA está a pedir. Portanto, nós devíamos pagar menos.
No imediato e no curtíssimo prazo, isto está errado, não faz sentido, é irrazoável. Já numa perspetiva estratégica, de médio e longo prazo, é muito preocupante a forma como o YouTube está a entrar em Portugal - o único país da Europa onde terá estes direitos sobre o Mundial. Os governantes deveriam olhar para isto com outro nível de preocupação, e não estão a fazê-lo.
Como é que o YouTube conseguiu entrar em Portugal? Porque é que somos uma exceção face a outros países?
Não sabemos; essa pergunta tem de ser colocada à FIFA. Podemos supor que Portugal esteja a ser usado como laboratório - um piloto - para avaliar o modelo, recolher dados (como estas plataformas tecnológicas fazem) e, depois, tentar alargar esse teste-piloto a outros mercados europeus.
RTP, publicidade e regras de concorrência
Faz sentido um canal como a RTP, que não depende das audiências, ter jogos de futebol?
A RTP tem uma estratégia, um orçamento e um contrato de concessão; deve cumprir as regras que lhe são aplicáveis e que estão definidas na lei. O que consideramos injusto - e já o afirmámos repetidamente - é a forma como a RTP é financiada.
Depois, a forma como a RTP decide aplicar os seus recursos é outra questão. Se transmitir jogos da seleção portuguesa for entendido como serviço público, então temos de aceitar. O que é determinante é o que acontece a montante e, aí, efetivamente, discordamos do modelo de financiamento.
Estamos a falar de mais de €20 milhões em publicidade e pode alguém dizer “ah, mas não faz mossa”. Faz. Nós gostaríamos de poder participar nesses €20 milhões; não seria tudo para a SIC e para a TVI, mas deveria existir uma parcela - para além de outras receitas comerciais que a RTP tem e que não se limitam à publicidade.
E, acima de tudo, não é apenas o montante: é o princípio. Ou seja, já existe uma contribuição para o audiovisual que é tão grande. A dimensão é de tal forma que já é superior a toda a faturação do grupo Impresa.
O anterior Governo quis retirar publicidade à RTP, mas o Parlamento travou o processo. Acredita que este Executivo possa voltar a considerar essa medida?
Eu gostava que isso acontecesse, mas para tal é necessário que existam as condições políticas.
Plano para a comunicação social, audiovisual e telenovelas como exportação
O Governo anunciou em outubro de 2024 um plano para a comunicação social. O que destaca como positivo e o que falta concretizar?
Antes de mais, é importante sublinhar que não estamos de mão estendida a pedir ajuda ao Estado, seja qual for o Governo. O jornalismo é, e bem, encarado como um pilar do Estado democrático: contribui para escrutinar os mais poderosos, informar e garantir que as pessoas podem ser informadas.
Mas os media têm também outras dimensões. No campo dos conteúdos - mesmo em informativos, mas sobretudo em entretenimento e ficção - existe uma componente de exportação. Se existirem condições, podemos contribuir para o PIB do país.
O Governo interiorizou que apoiar o audiovisual é relevante, mas esse apoio não pode limitar-se a atrair grandes estúdios de Hollywood para virem cá fazerem o “Fast and Furious” e o “Game of Thrones” e depois irem embora. É essencial que esse esforço também alimente o crescimento de uma indústria nacional.
Em Portugal, as novelas continuam a ser vistas como um género menor?
Sim, e isso é um erro. As novelas refletem uma realidade portuguesa que é valiosa quando se quer exportar para o exterior aquilo que somos culturalmente. Para qualquer Governo, é importante passar essa mensagem: o que se vive em Portugal, os nossos hábitos e a nossa forma de estar.
Neste novo contexto das plataformas de transmissão em contínuo, é necessário ter muitos conteúdos. E temos percebido, recentemente, que as telenovelas são particularmente relevantes para estas plataformas. Através de parcerias com a Amazon e a Disney Plus, temos conseguido vender as nossas novelas e, pelos dados que nos partilham, têm sido bem-sucedidas: são conteúdos que atraem e mantêm as pessoas nas plataformas.
