Saltar para o conteúdo

David Attenborough: 100 anos de vida e de documentários

Homem alimenta girafa bebé num campo aberto com árvores e equipamento fotográfico ao lado.

A 7 de maio de 2006, na véspera do 80.º aniversário de David Attenborough, o canal britânico UKTV Documentary decidiu assinalar a data em modo de celebração: exibiu um especial com os 20 momentos preferidos do público ao longo de mais de meio século de carreira do naturalista como narrador de documentários de vida selvagem.

Momentos televisivos de David Attenborough eleitos pelo público

Com perto de 25% dos votos, o episódio que mais ficou na memória dos espectadores teve como estrela o pássaro-lira, célebre pela capacidade extraordinária de imitar sons. Escondido na vegetação e mantendo a ave sob observação, Attenborough foi descrevendo, em voz baixa, as particularidades deste animal dono do “canto mais elaborado, o mais complexo e o mais belo do mundo”.

Gravada numa floresta australiana - habitat natural do pássaro-lira -, a sequência pertenceu à série A Vida dos Pássaros, de 1998. No vídeo, o animal alternava entre a reprodução de sons da floresta e a imitação de ruídos humanos, como uma motosserra, o alarme de um automóvel ou o disparo do obturador de uma câmara. Pelo meio, Attenborough ia “traduzindo” o concerto, ajudando quem via a perceber o que estava a ouvir.

A segunda escolha do público veio da série Vida na Terra, de 1979, e mostrou um encontro tão improvável quanto divertido: Attenborough, numa floresta dos Montes Virunga, no Ruanda, junto de uma família de gorilas-das-montanhas. Num dos instantes mais icónicos da sua vida profissional, o naturalista aparecia sentado entre a vegetação, muito próximo dos primatas e disposto a interagir.

A certa altura, um gorila jovem, claramente curioso, aproximou-se. Attenborough permitiu o contacto e, em pouco tempo, o símio pareceu “adotá-lo”, fazendo dele ‘gato sapato’.

O terceiro momento mais votado foi descrito como de cortar a respiração. Attenborough encontrava-se num barco, perto da costa da Nova Zelândia, quando uma baleia-azul - o maior animal do planeta - emergiu a curta distância. A cena integrou a série A Vida dos Mamíferos, de 2002.

Tornar a ciência acessível

Ao longo de décadas, os documentários produzidos e apresentados por David Attenborough registaram milhares de interações com animais em pontos remotos do globo. O modo simples e claro como explicava o que via - convertendo ciência em conhecimento acessível - consolidou-o como um comunicador sem paralelo e, para muitos, o maior nome dos programas de vida selvagem.

David Attenborough completa esta sexta-feira 100 anos. Mais de dois terços desse tempo foram dedicados a explorar e a dar a conhecer o mundo natural, em produções associadas à BBC (Corporação Britânica de Radiodifusão), onde entrou em 1952 como produtor estagiário, num período em que a televisão começava a ganhar espaço nas casas. Dois anos antes, a primeira candidatura que apresentou à estação pública, para produtor de rádio, tinha sido recusada.

Logo no primeiro ano de trabalho, somou os primeiros créditos televisivos com a curta-metragem Celacanto, sobre a relevância da descoberta deste peixe “fóssil vivo” ao largo das Ilhas Comores: uma espécie com poucas alterações evolutivas face a ancestrais pré-históricos e que se julgava extinta.

Em 1954, estreou-se como apresentador com Missão do Zoo, um formato que juntava conversa em estúdio a imagens de campo sobre vida selvagem. De forma pioneira, viajou pelo mundo com a equipa do Jardim Zoológico de Londres à procura de animais exóticos, com o objetivo de os capturar e transportá-los para o Reino Unido, para serem mostrados ao público no zoo londrino.

O programa apoiava-se numa combinação constante: a aventura das expedições e a observação do comportamento animal. Tudo era contado com intenção pedagógica e linguagem acessível - um traço que se tornaria indissociável de Attenborough.

O êxito de Missão do Zoo serviu, além disso, como prova interna para os responsáveis da BBC de que os programas de natureza podiam conquistar audiências à escala mundial.

