Votação para o Conselho de Opinião da RTP
Esta sexta-feira, Patrícia de Carvalho deverá ser votada para integrar o Conselho de Opinião da RTP em representação do Chega, a par de outros dois deputados do partido, Bernardo Pessanha e Jorge Galveias. A candidatura transporta um percurso pouco habitual, assente em críticas duras ao jornalismo, a repórteres que acompanham o partido e também à própria RTP.
O que defendeu nas audições e no debate sobre o serviço público
Na audição de abril destinada aos candidatos ao Conselho de Opinião da RTP, Patrícia de Carvalho afirmou que atuaria com independência face ao partido e sublinhou que o órgão “tem papel importante nesta questão de evitar que haja tentativa de controlo político do serviço público”. Em intervenções anteriores, destacou a ligação à diáspora e valorizou a programação cultural orientada para o interior do país.
Quando o Governo apresentou a proposta de eliminar a publicidade na RTP, advertiu que “eliminar a publicidade da RTP é retirar-lhe uma importante fonte de financiamento” e sustentou que o plano do executivo “coloca em causa a prestação do serviço público em Portugal”.
Ataques à imprensa durante a campanha europeia e o caso do imigrante
Durante a campanha para as eleições europeias, após um momento que se tornou viral nas redes sociais - quando um imigrante confrontou André Ventura por causa da sua retórica -, o Chega divulgou vários vídeos nos quais espalhava informações falsas sobre esse cidadão. Patrícia de Carvalho, hoje deputada e candidata ao Conselho de Opinião da RTP, alinhou com os ataques e publicou um vídeo em que ameaçou a imprensa, defendendo que “o objetivo final destas pessoas [os comentadores] ou(...) de muitos jornalistas é acabarem com a imagem do Chega, denegrir a imagem do nosso presidente e do partido, porque sabem que somos uma ameaça para este sistema instalado, e é este sistema que queremos modificar e alterar, e eles não podem concordar com isso porque sabem que são os tachos deles que vão acabar”.
A deputada nunca explicou ao Expresso o que pretendia dizer com “tachos” aplicados a jornalistas. Ainda assim, num texto publicado na mesma altura no jornal partidário “Folha Nacional”, voltou a dirigir insultos à comunicação social por ter entrevistado o imigrante e acusou uma estação de televisão de ter “instigado” o homem a criticar Ventura. “Meus senhores, isto não é jornalismo; isto é ativismo político; é uma falta de respeito pelo código de ética e de deontologia do jornalismo. Isto“ Isto é uma vergonha e estes jornalistas não deviam poder exercer a profissão”, atirou.
Conteúdos da RTP questionados e críticas a jornalistas
Fora do plenário, o tom foi menos favorável. Em diferentes ocasiões, Patrícia de Carvalho colocou em causa conteúdos da RTP que, se vier a integrar o Conselho de Opinião, ficará encarregue de escrutinar.
Em julho de 2025, depois de Rita Matias ter citado nomes de crianças, a RTP exibiu uma vinheta em que crianças com nomes tradicionalmente asiáticos e africanos eram substituídas por imagens de Adolf Hitler; na sala permaneceram nomes como “André” e “Rita”. Patrícia de Carvalho, deputada e potencial conselheira, reagiu no Facebook: “Talvez se devesse fazer uma auditoria à RTP para se saber com quem e com o quê está a ser gasto o dinheiro dos contribuintes…”
Já em maio de 2024, criticou a jornalista da RTP Rita Marrafa de Carvalho, na sequência de uma comparação feita na página pessoal da jornalista entre a alegada existência de um “engenho explosivo” na sede do Chega e a “facada de Bolsonaro”, sugerindo haver “discurso de vitimização”. Patrícia de Carvalho manifestou indignação com a opinião e escreveu no Facebook que “o dinheiro dos impostos serve para pagar esta menina”. “Devia ter mais respeito, mas já sabemos como são os jornaleiros de esquerda!”, acusou.
Episódios relatados em “Por Dentro do Chega” e intervenção da ERC
Miguel Carvalho, jornalista e autor do livro “Por Dentro do Chega”, relata também um episódio em que Patrícia de Carvalho terá evidenciado hostilidade perante a presença do antigo repórter da “Visão” que investigou o partido. Segundo Miguel Carvalho, num comício no Porto, a então assessora aproximou-se por ele estar numa mesa destinada a jornalistas e, quando questionada sobre a possibilidade de ali permanecer, respondeu: “Se eu mandasse, não estava.”
No mesmo livro, é ainda descrito que a Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) teve de intervir para garantir a presença do jornalista no congresso de Viana do Castelo, uma vez que “Patrícia Carvalho, diretora de comunicação, dirigente e deputada, fizera saber, dado o pedido de credenciação e a nova condição profissional, que não podia garantir-me entrada no congresso”.
Respostas ao Expresso, “tachos” e pedidos de maior regulação
Em resposta às perguntas colocadas pelo Expresso, Patrícia de Carvalho afirmou que, “enquanto assessora e atualmente como deputada sempre” teve “uma conduta respeitosa para com os jornalistas, nunca faltando ao respeito a ninguém”. “Sempre respeitei o seu trabalho, o que não significa que não o possa criticar quando considero que não respeita o código deontológico dos jornalistas”, disse, acrescentando ainda que “nunca” ameaçou um jornalista.
Sobre a ameaça relativa a “tachos”, à qual recusara responder em 2024, comentou que “não é novidade absolutamente nenhuma que existe um conjunto de jornalistas que usa a profissão e a respetiva exposição pública para combater o Chega”.
Noutra audição, em julho de 2024, perante a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ), referiu casos de jornalistas a exercer funções incompatíveis com o Código Deontológico e criticou que “o que mais há para aí é jornalistas que emitem opiniões”, defendendo uma “regulação mais apertada da ERC” - apesar de não existir impedimento para que jornalistas participem em espaços de opinião, desde que estes sejam apresentados como tal e não como espaços informativos, nomeadamente em editoriais.
Atualmente, além do comentário frequente na RTP, o órgão de comunicação social onde Patrícia de Carvalho é mais vista é a “Folha Nacional”, jornal do Chega já alvo de admoestação da ERC por partilhar notícias e sondagens falsas. Patrícia de Carvalho mantém-se como diretora-adjunta, e essa participação não constava do currículo disponibilizado aos deputados da Comissão de Cultura, Juventude e Desporto, comissão que a própria integra.
Isenção no Conselho de Opinião da RTP e possível conflito
Questionada sobre um potencial conflito entre posições anteriores sobre a RTP e a eventual entrada no Conselho de Opinião, sustenta que “não faz qualquer sentido” pôr em causa a sua isenção no órgão apenas por ser deputada do Chega. “Os membros do Conselho de Opinião ao longo dos anos não tinham opinião e posições políticas públicas? A verdade é que a questão só se coloca agora porque o Chega tem oportunidade - na sequência das eleições legislativas que lhe deram a liderança da oposição - de indicar nomes para o Conselho de Opinião da RTP”, respondeu.
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