Falta o Governo encarar as novelas como um produto de exportação?
Exatamente. Está a dar passos nesse sentido, mas é preciso que essa consciência se reforce.
E, quando digo que não estamos de mão estendida, refiro-me também à necessidade de harmonização das regras de mercado. O YouTube vai ter os jogos de Portugal e pode fazer o que entender em matéria de investimento publicitário e colocação de publicidade nos jogos, porque o digital não está regulado. Isto é um ataque enorme - uma facada, se quiserem - à concorrência leal. É concorrência desleal, totalmente.
Muitos jogos vão ser transmitidos durante o dia. Nós não podemos colocar publicidade a cervejas ou uísques antes das 22h30, mas eles podem fazer o que quiserem.
Regulação, Plataforma de Media Privados e a relação com o Governo
O Governo não está a dar a atenção necessária aos media?
Essa pergunta deve ser feita ao Governo; não sei. A PMP - Plataforma de Media Privados, de que fazemos parte e que reúne os cinco principais grupos portugueses de media - enviou ao Governo um documento com a indicação exata das alterações que consideramos necessárias ao nível da publicidade, para existirem condições de concorrência equitativas.
Não obtiveram resposta?
Até agora, não. Há matérias que não podem ser decididas apenas pelo Governo porque resultam de diretivas europeias, mas nós discriminámos no documento o que decorre dessas diretivas, o que pode ser definido pela Assembleia da República e o que pode ser decidido pelo próprio Governo.
Plataformas tecnológicas, direitos de autor e IA
Há 10 anos dizia que plataformas como a Google ou o Facebook tinham uma postura arrogante. Mantém essa opinião?
Diria que, passados 10 anos desde essa entrevista, essa arrogância não diminuiu; pelo contrário, tornou-se mais evidente e até reforçada. Costuma dizer-se que com grande poder vem grande responsabilidade, mas aqui parece que com grande poder vem grande arrogância.
Em 2016, tentávamos negociar acordos para que estas grandes plataformas respeitassem os nossos direitos de propriedade intelectual, isto é, os direitos sobre os nossos conteúdos, mas isso nunca chegou a acontecer. Houve momentos em que pensámos estar perto, mas nunca reconheceram que aquilo que utilizam dos nossos conteúdos deveria ser pago e licenciado.
Desde então, houve evolução na Europa, com os direitos dos editores (diretiva dos direitos de autor), que nos dá base para exigir o que estou a referir. Porém, quando nos sentamos à mesa com as plataformas, a arrogância é cada vez mais visível. Até descarada. Apresentam propostas absolutamente ridículas, não temos margem negocial e tudo fica na mesma.
Existe a ideia de que a resposta dos media às plataformas tem de ser europeia e comum. Continua a ser assim ou é um argumento frágil?
Diria que sim e, voltando ao tema da MFE, só a união faz a força. Por isso, estamos a juntar-nos - operadores de televisão, jornais e editores - em coligações. Integramos o European Publishers Council e, em Portugal, a PMP.
A arrogância destas plataformas cresceu também porque detêm tecnologia que mais ninguém tem. Além disso, temos assistido a um grande crescimento destas empresas com a inteligência artificial (IA). Em 2025 e em 2026, a economia americana tem estado, em grande medida, sustentada pela IA e por estas grandes empresas. Se um dia essa bolha rebentar, será um problema.
Para nós, com a IA generativa, tudo se tornou ainda mais difícil, porque voltámos à mesa de negociação, mas, neste momento, já perdemos praticamente o controlo e “o comboio”, dado que os Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLM) estão a ser treinados com base nos nossos conteúdos. Estamos, de certa forma, a regredir: para nós, está cada vez pior, porque a tecnologia avança e nós vamos ficando sempre mais prejudicados. Ou pagam pelos conteúdos, ou então tem de se processar estas empresas.
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