Família e carreira a par

Quando, em 1957, a BBC criou a Unidade de História Natural, Attenborough foi convidado para liderá-la. Preferiu recusar, uma vez que a função exigia uma mudança para Bristol e ele acabara de se instalar em Londres com a sua jovem família. A 17 de fevereiro de 1950, tinha casado com Jane Elizabeth Ebsworth Oriel, com quem viveu até à morte dela, em 16 de fevereiro de 1997. Tiveram dois filhos: Robert e Susan.

Em vez de seguir para Bristol, Attenborough fundou a sua própria Unidade de Viagens e Exploração, o que lhe permitiu continuar a percorrer o mundo e a manter-se à frente de Missão do Zoo, que ficaria no ar até 1963.

A crescente popularidade das séries de história natural reforçou a sua influência dentro da estação. Em 1965, foi nomeado diretor da BBC Dois, canal criado no ano anterior com a missão de apostar numa grelha mais cultural, educativa e experimental.

Enquanto diretor, acompanhou as primeiras emissões regulares a cores na Europa, que na BBC Dois começaram a 1 de julho de 1967 - cerca de um mês antes das estações alemãs ARD e ZDF. Para tirar o máximo partido do impacto da cor nos ecrãs, introduziu na programação transmissões de uma modalidade de bilhar muito popular.

Em 1969, subiu a diretor de programação dos dois canais da BBC. Entre as decisões que marcaram a inovação televisiva, esteve a encomenda de O Circo Voador dos Monty Python, ponto de partida para um fenómeno de comédia que inspiraria gerações de humoristas em todo o mundo.

Ficou na direção até 1973, altura em que se demitiu para voltar, a tempo inteiro, ao que o movia desde criança: produzir e narrar programas de história natural, alimentando uma curiosidade que nunca deixou de o acompanhar.

David Frederick Attenborough nasceu a 8 de maio de 1926, em Isleworth, localidade inglesa do condado histórico de Middlesex, a oeste de Londres. Dezassete dias antes, tinha nascido a futura rainha Isabel II.

Foi o filho do meio de Frederick Levi Attenborough e Mary Clegg. O irmão mais velho, Richard (1923-2014), construiria carreira no cinema como ator - foi John Hammond, o criador do parque em Parque Jurássico - e como realizador - venceu um Óscar com o filme Gandhi. O irmão mais novo, John (1928-2012), tornou-se executivo na indústria automóvel.

A infância de David decorreu no recinto do Colégio Universitário de Leicester, instituição precursora da atual Universidade de Leicester, onde o pai era reitor e onde a família vivia. Nesse ambiente académico, conviveu com professores e alimentou o desejo de vir a ser geólogo. Munido de um martelo, passava muito do tempo livre a explorar pedreiras abandonadas à procura de fósseis, que via como tesouros escondidos.

Tinha cerca de 11 anos quando, segundo registos da Universidade, descobriu que o departamento de zoologia precisava de tritões. Foi a um lago nas imediações, apanhou alguns e vendeu-os à universidade por três pence cada.

Os Attenborough atravessaram os anos da II Guerra Mundial no mesmo recinto universitário. A certa altura, o pai - que se empenhara em retirar académicos judeus da Alemanha, oferecendo-lhes trabalho - recebeu um pedido de um médico de Berlim: que acolhesse as duas filhas. Helga e Irene Bejach, de 13 e 11 anos, foram recebidas pela família em agosto de 1939, dezassete dias antes de a guerra começar. O pai das raparigas seria morto em Auschwitz.

A causa dos refugiados era particularmente importante para Mary, a matriarca, envolvida em questões humanitárias e de direitos humanos. Na altura, era secretária do núcleo de Leicester do Comité Basco para as Crianças, criado para acolher jovens refugiados bascos que fugiam da Guerra Civil de Espanha.

Para David, esses anos foram marcados pelo estudo: primeiro na Escola de Gramática Wyggeston para Rapazes, em Leicester, e depois no Colégio Clare da Universidade de Cambridge, onde se licenciou em Ciências Naturais.

Em 1947, foi chamado para cumprir o serviço militar obrigatório na Marinha. Depois de o concluir, trabalhou numa editora de manuais de ciências para crianças - emprego que deixaria antes de iniciar o percurso que o levaria à BBC.

Na televisão pública, durante sete décadas, Attenborough tornou-se a face de programas que juntavam conhecimento e maravilhamento. As suas viagens fizeram com que animais raros “entrassem” nas casas de milhões de telespectadores, como o esquivo dragão-de-komodo, filmado pela primeira vez nos anos 50 e exibido num episódio de Missão do Zoo. As incursões em regiões pouco exploradas, em contacto com povos isolados, criavam a sensação de que aquelas tribos nunca tinham visto estrangeiros antes da chegada de Attenborough.

Lançada em 1979, Vida na Terra - a primeira de nove séries que viriam a compor a coleção Vida - teve a narração da “voz quase divina” de Attenborough, como a rotulou o jornal Times de Nova Iorque. A obra percorreu a história do mundo vivo, dos primeiros micróbios até à humanidade, e resultou de três anos de investigação e filmagens pelos quatro cantos do planeta.

Com o tempo, os documentários ganharam ainda mais impacto graças a técnicas de filmagem inovadoras, capazes de revelar os animais nos seus habitats com detalhe e precisão. Em 1995, A Vida Privada das Plantas recorreu a fotografia acelerada. Três anos depois, A Vida dos Pássaros utilizou câmaras de infravermelhos para captar, de noite, imagens de kiwis. E em 2005, Vida na Vegetação Rasteira lançou mão de macrofotografia para filmar invertebrados.

É muito provável que Attenborough esteja entre as pessoas que mais viajaram no mundo - apesar de não ter carta de condução. Estima-se que, só para o documentário A Vida dos Pássaros, tenha percorrido cerca de 412 mil quilómetros, o equivalente a mais de dez voltas ao planeta.

Conservação, alterações climáticas e “efeito Attenborough”

O naturalista sempre sustentou que, no início, não fazia programas a pensar em conservação. O que o movia era observar e deixar-se deslumbrar. “Fiz esses filmes porque era extremamente prazeroso. Mas, à medida que os ia fazendo, tornava-se cada vez mais evidente que as criaturas que me davam tanta alegria estavam ameaçadas”, confidenciou no documentário Quantas Pessoas Cabem na Terra?, de 2009. “A diversão está em encantarmo-nos com os animais, mas, se o fazemos, devemos-lhes algo, por isso temos a obrigação de nos manifestarmos e fazermos o que pudermos para os proteger.”

Também nunca fugiu às críticas de ter despertado tarde para a urgência ambiental. “Eu era cético em relação às alterações climáticas. Tinha cautela em relação ao alarmismo. Penso que os ambientalistas devem ter cuidado ao afirmar que as coisas são catastróficas quando, na verdade, são menos do que catastróficas”, escreveu num artigo de opinião publicado no jornal O Independente, a 24 de maio de 2006. “Mas já não sou cético. Agora não tenho dúvida nenhuma. Penso que as alterações climáticas são o maior desafio que o mundo enfrenta.”

Explicou esse ceticismo inicial com a exposição pública que tinha e com a falta de conhecimentos especializados em clima que lhe dessem segurança para falar do tema. “Faço programas de história natural para a televisão. Ora, fazê-lo com a regularidade com que o faço é uma posição extremamente privilegiada. E, portanto, não quero começar a falar sobre coisas que não tenho a certeza se são verdadeiras”, disse à jornalista da CNN Christiane Amanpour, a 30 de novembro de 2015, à margem da Conferência de Paris sobre as Alterações Climáticas. “Mas nos últimos dez anos, não houve realmente dúvidas sobre como a Humanidade foi responsável por este aumento de temperatura.”

Nos últimos anos, os seus trabalhos passaram a refletir de forma mais direta essas preocupações. Um exemplo marcante foi a série O Nosso Planeta, lançada em 2019, centrada nas consequências da ação humana nas alterações climáticas e na perda de biodiversidade.

Outro aviso relevante surgiu com Planeta Azul II, de 2017. Se, em 2001, O Planeta Azul tinha sido a primeira grande exploração dos oceanos, a continuação não se limitou às maravilhas das profundezas: expôs também a poluição por plástico e o estado crítico dos ecossistemas marinhos.

A influência foi tal que se popularizou a expressão “efeito Attenborough”. Uma sondagem feita no Reino Unido junto de pessoas que viram Planeta Azul II concluiu que 88% dos inquiridos afirmavam ter alterado hábitos relacionados com o ambiente.

Ainda assim, do ceticismo à projeção pública, Attenborough não se assumiu como militante. A 4 de novembro de 2018, depois de uma entrevista ao jornal britânico O Observador, foi acusado de incoerência: por um lado, dizia ser evidente, em todo o lado, o impacto da perda de habitat, das alterações climáticas e da poluição; por outro, mantinha que lançar alertas com excessiva frequência podia ter efeito contrário.

“Temos um problema. Cada vez que o alarme toca, cada vez que aparece aquela imagem [de um animal ameaçado], diz-se ‘lembrem-se, eles estão em perigo’. Com ​​que frequência se diz isto sem se tornar realmente desagradável? Seria irresponsável ignorar, mas acredito igualmente que temos a responsabilidade de fazer programas que abordem todos os outros aspetos e não apenas este”, disse.

Para alguns críticos, os seus filmes transmitiam a ideia de um mundo abundante e intacto, como se a vida selvagem prosperasse mesmo em locais que, na realidade, estavam em regressão ecológica.

O estatuto de autoridade em história natural também se reflete na quantidade de espécies - mais de 50, entre animais e plantas - batizadas com o seu nome. Entre elas estão um sapo (Pristimantis attenboroughi), uma flor amarela da família do dente-de-leão (Hieracium attenboroughianum), uma planta carnívora (Nepenthes attenboroughii), a borboleta-sátiro-de-olhos-negros (Euptchia attenboroughi) e um dinossauro extinto de pescoço comprido (Attenborosaurus).

O nome Attenborough foi ainda atribuído a uma constelação com forma de baleia, criada num projeto conjunto de astrónomos da Universidade de Birmingham e da Feira da Grande Explosão, um evento britânico para jovens dedicado a ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Em 2021, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente distinguiu-o como Campeão da Terra. “Sabemos quais são os problemas e sabemos como resolvê-los. Tudo o que nos falta é uma ação unificada”, afirmou Attenborough no discurso de aceitação do prémio.

No documentário Quantas Pessoas Cabem na Terra?, o naturalista pôs o foco na sustentabilidade e no crescimento da população mundial. “Hoje vivemos numa era em que a maior ameaça ao bem-estar humano, às outras espécies e à Terra tal como a conhecemos, pode muito bem ser nós próprios. A questão do tamanho da população é sempre controversa porque afeta as decisões mais pessoais que tomamos, mas ignorá-la é um risco que não podemos correr”, disse.

“Na minha opinião, a Humanidade precisa de reduzir urgentemente o seu impacto na Terra, e existem três formas de o conseguir: podemos deixar de consumir tantos recursos, podemos mudar a nossa tecnologia e podemos reduzir a nossa população. Provavelmente precisamos de fazer as três coisas.”

No filme da Netflix Uma Vida no Nosso Planeta, de 2020, abordou a destruição de habitats e apresentou uma proposta de futuro. “Temos de mudar a nossa alimentação. O planeta não consegue sustentar milhares de milhões de consumidores de carne. Se tivéssemos uma dieta predominantemente à base de plantas, poderíamos aumentar a produtividade da terra”, defendeu.

O próprio mudou a alimentação. “Não de forma muito drástica”, admitiu numa entrevista à revista Boas Práticas Domésticas, a 1 de outubro de 2020. “Mas acho que não como carne vermelha há meses. Como queijo e como peixe. No geral, tornei-me muito mais vegetariano nos últimos anos do que alguma vez imaginei.”

Prémios, tecnologias e vida pública

O reconhecimento popular foi acompanhado pelo reconhecimento da indústria do entretenimento. As séries de Attenborough, com cinematografia de grande qualidade e filmagens em alta definição, deram aos telespectadores uma sensação de imersão e conquistaram vários prémios Emmy, que distinguem a excelência artística e técnica na televisão.

A título individual, venceu três prémios na categoria de Narrador Excecional. Em 2025, aos 99 anos, tornou-se o vencedor mais velho de um Emmy na categoria de “Personalidade de Destaque em Programa Diurno Não Diário”, graças ao trabalho na produção da Netflix Vidas Secretas dos Orangotangos, de 2024.

Ganhou igualmente vários prémios BAFTA, o principal galardão do cinema e da televisão no Reino Unido, tendo recebido o primeiro em 1961. A duração invulgar da sua carreira nota-se no facto de ter sido premiado por programas em preto e branco, a cores, em 3D, em 4K (ultra-alta definição) e em realidade virtual.

Nos documentários, mostrou-se entusiasta da inovação tecnológica; já na vida pessoal, assumiu alguma resistência a comunicar por correio eletrónico, por exemplo. A 8 de janeiro de 2021, numa entrevista à BBC Rádio 1, contou que chegava a receber até 70 cartas por dia e que fazia um esforço para responder. “Faço o meu melhor. Por vezes, as pessoas, misericordiosamente, não colocam o endereço, porque não estão habituadas a enviar cartas. Se não se importarem de incluir um envelope selado e endereçado a si próprio, terei muito gosto em responder”, explicou.

Na mesma conversa, disse também que tinha saído do Instagram e que não tencionava voltar. Quando entrou, a 24 de setembro de 2020, passou para o Livro Guinness dos Recordes como a personalidade que atingiu mais depressa um milhão de seguidores nessa rede social: conseguiu-o em quatro horas e 44 minutos ligado. Na primeira publicação, escreveu: “Salvar o nosso planeta é agora um desafio de comunicação”.

Como historiador da natureza, nunca se deixou limitar pela idade. Em 2015, com 89 anos, encolheu-se no interior de um submersível Triton e desceu a 300 metros de profundidade ao largo da Austrália, para captar imagens inéditas da Grande Barreira de Coral, o maior recife de coral do mundo.

O seu deslumbramento evidente com o meio ambiente levou, mais do que uma vez, a perguntas sobre fé: se aquilo que observava o fazia acreditar num criador e se toda a beleza e diversidade do mundo natural seria uma criação espontânea de Deus.

“Por vezes, as pessoas dizem-me: ‘Porque é que não admite que o colibri, a borboleta e a ave-do-paraíso são provas das coisas maravilhosas produzidas pela Criação?’”, disse a 7 de novembro de 2002, numa entrevista feita no Mali para o programa 60 Minutos, da CBS. “Respondo sempre: ‘Bem, quando diz isso, também tem de pensar num rapazinho sentado na margem de um rio, como aqui, na África Ocidental, que tem um pequeno verme, um organismo vivo, no seu olho, a perfurar os seus globos oculares e a cegá-lo lentamente. O Deus criador em que acredita, presumivelmente, também criou este pequeno verme’”, disse, considerando desconcertante atribuir tal ação a uma divindade misericordiosa.

“Pessoalmente, acho isso difícil de aceitar e, por isso, quando faço estes filmes, prefiro mostrar o que sei serem factos, o que sei ser verdade; depois, as pessoas podem deduzir o que quiserem a partir disso”, acrescentou. Em entrevistas posteriores, o naturalista assumiu-se como agnóstico.

Attenborough é visto como um tesouro nacional no Reino Unido. Em 1985, a rainha Isabel II fez dele cavaleiro, atribuindo-lhe o estatuto de Cavaleiro Solteiro, pelo impacto do seu trabalho na divulgação científica e na história natural. Com a distinção, passou a ser tratado com um título honorífico. Em 2020, a monarca voltou a condecorá-lo, desta vez com a insígnia de Cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem de São Miguel e São Jorge, por serviços prestados à radiodifusão e à conservação.

Sem se definir como amante de animais, reconhece que os seres vivos o fascinam e lhe dão prazer intelectual. Ainda assim, nunca escondeu a aversão a ratos. Num episódio de Histórias de Vida, da BBC, contou que o trauma começou numa cabana de palha, numa aldeia das Ilhas Salomão, durante uma tempestade. Sentiu algo a roçar-lhe o pé e, ao acender a lanterna, viu um rato a atravessar a cama.

Em 2024, quando o prestigiado Conselho Britânico assinalou 90 anos de atividade, promoveu um inquérito para apurar quem seria o maior ícone britânico dos últimos 90 anos. Isabel II venceu com 41%. David Attenborough ficou logo atrás, a apenas 1% de distância. Seguiram-se a princesa Diana, Winston Churchill e Freddie Mercury.

A longa corrida de David Attenborough deu frutos. “Fui afortunado em poder ver durante a minha vida alguns dos maiores espetáculos que a natureza tem para oferecer”, afirmou no documentário Estado do Planeta, de 2000, antes de deixar um apelo: “Temos a responsabilidade de deixar para as gerações um planeta que seja saudável e habitável por todas as espécies”.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário